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domingo, 2 de dezembro de 2012

819. Terror de te amar

Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.

Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti eu criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.

Sophia de Mello Breyner Andresen

domingo, 25 de novembro de 2012

718. O amor, quando se revela,

O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente...
Cala: parece esquecer...

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pr'a saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...

Fernando Pessoa

domingo, 4 de novembro de 2012

708. O tempo passa? Não passa

Foto: Relogio Florido - Jardim Inglês em Genebra (suiça)

O tempo passa? Não passa
no abismo do coração.
Lá dentro, perdura a graça
do amor, florindo em canção.

O tempo nos aproxima
 cada vez mais, nos reduz
 a um só verso e uma rima
 de mãos e olhos, na luz.

Não há tempo consumido
 nem tempo a economizar.
O tempo é todo vestido
de amor e tempo de amar.

O meu tempo e o teu, amada,
 transcendem qualquer medida.
Além do amor, não há nada,
amar é o sumo da vida.

São mitos de calendário
tanto o ontem como o agora,
e o teu aniversário
é um nascer toda a hora.

E nosso amor, que brotou
 do tempo, não tem idade,
 pois só quem ama
 escutou o apelo da eternidade.

Carlos Drummond de Andrade, iAmar se Aprende Amando

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

692. Agora É

Agora é diferente
Tenho o teu nome o teu cheiro
A minha roupa de repente
ficou com o teu cheiro

Agora estamos misturados
No meio de nós já não cabe o amor
Já não arranjamos
lugar para o amor

Já não arranjamos vagar
para o amor agora
isto vai devagar
isto agora demora

Manuel António Pina, Poesia Reunida

sábado, 6 de outubro de 2012

680. Homenagem a Ricardo Reis

Não creias, Lídia, que nenhum estio
Por nós perdido possa regressar
Oferecendo a flor
Que adiámos colher.

Cada dia te é dado uma só vez
E no redondo círculo da noite
Não existe piedade
Para aquele que hesita.

Mais tarde será tarde e já é tarde.
O tempo apaga tudo menos esse
Longo indelével rasto
Que o não-vivido deixa.

Não creias na demora em que te medes.
Jamais se detém Kronos cujo passo
Vai sempre mais à frente
Do que o teu próprio passo.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Obra Poética III

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

670. Visitação

Pintura de Mel Odon
Quando a porta se abriu,
perguntaste quem era.

Não se pergunta ao amor
que nome tem.

Albano Martins, Escrito a Vermelho

quarta-feira, 25 de julho de 2012

659. Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,

Ilustração de
Sara Sánchez Alonso
Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços…

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca… o eco dos teus passos…
O teu riso de fonte… os teus abraços…
Os teus beijos…a tua mão na minha…

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas de um beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca…
Quando os olhos se me cerram de desejo…
E os meus braços se estendem para ti…

Florbela Espanca

terça-feira, 26 de junho de 2012

quinta-feira, 21 de junho de 2012

594. Consolo na praia

Pintura de 594 Mark Kostabi_

Vamos, não chores...
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.
O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.
Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.
Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o 'humour'?
A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.

Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 20 de junho de 2012

593. Cartas de Amor

Cartas de amor são escritas não para dar notícias, não para contar nada, mas para que mãos separadas se toquem ao tocarem a mesma folha de papel.

Rubem Alves

domingo, 17 de junho de 2012

588.Como eu queria

Cleo Andrea Cleopazzo, Amor Sussurrato
Quero ler-te
Lentamente
Verso a verso
Como se fosses poesia

Quero sentir-te
Lentamente
Gota a gota
Como se fosses maresia

Respirares-me
Boca a boca
Lentamente

Como eu queria.


José Gabriel Duarte, No Outro Lado de Mim (a publicar)

via Quem lê Sophia de mello Breyner Andresen

587. Ao espreitar pelas janelas dos teus olhos,

 JOSÉ GABRIEL DUARTE, in NO OUTRO LADO DE MIM (a publicar)


Ao espreitar pelas janelas dos teus olhos,
fico a saber se ainda tenho espaço dentro de ti …

José Gabriel Duarte, No Outro Lado de Mim (a publicar)

via Quem lê Sophia de mello Breyner Andresen

584. Amar

O pássaro, de Marcos Andruchak
 Amar é ter um pássaro pousado no dedo.
Quem tem um pássaro pousado no dedo sabe que,
a qualquer momento, ele pode voar

Rubem Alves

quarta-feira, 13 de junho de 2012

577. Quase Nada

O amor
é uma ave a tremer
nas mãos de uma criança.
Serve-se de palavras
por ignorar
que as manhãs mais limpas
não têm voz.


Eugénio de Andrade

quinta-feira, 31 de maio de 2012

560, Não posso adiar o amor

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração

António Ramos Rosa
Faro, 1924

domingo, 27 de maio de 2012

553. Pouco tenho para alinhavar.

Thomas C. Fedro, Separation Anxiety
Pouco tenho para alinhavar.
Dizer-te que estou longe
não apaga esta ausência que,
inelutavelmente,
nos distanciou.

Cercam-nos muros de silêncio
opresso.

A própria hera não ousa
na despudorada nudez branca
de paredes que interditam

a fantasia ao forasteiro
voraz.
O gesto tolhido,
o pretexto adiado
a memória a estiolar.

 Eduardo Pitta

segunda-feira, 30 de abril de 2012

524. Morte



«(…) as pessoas que nós amamos nunca desaparecem, pois continuam sempre a viver dentro de nós.»

Teresa Lobato de Faria, História do Sempre e do Nunca, Lisboa, Oficina do Livro, 2012.

domingo, 29 de abril de 2012

523. Dias são dias, e noites

Nicolas Gouny - cueillir des étoiles

Dias são dias, e noites
São noites e não dormi...
Os dias a não te ver
As noites pensando em ti.

Fernando Pessoa

sexta-feira, 13 de abril de 2012

terça-feira, 3 de abril de 2012

452. Quase nada

O amor
é uma ave a tremer
nas mãos de uma criança.
Serve-se de palavras
por ignorar
que as manhãs mais limpas
não têm voz.

Eugénio de Andrade