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sexta-feira, 19 de outubro de 2012

693. Há muitos tipos de comida

—    Há muitos tipos de comida — disse o coronel Mõller enquanto abanava o filho. — Um homem possui três estômagos: um na barriga, outro no peito e outro na cabeça. O da barriga, toda a gente sabe para que serve; o do peito mastiga a respiração, que é a nossa comida mais urgente. Uma pessoa morre sem ar muito mais depressa do que sem água e pão. E por fim há o estômago da cabeça, que se alimenta de palavras e de letras. Os primeiros dois estômagos do homem alimentam-se através da boca e do nariz, ao passo que o terceiro estômago se alimenta principalmente através dos olhos e dos ouvidos, apesar de usar tudo o resto de um modo mais subtil.

Afonso Cruz, O Pintor debaixo do Lava-Louças, Alfragide, Caminho, 2011, p.20

sexta-feira, 29 de junho de 2012

615. As Palavras

Nós não somos do século d'inventar as palavras. As palavras já foram inventadas. Nós somos do século d'inventar outra vez as palavras que jâ foram inventadas.

José de Almada Negreiros

domingo, 3 de junho de 2012

566. As Palvras

Ilustração de Selçuk Demirel-Karikatürist

As palavras pedra ou faca ou maçã, palavras concretas, são bem mais fortes, poeticamente, do que tristeza, melancolia ou saudade. Mas é impossível não expressar a subjetividade. Então, a obrigação do poeta é expressar a subjetividade mas não diretamente. Ele não tem que dizer eu estou triste. Ele tem é que encontrar uma imagem que dê idéia de tristeza ou do estado de espírito - seja ele qual for - por meio de palavras concretas e não simplesmente se confessando na base do eu estou triste.
João Cabral de Melo Neto

quinta-feira, 26 de abril de 2012

520. AS Palavras

As palavras não conservam um brilho e um crédito eternos. Muitas, que hoje desapareceram, irão renascer, muitas, agora cheias de prestígio, cairão, se assim o quiser o uso, esse senhor absoluto, legítimo, constante, da língua.

Horácio, A Arte Poética

terça-feira, 17 de abril de 2012

500. Certa palavra dorme na sombra

Certa palavra dorme na sombra
de um livro raro.
Como desencantá-la?
É a senha da vida
a senha do mundo.
Vou procurá-la.

Vou procurá-la a vida inteira
no mundo todo.
Se tarda o encontro, se não a encontro,
não desanimo,
procuro sempre.

Procuro sempre, e minha procura
ficará sendo
minha palavra.

Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 13 de abril de 2012

479. Há palavras que nos beijam


Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

Alexandre O-Neil

Interpretação de Mariza

sábado, 7 de abril de 2012

463. Aniversário das Palavras

Todos os dias faz anos que foram inventadas as palavras.
É preciso festejar todos os dias o centenário das palavras.

Almada Negreiros

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

259. ‎Uso a palavra

Por Manoel de Barros

‎Uso a palavra
para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito
às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas
mais que a dos mísseis.
Tenho em mim
esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância
de ser feliz por isso.
Meu quintal
é maior do que o mundo.

sábado, 15 de outubro de 2011

8. As palavras carinhosas são amansadas pelo tempo

por Pepetela


A primeira vez que lhe chamei querida, a palavra me tinha queimado os lábios. E deve ter destruído os tímpanos dela. Depois perdeu a força, com a rotina, já não fazia os mesmos estragos na boca de um e no ouvido da outra.
As palavras carinhosas são infelizmente amansadas pelo tempo.

Pepetela, O Planalto e a Estepe, Alfragide, 2009, p. 58.