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sexta-feira, 29 de junho de 2012

621. Leitora

Catherine Listens To The Ominous Ring.
de Janet Hill

620. Ser Mulher

Pintura de Annabelle Verhoye
Sou uma mulher,
mas a minha feminilidade
nunca foi para mim
um incômodo nem um álibi.

Simone du Beauvoir

619. fascínio pelas histórias

Leitora,
de Akzhana-Abdalieva
O fascínio pelas histórias resulta dessa absoluta necessidade de brincar. Como todos os animais caçadores carecemos dessa aprendizagem ritualizada.
Como um gato perante o novelo, assim estamos ante o texto que nos encanta.

Mia Couto

618. Cadeira de baloiço

Design de David Meddings

617. Aprendiz de Viajante

Ilustração de sandra Nascimento
Um dia li num livro:
«viajar cura a melancolia».

Creio que, na altura, acreditei no que lia.
Estava doente, tinha quinze anos.
Não me lembro da doença que me levara à cama,
recordo apenas a impressão que me causara,
então, o que acabara de ler.
Os anos passaram - como se apagam as estrelas cadentes
e, ainda hoje, não sei se viajar cura a melancolia. No entanto,
persiste em mim aquela estranha impressão de que lera uma predestinação.

A verdade é que desde os quinze anos nunca mais parei de viajar.
Atravessei cidades inóspitas, perdi-me entre mares e desertos,
mudei de casa quarenta e quatro vezes e conheci corpos que deambulavam pela vaga noite...
Avancei sempre, sem destino certo.
Tudo começou a seguir àquela doença.
Era ainda noite fechada. Levantei-me e parti.
Fui em direcção ao mar. Segui a rebentação das ondas,
apanhei conchas, contornei falésias; afastei-me de casa o mais que pude.
Vi a manhã erguer-se, branca, e envolver uma ilha;
vi crepúsculos e noite sobre um rio, amei a existência.
Dormia onde calhava; no meio das dunas, enroscado no tojo,
como um animal; dormia num pinhal ou onde me dessem abrigo,
em celeiros, garagens abandonadas, uma cama...
e quando regressei, com a ânsia do eterno viajante dentro de mim.
Hoje sei que o viajante ideal é aquele que, no decorrer da vida,
se despojou das coisas materiais e das tarefas quotidianas.
Aprendeu a viver sem possuir nada, sem um modo de vida.
Caminha, assim, com a leveza, de quem abandonou tudo.
Deixa o coração apaixonar-se pelas paisagens enquanto a alma,
no puro sopro da madrugada, se recompõe das aflições da cidade.
A pouco e pouco, aprendi que nenhum viajante vê o que os outros viajantes,
ao passarem pelos mesmos lugares, vêem.
O olhar de cada um, sobre as coisas do mundo é único,
não se confunde com nenhum outro.
Viajar, se não cura a melancolia, pelo menos,
purifica. Afasta o espírito do que é supérfluo e inútil;
e o corpo reencontra a harmonia perdida - entre o homem e a terra.
O viajante aprendeu, assim, a cantar a terra, a noite e a luz,
os astros, as águas, os peixes e a treva, os peixes, os pássaros e as plantas.
Aprendeu a nomear o mundo.
Separou com uma linha de água o que nele havia de sedentário daquilo que era nómada;
sabe que o homem não foi feito para ficar quieto.
A sedentarização empobrece-o, seca-lhe o sangue,
mata-lhe a alma - estagna o pensamento.
Por tudo isto, o viajante escolheu o lado nómada da linha de água.
Vive ali, e canta - sabendo que a vida não terá sido um abismo,
se conseguir que o seu canto, ou estilhaços dele,
o una de novo ao Universo.

Al Berto

616. Poeta Lírico

Eça de Queirós
por João Vaz de Carvalho
 Seria mesmo talvez melhor a profissão de poeta lírico, se não fosse uma profissão perigosa. Ainda há pouco, um pediu em casamento não sei que doce açucena, moradora na Baixa; o pai dela interrompeu a história dos idílios sacrossantos e municipais para perguntar ao namorado gentil qual era a sua profissão. «Sou poeta lírico», respondeu ele, «e vivo do meu estado.» — O velho ergueu-se de golpe, tomou uma bengala e espancou o poeta lírico, laureado em três cançonetas exóticas.

Eça de Queirós , «O Milhafre», in Contos, Lisboa,  Bertrand Editora, s.d., p.31

615. As Palavras

Nós não somos do século d'inventar as palavras. As palavras já foram inventadas. Nós somos do século d'inventar outra vez as palavras que jâ foram inventadas.

José de Almada Negreiros

614. Leitora

Girl Reading, Katie Ward

613 [Leitora]

Ilustração de Evelina Oliveira

quinta-feira, 28 de junho de 2012

612. A Ribeira do Anjo

Numa madrugada de Inverno, após uma noite de chuva grossa, uma gota de água amanheceu a deslizar entre duas pedras. A seguir veio outra e outra. Quando a manhã começou a ganhar mais Luz, um fiozinho de água deslizava já, teimoso e à surrelfa, por entre as ervas. Encalhou entre três grandes calhaus e por ali foi ficando até se transformar numa poça brilhante e funda. Passados dois dias, caiu do céu uma negra trovoada e, quando as nuvens sossegaram, a fonte engrossou subitamente e a água jorrou lá do alto, do seu leito de ervas e pedras na direcção do vale. Brincou, indecisa, por entre velhas raízes e folhas secas, até que se acomodou entre os pedregulhos que há muito tinham rolado do alto da montanha. E por ali ficou, escorregando aqui, saltando acolá, atravessando campos cobertos de geada e ramadas nuas. E, brincando sempre, foi encontrando o seu caminho na direcção do grande rio. Tinha nascido uma ribeira. Sempre que chovia, o seu leito engrossava e corria, agora, cada vez mais poderoso e mais fundo.
Quando chegou a Primavera, as suas margens cobriram-se de fetos e de violetas selvagens. Pequenos choupos e ulmeiros despontaram vigorosamente da terra. Chegaram libelinhas e borboletas enquanto minúsculas trutas cintilavam em grandes acrobacias para vencer a corrente. Por fim, veio um moleiro e construiu um moinho nas suas margens para que a força da água moesse os grãos de milho e de centeio.
Vivia contente, a ribeirinha. Toda ela vibrava de exaltação. Tinha prazer em ouvir a sua própria voz cantando por entre as pedras e gostava de sentir o seu corpo engrossar com a água que caía do céu nos dias cinzentos. Os rebanhos vinham de longe para beber e colónias de agriões minúsculos tinham despontado ao longo das suas margens. As crianças das aldeias mais próximas vinham, em bando, colhê-los e dançavam na água até que o Sol se pusesse.
Com o passar dos anos o moinho deixou de transformar os grãos em farinha e o moleiro vendeu-o a um homem. Era um gigante louro e barbudo que passou a viver lá, completamente só. Era duro morar lá dentro no Inverno, porque as margens da ribeira cresciam e inundavam o chão, que era de terra batida. As pessoas da aldeia mais próxima achavam estranho uma pessoa morar ali tão sozinha e tão pobremente. Mas apesar disso e de não saberem de onde viera nem como viera, gostavam dele. Ajudava toda a gente: fazia longos carreiros entre as ervas para que a água do ribeiro se encaminhasse para os campos, guardava os rebanhos que pastavam nas suas terras, ajudava os camponeses por altura das colheitas. Plantava árvores. Passava a vida a plantar árvores. Havia quem jurasse que o vira acariciar as folhinhas que nasciam na Primavera e, por isso, muita gente da aldeia cuidava que era maluco. Falava muito pouco mas, de vez em quando, chegavam pessoas estranhas à aldeia, só para estar com ele. Encaminhavam-se pelo carreiro que ia dar ao moinho e quando voltavam, traziam nos olhos uma expressão pacífica e feliz.
A única coisa certa que as pessoas da aldeia sabiam do homem era que ele tinha um grande amor pela ribeira. Passava a maior parte do seu tempo de pés na água, limpando as suas margens, reparando os estragos que o Inverno fizera na corrente, organizando as pedras do seu leito para que a água melhor se acomodasse ou para que a sua música melhor se ouvisse. Por isso também havia gente que jurava que falavam os dois, ele e a água.
Mas um dia as águas da ribeira perderam a sua luminosa transparência. Primeiro ganharam um tom ligeiramente rosado. Depois, aos poucos, foram escurecendo e acabaram por ficar de um tom avermelhado, cor de sangue. As libelinhas e as borboletas desapareceram e centenas de pequenas trutas apareceram mortas, a boiar à tona da água. Os milhos e as couves estiolaram e morreram. As águas pareciam também mortas, já nem cantavam entre as pedras. Apenas espumavam. Os camponeses arrepelaram-se de aflição e começaram a dizer que a ribeira estava endemoninhada. E foram, em procissão, ter com o homem do moinho.
A partir daí o homem do moinho deixou de dormir. Passava dia e noite percorrendo o leito da ribeira, perscrutando as águas, limpando-as da espuma, ansioso e atento às suas mais pequenas transformações. Mas as águas continuavam a correr, lentas e viscosas. Quando o homem saía do ribeiro e punha os pés na terra, trazia-os tão vermelhos como a própria água. Até que uma noite a corrente tornou-se de repente mais agitada, mais barulhenta.
—    Querem acabar comigo... — borbulhava a ribeira.
O homem, ao princípio, não percebeu que a ribeira falava. Na realidade era uma invenção da aldeia aquela história de ele conversar com ela. Aflito, apenas observava a corrente e lhe doíam os seus gemidos, perdidos na noite muito escura.
—    Tu aí! — repetiu a ribeira. — Eu sei que tens pena de mim...
Mas o homem não percebia. Queria muito perceber, mas não percebia.
—    Eu sei que tens pena de mim... — insistia a água.
O homem ficou muito aflito. Finalmente, parecia-lhe que a água murmurava qualquer coisa.
Então passou toda a noite a tentar decifrar a fala da ribeira. Acariciava e limpava as poucas plantas aquáticas que ainda sobreviviam, punha pedrinha daqui, tirava de acolá, escavava a areia do fundo, aconchegava a água. E escutava.
—    Querem matar-me... — soluçava a ribeira. — Querem acabar comigo... — tornava a soluçar a ribeira.
E ninguém soube nunca como aconteceu. Durante muitos dias e muitas noites ainda, o homem do moinho esteve fielmente atento à ribeira. E à força de escutar, talvez tivesse, finalmente, compreendido os seus gemidos. Porque, uma manhã, já no fim do Verão, os camponeses viram chegar, nos antigos regos, crestados pelo ardor do veneno, a mesma água cristalina de antigamente. Alegres, ajoelharam-se na terra, beijaram a água, deram de beber aos seus campos secos. A seguir correram para as margens da ribeira que serpenteava entre as pedras, transparente e pura, com o vigor e a força de antigamente. Levantaram as mãos para o céu. E, ao fim do dia, foram todos ao moinho agradecer ao homem. Mas o moinho estava fechado, o homem tinha desaparecido sem deixar rasto.
É desde essa época que lhe chamam Ribeira do Anjo. Porque, quem conta hoje esta história, nunca se esquece de afirmar que o dono do moinho era um anjo e o seu corpo se fundiu com a água para produzirtão grande milagre. Há até quem lá veja, ainda hoje, umas grandes asas brancas voejando com a névoa nos dias de muito frio. Também há quem pense que era um santo. Ou um espírito das águas. E que a ribeira, vigiada lá de cima, estará para sempre a salvo de todos os males. Porque ainda hoje a sua água continua, cristalina e saltitante, fazendo música por entre as pedras.
Também há quem diga que foi apenas coincidência: que o homem desgostoso e cansado da sua solidão, partiu dali para nunca mais voltar. E que um dia virá em que outra fábrica se instalará nas suas margens e vomitará as suas sujas entranhas para o leito da ribeira.

Teresa Savedra, Contos que o vento soprou, Porto, Civilização Editora, s.d.,pp.29-32

611. O pprazer de destruir

Há em destruir um prazer que não tem sentido, e por isso é um prazer. As crianças sabem isso. Abrem um brinquedo, dão-lhe outro significado, usam-no como se criassem algo de novo.

Agustina Bessa Luís, Vento, Areia e Amoras Bravas, Lisboa, Babel, 2011, p.64.

610. Era difícil...

Era difícil ser tudo ao mesmo tempo: rico e boa pessoa; célebre, feliz e estimado. Eram coisas que se contradiziam e traziam complicações.


Agustina Bessa Luís, Vento, Areia e Amoras Bravas, Lisboa, Babel, 2011, p.64.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

609. O Vento

O vento era como uma pessoa viva. Havia dias em que ele aparecia zangado e entrava pelas ruas a soprar, a abanar os toldos, a levantar a areia e a escurecer o sol. O vento era assim. Lourença não gostava dele. Trazia sempre o cabelo despenteado e a areia colada à cara.
Quando ele vinha do Norte, levantava o pano das barracas e fazia rolar os chapéus pela praia fora. Bufava como um touro, miava como um gato. Lourença batia-se com o vento, trocava-lhe o caminho, espreitava-o das esquinas, ia sair mais longe para o enganar. Mas o vento era indomável; se comia na praia, o vento enchia de areia o bolo de arroz; entrava nas costuras e, um ano depois, se a bainha era desfeita, a areia caía no chão com um barulhinho amigável. Como se dissesse: «Cumprimentos do vento, ele espera-te lá fora». A areia e o vento andavam juntos e davam-se bem. Areia seca e areia molhada; areia com cheiro a peixe e gosto a sal; areia branca, areia de terra, areia de pó. Era demais. Lourença disse:
— Quero um escafandro para sair à rua.

Agustina Bessa Luís, Vento, Areia e Amoras Bravas, Lisboa, Babel, 2011, p.53.

terça-feira, 26 de junho de 2012

608. Amar é...

Amar não é olhar um para o outro, é olhar juntos na mesma direção.

Antoine de Saint Exupéry

607. Livros devoradores

 Uma tarde, uma tarde como tantas outras, o meu pai estava a ler um livro que mantinha debaixo dum impresso de IRS para que o chefe não reparasse que ele não estava a trabalhar. E foi nessa tarde que ele, de tão embrenhado, tão concentrado na leitura, entrou livro adentro. Perdeu-se na leitura. Quando o chefe da repartição chegou à secretária do meu pai, ele já lá não estava. 

Afonso Cruz, Os Livros que devoraram o meu pai

606. Leitura

Pintura de Daniel F. Gerhartz

605. Ponte 35 de abril (Lisboa)

Fotografia de Pedro Moura Pinheiro

604. Rossio (Lisboa)

Jacarandás no Rossio com Fonte - Lisboa

segunda-feira, 25 de junho de 2012

603.Frutos



Pêssegos, pêras, laranjas,
morangos, cerejas, figos,
maçãs, melão, melancia,
ó música de meus sentidos,
pura delícia da língua;
deixai-me agora falar
do fruto que me fascina,
pelo sabor, pela cor,
pelo aroma das sílabas:
tangerina, tangerina.

Eugénio de Andrade,

domingo, 24 de junho de 2012

602. Leitura



Pintura de 602 Carmen Segovia

stop
a vida parou
ou foi o automóvel?

Carlos Drummond de Andrade

601. Viagem


Ilustração de Selçuk Demire
A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o visitante sentou na areia da praia e disse:
“Não há mais o que ver”, saiba que não era assim. O fim de uma viagem é apenas o começo de outra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que se vira no verão, ver de dia o que se viu de noite, com o sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para repetir e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre.

José Saramago    

600. Dor


sexta-feira, 22 de junho de 2012

595. Silêncio

Existe no silêncio
tão profunda sabedoria
que às vezes ele se transforma
na mais perfeita resposta.

Fernando Pessoa

quinta-feira, 21 de junho de 2012

594. Consolo na praia

Pintura de 594 Mark Kostabi_

Vamos, não chores...
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.
O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.
Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.
Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o 'humour'?
A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.

Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 20 de junho de 2012

593. Cartas de Amor

Cartas de amor são escritas não para dar notícias, não para contar nada, mas para que mãos separadas se toquem ao tocarem a mesma folha de papel.

Rubem Alves

terça-feira, 19 de junho de 2012

592. [Pequeno Leitor]


591. Leitura

Ilustração de Patricia Metola

591. Poesia

Quando mulheres de pestanas longas (continuou o senhor Breton), e homens de coração saltitante dizem que a poesia é o seu alimento, vê-se bem que nunca passaram fome. Mas isto seria outra conversa. Não falemos do fundamental, falemos de poesia.
E na poesia há um outro lado desta questão que é o seguinte: um verso não tem currículo. Isto é: parece-me que um verso, quando é forte e bom, vem sem mais nada atrás, sem percurso; surge do zero. É muito e grande durante o instante em que existe nos nossos olhos e na nossa cabeça, e depois desaparece.

Gonçalo M. Tavares, O Senhor Breton

segunda-feira, 18 de junho de 2012

590. Ler

Berthe Morisot,  
Portrait of the Artist's Daughter Julie Manet at Gorey

Quando lemos, tornamo-nos antes de qualquer coisa especialistas em vida. Adquirimos uma riqueza que não está apenas no acesso às ideias, mas também no conhecimento do ser humano em toda a sua diversidade.

Tzvetan Todorov

domingo, 17 de junho de 2012

589. O Tempo Vale Muito Mais do que o Dinheiro

Perder tempo não é como gastar dinheiro. Se o tempo fosse dinheiro, o dinheiro seria tempo.
Não é. O tempo vale muito mais do que o dinheiro. Quando morremos, acaba-se o tempo que tivemos. Quando morremos, o que mais subsiste e insiste é a quantidade de coisas que continuam a existir, apesar de nós.
O nosso tempo de vida é a nossa única fortuna. Temos o tempo que temos. Depois de ter acabado o nosso tempo, não conseguimos comprar mais. Quando morreu o meu pai, foi-se com ele todo o tempo que ele tinha para passar connosco. As coisas dele ficaram para trás. Sobreviveram. Eram objectos. Alguns tinham valor por fazer lembrar o tempo que passaram com ele - a régua de arquitecto naval, os relógios - quando ele tinha tempo.
As pessoas dizem «time is money» para apressar quem trabalha. A única maneira de comprar tempo é de precisar de menos dinheiro para viver, para poder passar menos tempo a ganhá-lo. E ficar com mais tempo para trabalhar no que dá mais gosto e para ter o luxo indispensável de poder perder tempo, a fazer ninharias e a ser-se indolente.
A ideologia dominante de aproveitar bem o tempo impede-nos de perder esses tempos. Quando penso no meu pai, todas as minhas saudades são de momentos que perdi com ele. Uma noite, numa cabana no Canadá, confessou-me que o único filme de que gostava era «Um Peixe Chamado Wanda«. Todos os outros eram uma perda de tempo. Perdemos a noite inteira a falarmos e a rirmo-nos disso. Ainda hoje tem graça.

Miguel Esteves Cardoso, Jornal Público (26.11..2011)'

588.Como eu queria

Cleo Andrea Cleopazzo, Amor Sussurrato
Quero ler-te
Lentamente
Verso a verso
Como se fosses poesia

Quero sentir-te
Lentamente
Gota a gota
Como se fosses maresia

Respirares-me
Boca a boca
Lentamente

Como eu queria.


José Gabriel Duarte, No Outro Lado de Mim (a publicar)

via Quem lê Sophia de mello Breyner Andresen

587. Ao espreitar pelas janelas dos teus olhos,

 JOSÉ GABRIEL DUARTE, in NO OUTRO LADO DE MIM (a publicar)


Ao espreitar pelas janelas dos teus olhos,
fico a saber se ainda tenho espaço dentro de ti …

José Gabriel Duarte, No Outro Lado de Mim (a publicar)

via Quem lê Sophia de mello Breyner Andresen

586. Balada das dez bailarinas do cassino

With the muses, aguarela de Donna Mulholland 

Dez bailarinas deslizam
por um chão de espelho.
Têm corpos egípcios com placas douradas,
pálpebras azuis e dedos vermelhos.
Levantam véus brancos, de ingênuos aromas,
e dobram amarelos joelhos.

Andam as dez bailarinas
sem voz, em redor das mesas.
Há mãos sobre facas, dentes sobre flores
e com os charutos toldam as luzes acesas.
Entre a música e a dança escorre
uma sedosa escada de vileza.

As dez bailarinas avançam
como gafanhotos perdidos.
Avançam, recuam, na sala compacta,
empurrando olhares e arranhando o ruído.
Tão nuas se sentem que já vão cobertas
de imaginários, chorosos vestidos.

As dez bailarinas escondem
nos cílios verdes as pupilas.
Em seus quadris fosforescentes,
passa uma faixa de morte tranqüila.
Como quem leva para a terra um filho morto,
levam seu próprio corpo, que baila e cintila.

Os homens gordos olham com um tédio enorme
as dez bailarinas tão frias.
Pobres serpentes sem luxúria,
que são crianças, durante o dia.
Dez anjos anêmicos, de axilas profundas,
embalsamados de melancolia.

Vão perpassando como dez múmias,
as bailarinas fatigadas.
Ramo de nardos inclinando flores
azuis, brancas, verdes, douradas.
Dez mães chorariam, se vissem
as bailarinas de mãos dadas.

Cecília Meireles

585. Leitura

Ilustração de Selçuk Demirel

584. Amar

O pássaro, de Marcos Andruchak
 Amar é ter um pássaro pousado no dedo.
Quem tem um pássaro pousado no dedo sabe que,
a qualquer momento, ele pode voar

Rubem Alves

583. Bibliotecário


sábado, 16 de junho de 2012

582. Ler e viajar

Ler proporciona-nos um lugar para onde ir quando temos de ficar onde estamos.

(Mason Cooley)

No original: Reading gives us someplace to go when we have to stay where we are.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

581. Motivo da rosa

Ilustração de Daria Palotti
Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.

Rosas verá, só de cinzas franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim.

Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.

E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.

Cecília Meireles


quinta-feira, 14 de junho de 2012

580. Bravo! Excelente ideia!

Como não tinha prática em não concordar consigo próprio, as primeiras palavras que lhe saíram, foram:
- Bravo! Excelente ideia!

Gonçalo M. Tavares, O Senhor Kraus

quarta-feira, 13 de junho de 2012

579. Nas Ondas do Mar

Nas ondas da praia
Nas ondas do mar
Quero ser feliz
Quero me afogar.

Nas ondas da praia
Quem vem me beijar?
Quero a estrela-d'alva
Rainha do mar.

Quero ser feliz
Nas ondas do mar
Quero esquecer tudo
Quero descansar.

Manuel Bandeira

578. Anatomia de um leitor



577. Quase Nada

O amor
é uma ave a tremer
nas mãos de uma criança.
Serve-se de palavras
por ignorar
que as manhãs mais limpas
não têm voz.


Eugénio de Andrade

segunda-feira, 11 de junho de 2012

575. O Valor do Vento


Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e
só entram nos meus versos as coisas de que gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos
o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz
a música que jaz à beira-mar em agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto

Ruy Belo

sábado, 9 de junho de 2012

573. Poema X

«Olá, guardador de rebanhos,
Aí à beira da estrada,
Que te diz o vento que passa?»

«Que é, vento, e que passa,
E que já passou antes,
E que passará depois.
E a ti o que te diz?»

«Muita cousa mais do que isso.
Fala-me de muitas outras cousas.
De memórias e de saudades
E de cousas que nunca foram.»

«Nunca ouviste passar o vento.
O vento só fala do vento.
O que lhe ouviste foi mentira,
E a mentira está em ti.»

Alberto Caeiro, «O Guardador de Rebanhos»

quinta-feira, 7 de junho de 2012

571. Rotina

Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.

Eugénio de Andrade

quarta-feira, 6 de junho de 2012

570. Otimismo

Autor não identificado

O pessimista vê dificuldade em cada oportunidade; o otimista vê oportunidade em cada dificuldade.
 
Winston Churchill

domingo, 3 de junho de 2012

567. Fernando Pessoa

Ilustração de João Vaz de Carvalho para o livro Saudade, de Claudio Hochman

566. As Palvras

Ilustração de Selçuk Demirel-Karikatürist

As palavras pedra ou faca ou maçã, palavras concretas, são bem mais fortes, poeticamente, do que tristeza, melancolia ou saudade. Mas é impossível não expressar a subjetividade. Então, a obrigação do poeta é expressar a subjetividade mas não diretamente. Ele não tem que dizer eu estou triste. Ele tem é que encontrar uma imagem que dê idéia de tristeza ou do estado de espírito - seja ele qual for - por meio de palavras concretas e não simplesmente se confessando na base do eu estou triste.
João Cabral de Melo Neto