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sábado, 6 de outubro de 2012
sexta-feira, 5 de outubro de 2012
676. Para desobedecer basta uma vez
Margarida atingira os seus cinco
anos. Uma idade fácil para as crianças, é aquela idade em que basta mostrar a
mão aberta para dizer há quanto tempo calcorreia este mundo inabitado por Deus.
Margarida mostrava os seus cinco dedinhos com orgulho: já vivera uma mão
inteira, com as falanges, falanginhas e falangetas todas incluídas.
— Que idade tens tu? —
perguntavam-lhe.
E ela mostrava a mão, com a palma
para fora, evidenciando toda a quiromancia que tinha vincada em linhas
sinuosas. O que ela mostrava era um mapa, escrito em linhas de grande
fatalidade.
— O carro do Sol já deu cinco
voltas à minha volta — dizia a pequena Margarida, com o mapa da mãozinha virado
para a assistência.
A idade de uma criança ainda é um
fenómeno mitológico. Fenómeno que se perde com a adolescência. A partir de
certa altura a cronologia passa a ser um número sem qualidades metafísicas. Os
deuses greco-romanos perdem protagonismo e acabam por ser substituídos por leis
físicas, por sebentas aos quadrados e, fatalmente, por um bilhete de
identidade.
E tal como certo e determinado
bom Deus advertiu os seus filhos, Adão e Eva, a não comerem do fruto proibido
pois este traria a morte certa, Celeste advertia a própria filha: o armário da
casa de banho não é para mexer, os frutos que há lá dentro trazem a morte
certa. Margarida ouvia e obedecia a maior parte das vezes, porque para obedecer
é preciso obedecer o tempo todo, já para desobedecer basta um momento, basta uma
vez. Mas a curiosidade era muita: Quem era Deus, como nasceram as girafas que
demoraram milhões de anos a esticar o pescoço, e o que era aquilo dentro do
armário da casa de banho?, interrogava-se a menina. Com cinco anos já era
perfeitamente capaz de questionar pescoços compridos e de subir a um banco, de
abrir o dito armário que continha o fruto proibido. Um dia, a pequena Margarida
fez o mesmo que Eva fez: esticou-se — não precisou de tanto tempo como uma
girafa para chegar às coisas mais altas —, tirou o frasco de barbitúricos
coloridos que cresciam na árvore do Éden e engoliu-os. Para desobedecer basta
uma vez. Para obedecer é que tem de ser o tempo todo. A morte, tal como o bom
Deus sugeriu, foi certa. Margarida tinha perdido os seus cinco anos, o seu
mapa, as suas falanges, falanginhas e falangetas. A morte leva tudo e esta é
especialmente eficaz, esta que se esconde em frutos coloridos (tal como Deus se
esconde numa hóstia), em comprimidos que salvam a vida e são igualmente capazes
de a tirar.
A natureza abomina o vazio, ou
dito numa língua morta: natura abhorret vacuum. Mas que ele existe, existe.
Parece que o Nada, a existir, deixa de ser Nada para ser alguma coisa. A
natureza não gosta de espaços vazios e preenche-os como um burocrata preenche requerimentos.
Não deixa buracos em lado nenhum.
Mesmo os lugares mais rarefeitos, como o espaço sideral e a estupidez humana,
são preenchidos por alguma coisa: luz, metais leves, preconceitos, partículas e
subpartículas dos átomos, radiações, chavões e telenovelas. A natureza enche
chouriços, não há espaço vazio nas suas tripas. Um homem olha à sua volta e não
encontra nada que não esteja já ocupado. Assim pensam os homens com a razão e a
lógica que se passeia nos interstícios dos seus cérebros cinzentos, nessas
dobras confusas que se assemelham a um intestino redondo ou a uma noz. Mas os
homens que pensam com os sentimentos, têm outra lógica a nadar-lhes nas veias e
artérias. Esses acreditam no vazio porque o vêem a toda a hora dentro de si.
O professor Borja e Celeste
passaram a acreditar nesse Nada. O espaço deixado pelo desaparecimento da filha
não fora ocupado pela natureza (essa natureza que abomina o vazio e, no
entanto, é incapaz de preencher o Nada que a morte deixa). Há muita
incompetência na forma como a natureza preenche os espaços, falta-lhe
capacidade para se alojar nos lugares metafísicos. O professor Borja desejaria
poder preencher o seu vazio com radiações, partículas e subpartículas do átomo,
lugares-comuns ou mesmo telenovelas mexicanas, mas nada entra nesse espaço de
dor. O adágio em latim, natura abhorret vacuum, essa frase que diz que a
natureza não gosta nada do vazio, deveria ser outro: natura latinam linguam non
loquitur, ou seja, a natureza não percebe de nada de latim.
Celeste interrogava-se sobre se
Deus teria sofrido tanto quanto ela. Questionava se Deus, depois da
desobediência dos seus filhos, se teria agachado na casa de banho do Céu, seco
pelas lágrimas mais intensas que se pode chorar, e arrancado os cabelos (que
estão todos contados). Ou teria Ele vivido sem culpas, com a justificação do
livre-arbítrio, esse engodo fatal?
Para Celeste haveria alguma
desculpa possível? Ela sentia que não. Deus tinha a Teologia a suportar os seus
erros, o livre-alvedrio conveniente e um advogado como Santo Agostinho, mas ela
só tinha um cônjuge paralelo a si mesmo. Celeste, incapaz de viver com aquela
tragédia que se desenrolava na sua alma, deixou o marido. E fê-lo exactamente
da mesma maneira que Margarida havia usado para deixar os pais, saiu pela mesma
porta que a filha usara: comendo e mastigando os frutos proibidos e coloridos
da casa de banho. O professor Borja encontrou um cadáver nas lajes brancas do
chão, junto à retrete. Uma Celeste morta, morta exactamente da mesma maneira
que Margarida. Utilizaram ambas a mesma porta aberta. A mãe seguia a filha, o
passado seguia o futuro. Era o tempo a andar para trás, desordeiro e marginal.
Celeste derramada nas lajes brancas, com a língua de fora cheia de comprimidos
coloridos, os dentes pequeninos tingidos de azul, laranja, vermelho, verde, uma
Celeste cheia de dor. Junto dela não havia um bilhete sequer, uma nota suicida.
Não havia nada. Havia Nada.
Evidentemente que, dentro do
professor, passaram a habitar dois vazios. Se a natureza tem horror a um vazio,
imagine-se dois a coexistir no mesmo lugar. O vazio tem destas coisas, não
ocupa espaço, por isso no mesmo lugar podem coabitar inúmeros vazios sem que o
peito de um homem se assemelhe a uma praia no Verão.
É conhecido o facto de que a
determinada altura da evolução precisámos de cérebros maiores. Cabeças maiores
eram necessárias para albergar o grande órgão da nossa tragédia e da nossa
glória. Cabeças maiores, maior a dor de parto. Não é fácil parir, nem para quem
nasce nem para quem dá à luz. Cá está a dor de ser cabeçudo, de ter um órgão
para saber e aprender. Cá está a dor do saber, já cravada na infância para
memória futura. A utilização do cérebro é um processo doloroso. Esta hipertrofia da cabeça dá-nos uma grande capacidade para mentir a nós mesmos. E darás à luz com muitas dores, foi-nos dito depois de experimentarmos o fruto do conhecimento, da árvore da ciência do bem e do mal. O professor Borja aprendeu a mentir a si mesmo, voltou a sua cabeça para a Ciência e para o misticismo que a acompanha sempre que o cientista é sério. Enfim, aprendeu a disfarçar os buracos do seu peito com uma camisola fora de moda e umas teorias geométricas, sociopolíticas e históricas.
A vida do professor foi, então, avançando com lentidão, solitária, virada para apenas um lado do telescópio, o espaço sideral, sem perceber que, quando se olha através dele, é ao espelho que nos vemos: não existem buracos negros no espaço sideral, algures a milhares de anos-luz da Terra. Esses buracos negros que vemos ao telescópio são os mesmos que não conseguimos ver dentro de nós.
A vida do professor foi, então, avançando com lentidão, solitária, virada para apenas um lado do telescópio, o espaço sideral, sem perceber que, quando se olha através dele, é ao espelho que nos vemos: não existem buracos negros no espaço sideral, algures a milhares de anos-luz da Terra. Esses buracos negros que vemos ao telescópio são os mesmos que não conseguimos ver dentro de nós.
Afonso Criz, Jesus Cristo bebia Cerveja, pp. 138-140
676. A Loucura
— O que é que andas a fazer com esse maluco?
— Sabe, sargento, a loucura, quando dá a um grande número de pessoas, chama-se sociedade contemporânea. Quando dá a uma pessoa só, interna-se essa pessoa. O Alípio não tem a normalidade, ou boçalidade, de muitos, mas não é por isso...
Afonso Cruz, Jesus Cristo Bebia Cerveja, p.118
— Sabe, sargento, a loucura, quando dá a um grande número de pessoas, chama-se sociedade contemporânea. Quando dá a uma pessoa só, interna-se essa pessoa. O Alípio não tem a normalidade, ou boçalidade, de muitos, mas não é por isso...
Afonso Cruz, Jesus Cristo Bebia Cerveja, p.118
674. Morte
De cada vez que deixamos de ser percebidos, morremos. Quando somos enterrados deixamos de ser percebidos por toda a gente, mas quando os outros já não olham para nós, ficaram condenados para um número limitado de pessoas, a uma morte em tudo idêntica à outra. A nossa morte não acontece quando somos enterrados, acontece continuamente: os dentes caem, os joelhos solidificam, a pele engelha-se, os amigos partem. Tudo isso é a morte. O momento final é apenas isso, um momento.
Afonso Cruz, Jesus Cristo Bebia Cerveja,pp. 89-90
672. OA Lisonja e o Ego
— Usa-se a lisonja para encher o ego — responde ela. — Este torna-se obeso, as artérias entopem, e o ego acaba por morrer de forma fulminante. É nessa altura que o Eu superior se manifesta.
Afonso Cruz, Jesus Cristo Bebia Cerveja, p.60
quinta-feira, 4 de outubro de 2012
671. O Peso do passado
— As árvores que caíram na Primavera ainda se ouvem no Outono - disse, quando voltou a abrir os olhos. — Ninguém sabe abandonar o seu passado, como fazem as cobras com a pele. Nós somos antigos, não deixamos nunca de cair, porque à medida que o nosso passado se torna maior, mais pesados nos tornamos, cada vez mais incapazes de voar. Quando um homem cai, ouve-se para sempre. É por isso que precisamos de morrer, para nos livrarmos desse passado todo, para podermos ser livres como as nuvens.
Afonso Cruz, A Morte não Ouve o Piaista
670. Visitação
sábado, 29 de setembro de 2012
669. Casa
− Não sei onde é que as lesmas sempre vão, avó.
− Vão pra casa, filho.
− Tantas vezes de um lado para o outro?
− Uma casa está em muitos lugares − ela respirou devagar, me abraçou. − É uma coisa que se encontra.
Ondjaki, Os da minha rua, Alfragide, Bisleya, 2009, p. 114
− Vão pra casa, filho.
− Tantas vezes de um lado para o outro?
− Uma casa está em muitos lugares − ela respirou devagar, me abraçou. − É uma coisa que se encontra.
Ondjaki, Os da minha rua, Alfragide, Bisleya, 2009, p. 114
domingo, 16 de setembro de 2012
668. Poesia não é para compreender
quarta-feira, 12 de setembro de 2012
667. Os Livros
Estais ouvindo o alarido que fazem esses livros? Falam ao mesmo tempo em todas as línguas. Discutem sobre tudo: Deus, a natureza, o homem, o tempo, o espaço,o bem, o mal, o conhecido e o desconhecido. Examinam tudo, contestam tudo, afirmam tudo, negam tudo. Raciocinam e divagam. Uns são graves, outros frívolos; uns são alegres, outros tristes; uns são prolixos, outros, concisos. São 800 mil nesta sala, e não há dois deles que pensem exatamente da mesma forma
Anatole France, As sete mulheres de Barba Azul
terça-feira, 11 de setembro de 2012
666. Há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas.
Há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas.
Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do vôo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controle. Engaiolados, o seu dono pode levá-los para onde quiser. Pássaros engaiolados sempre têm um dono. Deixaram de ser pássaros. Porque a essência dos pássaros é o vôo.
Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são pássaros em vôo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o vôo, isso elas não podem fazer, porque o vôo já nasce dentro dos pássaros. O vôo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado.
Rubem Alves
Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do vôo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controle. Engaiolados, o seu dono pode levá-los para onde quiser. Pássaros engaiolados sempre têm um dono. Deixaram de ser pássaros. Porque a essência dos pássaros é o vôo.
Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são pássaros em vôo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o vôo, isso elas não podem fazer, porque o vôo já nasce dentro dos pássaros. O vôo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado.
quinta-feira, 6 de setembro de 2012
665. O menino que cresceu no jardim
Era nisso que o menino acreditava: se as flores crescem assim por que razão não crescerei eu, também, com a ajuda da água? E o jardineiro lá lhe fazia a vontade: regava-o, com delicadeza, como regava as suas mais belas plantas.
Devido a esta mistura com o jardim ou talvez por causa de qualquer outra razão misteriosa este menino cheirava tão bem que as abelhas não o largavam. Porém, rodeavam-no com modos pacíficos. Que simpáticas eram as abelhas! Como se fossem animais domésticos, amestrados. As minhas abelhas, dizia o menino.
E sucedia algo ainda mais estranho: as abelhas, em vez de fazerem aquele barulho desagradável que faz tremer os ouvidos, produziam, pelo contrário, uns sons suaves, melodiosos: como sons de piano. E o menino ficava tão embalado com a música suave deixada no ar pelas abelhas que adormecia três vezes por dia; o que era francamente melhor do que só adormecer uma.
As abelhas, além de se portarem como uma orquestra privada, ainda deixavam, como presente, algum mel no copo que o menino costumava trazer.
No final de semana, o menino ia vender o mel para o mercado. As abelhas, entretanto, não paravam de andar à volta dele, tocando música e depositando mel no copo, mal este se esvaziava.
Com este negócio o menino ganhou bastante dinheiro. Com o dinheiro ele pensava que conseguia crescer muito mais rápido do que o normal e que apenas em cinco anos ficaria um adulto grande. O certo é que não aconteceu isso. Mesmo com muito dinheiro o menino não cresceu mais rápido, cresceu ao ritmo de todos os outros colegas da escola. Percebeu nessa altura que o dinheiro não dava para tudo, mas só mais tarde agradeceu essa lentidão no crescimento.
O dinheiro não dava para crescer, mas a água sim.
A seu pedido, o jardineiro continuava a regá-lo todos os dias. Ele crescia ao mesmo ritmo que os outros, mas a água permitia que ele crescesse com um perfume emprestado das flores. E as abelhas continuavam a rodear-lhe a cabeça.
Durante alguns meses imaginou em adulto vir a ser um príncipe, mas depois cansou-se de imaginar os outros todos a curvarem-se à sua frente, cheios de respeito. Pensou que se viesse a ser príncipe provocaria muitas dores de costas nos seus amigos, que estariam sempre a curvar-se diante dele, e por isso quis, logo ali, antes dos dez anos, mudar de profissão. Não iria ser príncipe.
Decidiu, então, ser maestro, e transformou-se rapidamente (na sua imaginação) no maestro mais famoso do mundo. E era um maestro famoso precisamente porque não precisava de orquestra. Eram as abelhas que faziam todos os sons à volta da sua cabeça. Cada movimento das suas mãos provocava um movimento harmonioso das abelhas, e deste movimento nasciam belos sons.
A verdade é que, mais tarde, em adulto, o menino não foi príncipe nem maestro.
Escolheu uma profissão bem mais modesta: foi jardineiro. Considerava-se mesmo o jardineiro mais feliz do mundo. E tinha razões para isso. Eram muitas já as crianças que iam ao seu jardim, pedir para serem regadas de modo a crescerem saudáveis e cheirosas como ele, o jardineiro que na infância tinha sido um menino com muita imaginação.
Gonçalo M. Tavares, Pais e Filhos
Devido a esta mistura com o jardim ou talvez por causa de qualquer outra razão misteriosa este menino cheirava tão bem que as abelhas não o largavam. Porém, rodeavam-no com modos pacíficos. Que simpáticas eram as abelhas! Como se fossem animais domésticos, amestrados. As minhas abelhas, dizia o menino.
E sucedia algo ainda mais estranho: as abelhas, em vez de fazerem aquele barulho desagradável que faz tremer os ouvidos, produziam, pelo contrário, uns sons suaves, melodiosos: como sons de piano. E o menino ficava tão embalado com a música suave deixada no ar pelas abelhas que adormecia três vezes por dia; o que era francamente melhor do que só adormecer uma.
As abelhas, além de se portarem como uma orquestra privada, ainda deixavam, como presente, algum mel no copo que o menino costumava trazer.
No final de semana, o menino ia vender o mel para o mercado. As abelhas, entretanto, não paravam de andar à volta dele, tocando música e depositando mel no copo, mal este se esvaziava.
Com este negócio o menino ganhou bastante dinheiro. Com o dinheiro ele pensava que conseguia crescer muito mais rápido do que o normal e que apenas em cinco anos ficaria um adulto grande. O certo é que não aconteceu isso. Mesmo com muito dinheiro o menino não cresceu mais rápido, cresceu ao ritmo de todos os outros colegas da escola. Percebeu nessa altura que o dinheiro não dava para tudo, mas só mais tarde agradeceu essa lentidão no crescimento.
O dinheiro não dava para crescer, mas a água sim.
A seu pedido, o jardineiro continuava a regá-lo todos os dias. Ele crescia ao mesmo ritmo que os outros, mas a água permitia que ele crescesse com um perfume emprestado das flores. E as abelhas continuavam a rodear-lhe a cabeça.
Durante alguns meses imaginou em adulto vir a ser um príncipe, mas depois cansou-se de imaginar os outros todos a curvarem-se à sua frente, cheios de respeito. Pensou que se viesse a ser príncipe provocaria muitas dores de costas nos seus amigos, que estariam sempre a curvar-se diante dele, e por isso quis, logo ali, antes dos dez anos, mudar de profissão. Não iria ser príncipe.
Decidiu, então, ser maestro, e transformou-se rapidamente (na sua imaginação) no maestro mais famoso do mundo. E era um maestro famoso precisamente porque não precisava de orquestra. Eram as abelhas que faziam todos os sons à volta da sua cabeça. Cada movimento das suas mãos provocava um movimento harmonioso das abelhas, e deste movimento nasciam belos sons.
A verdade é que, mais tarde, em adulto, o menino não foi príncipe nem maestro.
Escolheu uma profissão bem mais modesta: foi jardineiro. Considerava-se mesmo o jardineiro mais feliz do mundo. E tinha razões para isso. Eram muitas já as crianças que iam ao seu jardim, pedir para serem regadas de modo a crescerem saudáveis e cheirosas como ele, o jardineiro que na infância tinha sido um menino com muita imaginação.
Gonçalo M. Tavares, Pais e Filhos
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