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sexta-feira, 19 de outubro de 2012

694. Lendo

Óleo sobre tela: Lesende, de Gerhard Richter

693. Há muitos tipos de comida

—    Há muitos tipos de comida — disse o coronel Mõller enquanto abanava o filho. — Um homem possui três estômagos: um na barriga, outro no peito e outro na cabeça. O da barriga, toda a gente sabe para que serve; o do peito mastiga a respiração, que é a nossa comida mais urgente. Uma pessoa morre sem ar muito mais depressa do que sem água e pão. E por fim há o estômago da cabeça, que se alimenta de palavras e de letras. Os primeiros dois estômagos do homem alimentam-se através da boca e do nariz, ao passo que o terceiro estômago se alimenta principalmente através dos olhos e dos ouvidos, apesar de usar tudo o resto de um modo mais subtil.

Afonso Cruz, O Pintor debaixo do Lava-Louças, Alfragide, Caminho, 2011, p.20

692. Agora É

Agora é diferente
Tenho o teu nome o teu cheiro
A minha roupa de repente
ficou com o teu cheiro

Agora estamos misturados
No meio de nós já não cabe o amor
Já não arranjamos
lugar para o amor

Já não arranjamos vagar
para o amor agora
isto vai devagar
isto agora demora

Manuel António Pina, Poesia Reunida

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

691. Fernando Pessoa

Fernando Pessoa, por Afonso Cruz

690. Fernando pessoa - Nota Biográfica de 30 de março de 1935

Cópia do original dactiloscrito por Fernando Pessoa
Nome completo: Fernando António Nogueira Pessoa.

Idade e naturalidade: Nasceu em Lisboa, freguesia dos Mártires, no prédio n.º 4 do Largo de S. Carlos (hoje do Directório) em 13 de Junho de 1888.
Filiação: Filho legítimo de Joaquim de Seabra Pessoa e de D. Maria Madalena Pinheiro Nogueira. Neto paterno do general Joaquim António de Araújo Pessoa, combatente das campanhas liberais, e de D. Dionísia Seabra; neto materno do conselheiro Luís António Nogueira, jurisconsulto e que foi Director-Geral do Ministério do Reino, e de D. Madalena Xavier Pinheiro. Ascendência geral: misto de fidalgos e judeus.

Estado: Solteiro.

Profissão: A designação mais própria será «tradutor», a mais exacta a de «correspondente estrangeiro em casas comerciais». O ser poeta e escritor não constitui profissão, mas vocação.

Morada: Rua Coelho da Rocha, 16, 1º. Dt.º, Lisboa. (Endereço postal - Caixa Postal 147, Lisboa).

Funções sociais que tem desempenhado: Se por isso se entende cargos públicos, ou funções de destaque, nenhumas.

Obras que tem publicado: A obra está essencialmente dispersa, por enquanto, por várias revistas e publicações ocasionais. O que, de livros ou folhetos, considera como válido, é o seguinte: «35 Sonnets» (em inglês), 1918; «English Poems I-II» e «English Poems III» (em inglês também), 1922, e o livro «Mensagem», 1934, premiado pelo Secretariado de Propaganda Nacional, na categoria «Poema». O folheto «O Interregno», publicado em 1928, e constituído por uma defesa da Ditadura Militar em Portugal, deve ser considerado como não existente. Há que rever tudo isso e talvez que repudiar muito.

Educação: Em virtude de, falecido seu pai em 1893, sua mãe ter casado, em 1895, em segundas núpcias, com o Comandante João Miguel Rosa, Cônsul de Portugal em Durban, Natal, foi ali educado. Ganhou o prémio Rainha Vitória de estilo inglês na Universidade do Cabo da Boa Esperança em 1903, no exame de admissão, aos 15 anos.

Ideologia Política: Considera que o sistema monárquico seria o mais próprio para uma nação organicamente imperial como é Portugal. Considera, ao mesmo tempo, a Monarquia completamente inviável em Portugal. Por isso, a haver um plebiscito entre regimes, votaria, embora com pena, pela República. Conservador do estilo inglês, isto é, liberdade dentro do conservantismo, e absolutamente anti-reaccionário.

Posição religiosa: Cristão gnóstico e portanto inteiramente oposto a todas as Igrejas organizadas, e sobretudo à Igreja de Roma. Fiel, por motivos que mais adiante estão implícitos, à Tradição Secreta do Cristianismo, que tem íntimas relações com a Tradição Secreta em Israel (a Santa Kabbalah) e com a essência oculta da Maçonaria.

Posição iniciática: Iniciado, por comunicação directa de Mestre a Discípulo, nos três graus menores da (aparentemente extinta) Ordem Templária de Portugal.

Posição patriótica: Partidário de um nacionalismo místico, de onde seja abolida toda a infiltração católico-romana, criando-se, se possível for, um sebastianismo novo, que a substitua espiritualmente, se é que no catolicismo português houve alguma vez espiritualidade. Nacionalista que se guia por este lema: «Tudo pela Humanidade; nada contra a Nação».

Posição social: Anticomunista e anti-socialista. O mais deduz-se do que vai dito acima.

Resumo de estas últimas considerações: Ter sempre na memória o mártir Jacques de Molay, Grão-Mestre dos Templários, e combater, sempre e em toda a parte, os seus três assassinos – a Ignorância, o Fanatismo e a Tirania”.

Lisboa, 30 de Março de 1935

domingo, 14 de outubro de 2012

689. Agressão

A sua testa tem a marca de uma agressão com um jarro de vidro, mas é por dentro que os jarros de vidro magoam mais, e os estalos nas orelhas, e os murros, e os pontapés. Dão cabo do interior das pessoas como uma doença. Batem por fora, mas começam a afundar-se e a entranhar-se dentro das veias, nos pensamentos, nos intestinos, nos pulmões, no fígado. Crescem com as unhas e com os cabelos e com os ossos. Uma pessoa fica com metástases das agressões por todo o lado, com a alma escurecida apesar da luz fluorescente da cozinha, essa luz que nos deixa com cara de doentes.

Afonso Cruz,  «Quando as joaninhas de plástico deixam de falar»» in Afonso Cruz et allii, Isto não é um conto, Lisboa, Associação Link, 2012, p. 86..

688. Violência

Claro que o seu amor-próprio já tinha sido praticamente aniquilado por ele, porque, quando passas a vida a ouvir que não prestas, começas a acreditar nisso, e quando tudo o que recebes são humilhações, começas a pensar que as mereces. A repetição é a mais subtil das armas psicológicas. Toda esta dinâmica faz com que o medo se instale, comodamente, e nos habite dia após dia. Mês após mês. Ano após ano.

Karla Suáresz, «Esse Estranho Animal»» in Afonso Cruz et allii, Isto não é um conto, Lisboa, Associação Link, 2012, p.73.

domingo, 7 de outubro de 2012

686. Afoonso Cruz, O Pintor debaixo do lava-louça


685. Ler mais ler melhor: Enciclopédia da Estória Universal - Recolha de Alexandria, de Afonso Cruz

684. Não digas nada!


 Não digas nada!
Não, nem a verdade!
Há tanta suavidade
Em nada se dizer
E tudo se entender —
Tudo metade
De sentir e de ver...
Não digas nada!
Deixa esquecer.
Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda esta viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada...
Mas ali fui feliz...
Não digas nada.

Fernando Pessoa
(23-8-1934)

683. Minha pátria é a língua Portuguesa

Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. Talvez porque a sensualidade real não tem para mim interesse de nenhuma espécie - nem sequer mental ou de sonho -, transmudou-se-me o desejo para aquilo que em mim cria ritmos verbais, ou os escuta de outros. Estremeço se dizem bem. Tal página de Fialho, tal página de Chateaubriand, fazem formigar toda a minha vida em todas as veias, fazem-me raivar tremulamente quieto de um prazer inatingível que estou tendo. Tal página, até, de Vieira, na sua fria perfeição de engenharia sintáctica, me faz tremer como um ramo ao vento, num delírio passivo de coisa movida.
Como todos os grandes apaixonados, gosto da delícia da perda de mim, em que o gozo da entrega se sofre inteiramente. E, assim, muitas vezes, escrevo sem querer pensar, num devaneio externo, deixando que as palavras me façam festas, criança menina ao colo delas. São frases sem sentido, decorrendo mórbidas, numa fluidez de água sentida, esquecer-se de ribeiro em que as ondas se misturam e indefinem, tornando-se sempre outras, sucedendo a si mesmas. Assim as ideias, as imagens, trémulas de expressão, passam por mim em cortejos sonoros de sedas esbatidas, onde um luar de ideia bruxuleia, malhado e confuso.

Não choro por nada que a vida traga ou leve. Há porém páginas de prosa que me têm feito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noite em que, ainda criança, li pela primeira vez numa selecta o passo célebre de Vieira sobre o rei Salomão. «Fabricou Salomão um palácio...» E fui lendo, até ao fim, trémulo, confuso: depois rompi em lágrimas, felizes, como nenhuma felicidade real me fará chorar, como nenhuma tristeza da vida me fará imitar. Aquele movimento hierático da nossa clara língua majestosa, aquele exprimir das ideias nas palavras inevitáveis, correr de água porque há declive, aquele assombro vocálico em que os sons são cores ideais - tudo isso me toldou de instinto como uma grande emoção política. E, disse, chorei: hoje, relembrando, ainda choro. Não é - não - a saudade da infância de que não tenho saudades: é a saudade da emoção daquele momento, a mágoa de não poder já ler pela primeira vez aquela grande certeza sinfónica.

Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.

Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.

Fernando Pessoa, Livro do Desassossego por Bernardo Soares

682. (O tradutor cleptómano)

por Dezsö Kosztolányi

Décimo quarto capítulo de Esti Kornél, no qual se desvendam as misteriosas artimanhas de Gallus, tradutor erudito mas errante.
Falávamos de escritores e poetas, de velhos amigos, que tinham começado por fazer caminho connosco, mas depois ficaram para trás e desapareceram. De vez em quando lançávamos um nome para o ar. Quem é que ainda se lembra dele? Assentíamos e um sorriso vago iluminava-nos os lábios. No espelho dos nossos olhares reflectia-se um rosto tido por esquecido, uma carreira, uma vida perdidas. Quem sabe alguma coisa dele? Ainda estará vivo? A resposta era o silêncio. Nesse silêncio, os louros secos da glória restolhavam como as folhas caídas num cemitério. Permanecíamos em silêncio.
Durante um desses silêncios, de vários minutos, alguém citou o nome de Gallus.
— Coitado — disse Esti Kornél. — Vi-o ainda há uns anos, talvez sete ou oito anos, em tristes circunstâncias. Por essa altura sucedeu-lhe uma história por causa de um conto policial, que por si só é um conto policial, o mais emocionante e doloroso que já vivi.
Mas vocês conheciam-no, pelo menos um pouco. Um rapaz talentoso, brilhante e intuitivo, e além disso consciencioso e culto. Falava várias línguas. Sabia tão bem inglês que ao que se diz dava lições de inglês ao Príncipe de Gales. Viveu lá fora, em Cambridge, durante quatro anos.
No entanto, tinha um defeito fatal. Não, não era a bebida. Mas palmava tudo o que lhe vinha às mãos. Roubava que nem uma pega. Tanto lhe fazia se era um relógio de bolso, uma pantufa ou uma gigantesca chaminé de fogão. Não se importava nem com o valor das coisas roubadas, nem com o volume ou tamanho delas. O seu prazer era apenas fazer aquilo que queria: roubar. Nós, os amigos mais chegados, tentávamos dar-lhe a volta. Com carinho, pregávamos-lhe sermões. Ralhávamos-lhe e fazíamos-lhe ameaças. E ele até nos dava razão. Prometia lutar contra a sua própria natureza. Mas a razão lutava em vão, a natureza era mais forte. Recaía sempre.
Inúmeras vezes se viu repreendido e humilhado em público por estranhos, mais de uma vez apanhado em flagrante. Nessas alturas tínhamos de nos esforçar para remediar de um modo ou outro as consequências dos seus actos. No entanto, uma vez no expresso de Viena palmou a carteira de um comerciante moravo que o apanhou ali mesmo, e o entregou à gendarmaria na estação seguinte. Trouxeram-no algemado para Budapeste.
Tentámos salvá-lo novamente. Vocês que escrevem, sabem que tudo depende das palavras, tanto a excelência de um poema, como o destino de um homem. Argumentámos que era cleptómano, e não ladrão.
Se é nosso conhecido, geralmente é cleptómano. Se desconhecido, é ladrão. O tribunal não o conhecia, pelo que foi considerado ladrão e condenado a dois anos de prisão.
Depois de ser posto em liberdade, numa manhã escura de Dezembro, perto do Natal, apareceu-me à porta esfomeado e esfarrapado. Caiu de joelhos à minha frente. Implorou-me que não o abandonasse, que o ajudasse, que lhe arranjasse trabalho. Não podia, por enquanto, escrever sob o próprio nome. Mas não sabia fazer outra coisa, senão escrever. Fui então falar com um editor decente e humano, recomendei-o, e no dia seguinte a editora encarregou-o da tradução de um conto policial inglês. Para nós era pouco mais que lixo, envergonhava-nos sujar as mãos com tal coisa. Não líamos. No máximo traduzíamos, mas só de luvas. Ainda me lembro do título: O Misterioso Castelo do Conde Vicislav. Mas que importava isso?
Eu estava contente por poder ter feito alguma coisa, e ele também estava contente por poder ganhar o seu pão. Atacou o trabalho com entusiasmo. Trabalhou com tal afinco que entregou o manuscrito passadas três semanas, antes do prazo estipulado.
Fiquei tremendamente admirado quando, dias depois, a editora me informou por telefone que a tradução do meu protegido era inutilizável e que não iria pagar um tostão por ela. Não compreendi. Apanhei um coche e segui para lá.
O editor entregou-me o manuscrito sem uma palavra. O nosso amigo tinha-o passado a limpo à máquina, numerado as páginas, e até as tinha atado com um cordão com as cores nacionais. Isso era típico dele, acho que já tinha dito que em termos profissionais ele era de confiança, de um rigor escrupuloso. Comecei a ler o texto. Exclamei de encanto. Frases claras, expressões perspicazes, subtis engenhos linguísticos sucediam-se uns aos outros, tantos que aquela literatura de pacotilha talvez nem os merecesse. Surpreendido, perguntei ao editor o que tinha a objectar. Sempre sem uma palavra, entregou-me então o original inglês, pedindo-me para comparar os dois textos. Estive durante meia hora a analisá-los, olhando ora para o livro, ora para o manuscrito. Por fim, levantei-me estupefacto. Disse ao editor que tinha toda a razão.
Porquê? Não tentem adivinhar. Estão enganados. Não, não era a tradução de outro romance. Tratava-se mesmo da tradução fluente, artística, por vezes com arrojos poéticos d'O Misterioso Castelo do Conde Vicislav. Estão outra vez enganados. Não, não tinha um único erro de tradução. Realmente dominava tão bem o inglês como o húngaro. Parem. Nunca ouviram nada que se pareça. O "gato" era outro. Outro mesmo.
Eu também só comecei a perceber gradualmente, pouco a pouco. Oiçam. A primeira frase do original inglês era: 'Todas as trinta e seis janelas do velho e escalavrado castelo estavam iluminadas. Em cima, no primeiro andar, no salão de baile, brilhavam quatro luxuosos lustres de cristal...' Na tradução húngara estava: 'Todas as doze janelas do velho e escalavrado castelo estavam iluminadas. Em cima, no primeiro andar, brilhavam dois luxuosos lustres de cristal...' Arregalei os olhos, e continuei a ler. Na terceira página, o escritor inglês dizia: 'Com um sorriso irónico, o conde Vicislav esvaziou a carteira bem recheada, e atirou-lhes o montante exigido, mil e quinhentas libras...'
A versão do tradutor húngaro era: 'Com um sorriso irónico, o conde Vicislav esvaziou a carteira, e atirou-lhes o montante exigido, cento e cinquenta libras...' Comecei a sentir uma suspeita de mau augúrio, que infelizmente em poucos minutos se transformou numa triste certeza. Mais abaixo, no fim da terceira página, a edição inglesa dizia: 'A condessa Eleonor estava sentada a um canto do salão de baile, vestida de gala, usando as antigas jóias de família: ostentava na cabeça a tiara de diamantes que herdara da sua tetravô, esposa de um príncipe-elei-tor alemão; no colo de alabastro brilhava um colar de pérolas opalino, e os seus dedos estavam quase hirtos com anéis de brilhantes, safiras e esmeraldas...' Para minha grande surpresa, o manuscrito húngaro reconstruiu essa descrição colorida da seguinte maneira: 'A condessa Eleonor estava sentada a um canto do salão de baile, vestida de gala...' Mais nada. Faltavam a tiara de diamantes, o colar de pérolas, os anéis de brilhantes, as safiras e as esmeraldas.
Estão a perceber o que tinha feito este nosso desgraçado colega, bem digno de melhor sorte? Pura e simplesmente roubara as jóias de família da condessa Eleonor, com a mesma imperdoável ligeireza aliviara também o conde Vicislav, aliás tão simpático, deixan-do-lhe apenas cento e cinquenta das mil e quinhentas libras, de igual forma fanara dois dos quatro lustres de cristal do salão de baile, e desviara ainda vinte e quatro das trinta e seis janelas do velho e escalavrado castelo. Sentia o mundo a girar à minha volta. O meu espanto atingiu o auge quando cheguei à conclusão, sem margem para dúvidas, de que o mesmo marcava de forma consistente e fatal todo o seu trabalho. Por onde passasse, a caneta do tradutor lesava as personagens que tinha acabado de conhecer, não poupando nem móveis, nem imóveis, violando a quase incontestavelmente sagrada propriedade privada.
Trabalhava usando diferentes técnicas. Na maior parte das vezes, os objectos de valor evaporavam-se sem deixar rasto. Dos tapetes, dos cofres e das pratas, destinados a elevar o nível literário do original inglês, não restavam nem vestígios no texto húngaro. Outras vezes surripiava só uma parte, metade ou dois terços. Se alguém mandava o criado levar cinco malas para a carruagem de comboio, ele mencionava apenas duas, e sonegava insidiosamente as restantes três. De qualquer forma, para mim o mais desolador — talvez por demonstrar verdadeira perfídia e desonestidade — era o facto de ele com frequência substituir os metais nobres e as pedras preciosas por materiais reles e sem valor, a platina por lata, o ouro por cobre e o diamante por cristal ou vidro.
Despedi-me da editora cabisbaixo. Por curiosidade pedi para ficar com o manuscrito e o original inglês. Intrigava-me o verdadeiro mistério deste policial, por isso em casa continuei a investigação e fiz o inventário dos objectos roubados. Trabalhei sem descanso da uma da tarde até às seis e meia de manhã. No fim, apurei que o transviado do nosso colega, ao longo da tradução, se tinha apropriado indevidamente e ilegalmente de 1 579 251 libras esterlinas, 177 anéis de ouro, 947 colares de pérolas, 181 relógios de bolso, 309 pares de brincos, 435 malas de viagem, sem contar com as propriedades, florestas e pastos, palácios ducais e baroniais, tal como pequenos objectos insignificantes, lenços, palitos e campainhas, que seria longo, e talvez inútil, enumerar.
Onde é que ele metia os móveis e imóveis que afinal só existiam no papel, no mundo da imaginação, e qual o objectivo do furto, seria uma questão que nos levaria longe e que por isso não vou aprofundar. Mas tudo isto me convenceu de que ele continuava escravo do seu vício delinquente ou da sua doença, que não havia esperanças de cura, e que não merecia o apoio da sociedade respeitável. Eu, na minha indignação moral, desisti dele. Abandonei-o ao seu destino. Nunca mais ouvi falar dele.
(1932)

Ficçõesde humor. Revista de contos, Lisboa,Tinta Permanente, [2003],pp. 121-129.Tradução de Agnes Jancsó C. Lopes)

681. Ler O AMANTE, de Marguerite Duras

sábado, 6 de outubro de 2012

680. Homenagem a Ricardo Reis

Não creias, Lídia, que nenhum estio
Por nós perdido possa regressar
Oferecendo a flor
Que adiámos colher.

Cada dia te é dado uma só vez
E no redondo círculo da noite
Não existe piedade
Para aquele que hesita.

Mais tarde será tarde e já é tarde.
O tempo apaga tudo menos esse
Longo indelével rasto
Que o não-vivido deixa.

Não creias na demora em que te medes.
Jamais se detém Kronos cujo passo
Vai sempre mais à frente
Do que o teu próprio passo.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Obra Poética III