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domingo, 7 de outubro de 2012

682. (O tradutor cleptómano)

por Dezsö Kosztolányi

Décimo quarto capítulo de Esti Kornél, no qual se desvendam as misteriosas artimanhas de Gallus, tradutor erudito mas errante.
Falávamos de escritores e poetas, de velhos amigos, que tinham começado por fazer caminho connosco, mas depois ficaram para trás e desapareceram. De vez em quando lançávamos um nome para o ar. Quem é que ainda se lembra dele? Assentíamos e um sorriso vago iluminava-nos os lábios. No espelho dos nossos olhares reflectia-se um rosto tido por esquecido, uma carreira, uma vida perdidas. Quem sabe alguma coisa dele? Ainda estará vivo? A resposta era o silêncio. Nesse silêncio, os louros secos da glória restolhavam como as folhas caídas num cemitério. Permanecíamos em silêncio.
Durante um desses silêncios, de vários minutos, alguém citou o nome de Gallus.
— Coitado — disse Esti Kornél. — Vi-o ainda há uns anos, talvez sete ou oito anos, em tristes circunstâncias. Por essa altura sucedeu-lhe uma história por causa de um conto policial, que por si só é um conto policial, o mais emocionante e doloroso que já vivi.
Mas vocês conheciam-no, pelo menos um pouco. Um rapaz talentoso, brilhante e intuitivo, e além disso consciencioso e culto. Falava várias línguas. Sabia tão bem inglês que ao que se diz dava lições de inglês ao Príncipe de Gales. Viveu lá fora, em Cambridge, durante quatro anos.
No entanto, tinha um defeito fatal. Não, não era a bebida. Mas palmava tudo o que lhe vinha às mãos. Roubava que nem uma pega. Tanto lhe fazia se era um relógio de bolso, uma pantufa ou uma gigantesca chaminé de fogão. Não se importava nem com o valor das coisas roubadas, nem com o volume ou tamanho delas. O seu prazer era apenas fazer aquilo que queria: roubar. Nós, os amigos mais chegados, tentávamos dar-lhe a volta. Com carinho, pregávamos-lhe sermões. Ralhávamos-lhe e fazíamos-lhe ameaças. E ele até nos dava razão. Prometia lutar contra a sua própria natureza. Mas a razão lutava em vão, a natureza era mais forte. Recaía sempre.
Inúmeras vezes se viu repreendido e humilhado em público por estranhos, mais de uma vez apanhado em flagrante. Nessas alturas tínhamos de nos esforçar para remediar de um modo ou outro as consequências dos seus actos. No entanto, uma vez no expresso de Viena palmou a carteira de um comerciante moravo que o apanhou ali mesmo, e o entregou à gendarmaria na estação seguinte. Trouxeram-no algemado para Budapeste.
Tentámos salvá-lo novamente. Vocês que escrevem, sabem que tudo depende das palavras, tanto a excelência de um poema, como o destino de um homem. Argumentámos que era cleptómano, e não ladrão.
Se é nosso conhecido, geralmente é cleptómano. Se desconhecido, é ladrão. O tribunal não o conhecia, pelo que foi considerado ladrão e condenado a dois anos de prisão.
Depois de ser posto em liberdade, numa manhã escura de Dezembro, perto do Natal, apareceu-me à porta esfomeado e esfarrapado. Caiu de joelhos à minha frente. Implorou-me que não o abandonasse, que o ajudasse, que lhe arranjasse trabalho. Não podia, por enquanto, escrever sob o próprio nome. Mas não sabia fazer outra coisa, senão escrever. Fui então falar com um editor decente e humano, recomendei-o, e no dia seguinte a editora encarregou-o da tradução de um conto policial inglês. Para nós era pouco mais que lixo, envergonhava-nos sujar as mãos com tal coisa. Não líamos. No máximo traduzíamos, mas só de luvas. Ainda me lembro do título: O Misterioso Castelo do Conde Vicislav. Mas que importava isso?
Eu estava contente por poder ter feito alguma coisa, e ele também estava contente por poder ganhar o seu pão. Atacou o trabalho com entusiasmo. Trabalhou com tal afinco que entregou o manuscrito passadas três semanas, antes do prazo estipulado.
Fiquei tremendamente admirado quando, dias depois, a editora me informou por telefone que a tradução do meu protegido era inutilizável e que não iria pagar um tostão por ela. Não compreendi. Apanhei um coche e segui para lá.
O editor entregou-me o manuscrito sem uma palavra. O nosso amigo tinha-o passado a limpo à máquina, numerado as páginas, e até as tinha atado com um cordão com as cores nacionais. Isso era típico dele, acho que já tinha dito que em termos profissionais ele era de confiança, de um rigor escrupuloso. Comecei a ler o texto. Exclamei de encanto. Frases claras, expressões perspicazes, subtis engenhos linguísticos sucediam-se uns aos outros, tantos que aquela literatura de pacotilha talvez nem os merecesse. Surpreendido, perguntei ao editor o que tinha a objectar. Sempre sem uma palavra, entregou-me então o original inglês, pedindo-me para comparar os dois textos. Estive durante meia hora a analisá-los, olhando ora para o livro, ora para o manuscrito. Por fim, levantei-me estupefacto. Disse ao editor que tinha toda a razão.
Porquê? Não tentem adivinhar. Estão enganados. Não, não era a tradução de outro romance. Tratava-se mesmo da tradução fluente, artística, por vezes com arrojos poéticos d'O Misterioso Castelo do Conde Vicislav. Estão outra vez enganados. Não, não tinha um único erro de tradução. Realmente dominava tão bem o inglês como o húngaro. Parem. Nunca ouviram nada que se pareça. O "gato" era outro. Outro mesmo.
Eu também só comecei a perceber gradualmente, pouco a pouco. Oiçam. A primeira frase do original inglês era: 'Todas as trinta e seis janelas do velho e escalavrado castelo estavam iluminadas. Em cima, no primeiro andar, no salão de baile, brilhavam quatro luxuosos lustres de cristal...' Na tradução húngara estava: 'Todas as doze janelas do velho e escalavrado castelo estavam iluminadas. Em cima, no primeiro andar, brilhavam dois luxuosos lustres de cristal...' Arregalei os olhos, e continuei a ler. Na terceira página, o escritor inglês dizia: 'Com um sorriso irónico, o conde Vicislav esvaziou a carteira bem recheada, e atirou-lhes o montante exigido, mil e quinhentas libras...'
A versão do tradutor húngaro era: 'Com um sorriso irónico, o conde Vicislav esvaziou a carteira, e atirou-lhes o montante exigido, cento e cinquenta libras...' Comecei a sentir uma suspeita de mau augúrio, que infelizmente em poucos minutos se transformou numa triste certeza. Mais abaixo, no fim da terceira página, a edição inglesa dizia: 'A condessa Eleonor estava sentada a um canto do salão de baile, vestida de gala, usando as antigas jóias de família: ostentava na cabeça a tiara de diamantes que herdara da sua tetravô, esposa de um príncipe-elei-tor alemão; no colo de alabastro brilhava um colar de pérolas opalino, e os seus dedos estavam quase hirtos com anéis de brilhantes, safiras e esmeraldas...' Para minha grande surpresa, o manuscrito húngaro reconstruiu essa descrição colorida da seguinte maneira: 'A condessa Eleonor estava sentada a um canto do salão de baile, vestida de gala...' Mais nada. Faltavam a tiara de diamantes, o colar de pérolas, os anéis de brilhantes, as safiras e as esmeraldas.
Estão a perceber o que tinha feito este nosso desgraçado colega, bem digno de melhor sorte? Pura e simplesmente roubara as jóias de família da condessa Eleonor, com a mesma imperdoável ligeireza aliviara também o conde Vicislav, aliás tão simpático, deixan-do-lhe apenas cento e cinquenta das mil e quinhentas libras, de igual forma fanara dois dos quatro lustres de cristal do salão de baile, e desviara ainda vinte e quatro das trinta e seis janelas do velho e escalavrado castelo. Sentia o mundo a girar à minha volta. O meu espanto atingiu o auge quando cheguei à conclusão, sem margem para dúvidas, de que o mesmo marcava de forma consistente e fatal todo o seu trabalho. Por onde passasse, a caneta do tradutor lesava as personagens que tinha acabado de conhecer, não poupando nem móveis, nem imóveis, violando a quase incontestavelmente sagrada propriedade privada.
Trabalhava usando diferentes técnicas. Na maior parte das vezes, os objectos de valor evaporavam-se sem deixar rasto. Dos tapetes, dos cofres e das pratas, destinados a elevar o nível literário do original inglês, não restavam nem vestígios no texto húngaro. Outras vezes surripiava só uma parte, metade ou dois terços. Se alguém mandava o criado levar cinco malas para a carruagem de comboio, ele mencionava apenas duas, e sonegava insidiosamente as restantes três. De qualquer forma, para mim o mais desolador — talvez por demonstrar verdadeira perfídia e desonestidade — era o facto de ele com frequência substituir os metais nobres e as pedras preciosas por materiais reles e sem valor, a platina por lata, o ouro por cobre e o diamante por cristal ou vidro.
Despedi-me da editora cabisbaixo. Por curiosidade pedi para ficar com o manuscrito e o original inglês. Intrigava-me o verdadeiro mistério deste policial, por isso em casa continuei a investigação e fiz o inventário dos objectos roubados. Trabalhei sem descanso da uma da tarde até às seis e meia de manhã. No fim, apurei que o transviado do nosso colega, ao longo da tradução, se tinha apropriado indevidamente e ilegalmente de 1 579 251 libras esterlinas, 177 anéis de ouro, 947 colares de pérolas, 181 relógios de bolso, 309 pares de brincos, 435 malas de viagem, sem contar com as propriedades, florestas e pastos, palácios ducais e baroniais, tal como pequenos objectos insignificantes, lenços, palitos e campainhas, que seria longo, e talvez inútil, enumerar.
Onde é que ele metia os móveis e imóveis que afinal só existiam no papel, no mundo da imaginação, e qual o objectivo do furto, seria uma questão que nos levaria longe e que por isso não vou aprofundar. Mas tudo isto me convenceu de que ele continuava escravo do seu vício delinquente ou da sua doença, que não havia esperanças de cura, e que não merecia o apoio da sociedade respeitável. Eu, na minha indignação moral, desisti dele. Abandonei-o ao seu destino. Nunca mais ouvi falar dele.
(1932)

Ficçõesde humor. Revista de contos, Lisboa,Tinta Permanente, [2003],pp. 121-129.Tradução de Agnes Jancsó C. Lopes)

sábado, 6 de outubro de 2012

678. Confissões de um humorista

por O. Henry



Houve um estádio indolor de incubação que durou vinte e cinco anos, e depois tive um surto e as pessoas disseram que eu era o supra-sumo.
Mas chamaram-lhe humor em vez de sarampo.
Os empregados do armazém compraram um tinteiro de prata para o sócio mais velho quando fez cinquenta anos. Apinhámo-nos no gabinete dele para lho dar. Tinham-me escolhido para porta-voz e fiz um pequeno discurso que andava a preparar há uma semana.
Foi um sucesso. Era todo cheio de trocadilhos e epigramas e reviravoltas engraçadas que fizeram vir abaixo a casa, de si bastante sólida, na linha da venda de ferragens por atacado. O Marlowe propriamente dito chegou a sorrir e os empregados aproveitaram a deixa e riram à gargalhada.
A minha reputação como humorista data das nove e meia dessa manhã. Os meus colegas passaram semanas a avivar a chama do meu amor-próprio. Um a um vieram dizer-me que o meu discurso fora incrivelmente bem feito, meu caro, e explicaram-me com todo o cuidado cada uma das minhas piadas.
A pouco e pouco percebi que se esperava que eu continuasse. Outros podiam bem falar, cheios de bom senso, de negócios e dos tópicos do dia, mas de mim exigia-se uma coisa brincalhona e airosa.
Esperava-se que eu dissesse piadas sobre cerâmica e aligeirasse os granitos com graçolas. Era o segundo contabilista, e se não apresentasse um balancete com uma coisa cómica ao pé das somas ou não encontrasse motivo de riso na factura duns arados, era uma decepção para os outros empregados. Gradualmente, a minha fama espalhou-se, e tornei-me numa personagem castiça. A nossa cidade era suficientemente pequena para que isto fosse possível. O jornal diário citava-me. Eu era indispensável nas reuniões sociais.
Acredito que tivesse uma graça razoável e alguma facilidade na resposta rápida e espontânea. É um dom que cultivei e aperfeiçoei pela prática. E a natureza deste dom era bondosa e cordial, não ia para o sarcasmo nem ofendia os outros. As pessoas começavam a sorrir quando me viam aparecer, e quando chegávamos perto, já eu trazia pronta a palavra que alargava num riso o sorriso delas.
Casara cedo. Tínhamos um menino de três anos que era um encanto e uma menina de cinco. Como é natural, vivíamos numa casinha coberta de vinha e éramos felizes. O meu ordenado como contabilista no negócio das ferragens mantinha à distância os males que derivam da riqueza supérflua.
Escrevera várias vezes piadas e peças de humor que considerei especialmente felizes e enviara-as a certos jornais que publicam essas coisas. Todas foram imediatamente aceites. Houve chefes de redacção que escreveram a pedir mais colaboração.
Um dia recebi uma carta do editor de um famoso semanário. Sugeria que eu lhe mandasse um artigo humorístico para encher uma coluna que vagara, insinuando que passaria a contribuição regular caso o trabalho fosse satisfatório. Assim fiz, e ao fim de duas semanas ofereceu-me um contrato de um ano, por uma quantia bastante superior à que me pagavam na empresa de ferragens.
Fiquei deliciado. A minha mulher já me coroara, na cabeça dela, com o louro imperecível do êxito literário. Nessa noite, ao jantar, comemos rissóis de lagosta e bebemos uma garrafa de vinho de amora. Era a oportunidade de me libertar da servidão. Tive com Louisa uma conversa longa e séria. Concordámos que eu devia deixar o meu lugar no armazém, e dedicar-me ao humor. Demiti-me. Os meus colegas ofereceram-me um banquete de despedida. O discurso que ali fiz foi coruscante. Veio publicado na íntegra na Gazeta. Na manhã seguinte acordei e olhei para o relógio.
— Já é tarde, raios! — exclamei, e precipitei-me para apanhar a roupa. Louisa lembrou-me de que eu já não era um escravo das ferragens e dos fornecimentos aos construtores civis. Agora era humorista profissional.
Depois do pequeno-almoço levou-me toda orgulhosa ao quartinho ao pé da cozinha. Tão querida! Lá estavam a minha mesa e cadeira, bloco de notas, tinta e a bandeja do cachimbo. E todos os sinais exteriores do autor — o aipo com rosas acabadas de apanhar e madressilva, o calendário do ano passado na parede, o dicionário e um saquinho cheio de chocolates para ir petiscando nos intervalos da inspiração. Tão querida!
Sentei-me para trabalhar. O papel de parede tem uns arabescos, ou umas odaliscas ou — talvez — uns trapézios. Fixei os olhos numa das figuras. Pus-me a pensar em humor.
Sobressaltou-me uma voz — a de Louisa.
— Se já não tens muito que fazer, querido — dizia vem almoçar.
Olhei para o relógio. Sim, cinco horas ceifadas pela gadanha sinistra. Fui almoçar.
— Não podes trabalhar tanto logo de início — disse Louisa. — Goethe, ou terá sido Napoleão?, disse que chegavam cinco horas por dia de esforço mental. Porque não me levas a mim e aos meninos a passear ao bosque hoje à tarde?
— Estou um bocado cansado — admiti. E fomos ao bosque.
Mas cedo lhe apanhei o jeito. Passado um mês já eu fornecia texto com a mesma regularidade dos carregamentos de ferragens.
E tive sucesso. A minha coluna no semanário teve algum impacto, e na conversa de café entre críticos, referiam-se-me como uma lufada de ar fresco nas hostes dos humoristas. Aumentei bastante os rendimentos contribuindo para outras publicações.
Aprendi os truques do ofício. Conseguia pegar numa ideia engraçada, fazer uma piada de duas linhas, e ganhar um dólar. Punha-lhe umas suíças postiças, servia-a fria como quadra, duplicando-lhe o valor na produção. Virava-a do avesso e juntando-lhe um cheirinho de rima quase nem a reconheciam como vers de sociétê calçado de novo e com uma ilustração de moda.
Comecei a poupar dinheiro e comprámos tapetes novos e um órgão de sala. Os meus conterrâneos começaram a olhar-me como cidadão de alguma importância em vez do pateta alegre que eu fora enquanto trabalhava nas ferragens.
Passados cinco ou seis meses, a espontaneidade desapareceu do meu humor. Repentes e tiradas droláticas já não me saíam todas despreocupadas pela boca fora. Por vezes, faltava-me o assunto. Dei comigo à coca a ver se apanhava ideias disponíveis nas conversas dos amigos. Às vezes roía o lápis e ficava pasmado a olhar para o papel de parede horas a fio, tentando construir uma alegre bolhinha de graça espontânea.
E depois tornei-me numa harpia, um Moloch, um Jonas, um vampiro, para os meus conhecidos. Ansioso, desvairado, ávido, eu era, no meio deles, um autêntico desmancha-prazeres. Era só cair-lhes da boca um dito inteligente, uma comparação espirituosa, uma frase mordaz e eu saltava como um cão a apanhar um osso. Não ousava confiar na memória; mas virando-me um pouco de lado, culpado e mesquinho, tomava notas no meu sempre presente bloco de apontamentos ou no punho da camisa, para usar mais tarde.
Os amigos olhavam-me com pena e pasmo. Não era o mesmo homem. Onde outrora lhes fornecera entretenimento e alegria, agora caía-lhes em cima como ave de rapina. De mim já não levavam gracinhas só pelos sorrisos deles. Eram demasiado preciosas. Não me podia dar ao luxo de oferecer gratuitamente os meios da minha subsistência. Era uma raposa lúgubre louvando o canto dos meus amigos corvos para que deixassem cair dos bicos os pedaços de humor que eu cobiçava.
Quase toda a gente me evitava. Cheguei a esquecer-me de como era fazer um sorriso, e nem isso pagava pelos ditos de que me apropriava. Gente, lugares, momentos, temas, nada estava isento da minha pilhagem de material. Até na igreja, a minha fantasia amoral corria à caça, pelas coxias solenes e pelos pilares, em busca do saque.
Se o pastor falava na doxologia, eu começava logo: "Doxologia-Socodologia-Socodólogo-Metro-Meter-o".
O sermão passava-me pela peneira mental, e os preceitos morais escorriam despercebidos, se eu vislumbrasse a vaga possibilidade de um trocadilho ou de um bon mot. Os hinos mais solenes do coro eram mero acompanhamento dos pensamentos em que concebia novas maneiras de glosar velhas piadas sobre a rivalidade entre a soprano, o tenor e o baixo.
A minha própria casa passou a ser terreno de caça. A minha mulher é uma criatura muitíssimo feminina, cândida, simpática e impulsiva. No passado, deliciava-me conversar com ela e as suas ideias eram fonte de prazer constante. Agora explorava-a. Era uma mina de ouro dessas contradições engraçadas e amorosas que distinguem a mente feminina.
Comecei a fazer negócio com as pérolas de in-sabedoria e humor que deviam ter enriquecido apenas o sagrado recinto do lar. Com manha diabólica, encorajava-a a falar. Sem desconfiar, ela punha o coração nas mãos. Na fria, conspícua, baixa letra impressa, eu oferecia-o ao olhar público.
Qual Judas literário, beijava-a e traía-a. Por moedas de prata vestia-lhe as doces confidências com a roupa de baixo e os folhinhos da patetice e fazia-as dançar na praça.
Querida Louisa! Houve noites em que me debrucei sobre ela, cruel como um lobo sobre o tenro cordeiro, atento até às palavras murmuradas no sono, esperando apanhar uma ideia para a lavra esforçada do dia seguinte. Mas o pior está para vir.
Valha-me Deus! A seguir, enterrei fundo as presas nos ditos fugidios dos meus pequeninos.
Guy e Viola eram duas fontes brilhantes de pensamentos e ditos infantis e insólitos. Havia procura deste género de humor e eu fornecia regularmente uma secção duma revista com "Divertidas Fantasias da Infância". Punha-me a espreitá-los, como um índio espia um antílope. Escondia-me atrás dos sofás e das portas, ou gatinhava pelos arbustos no pátio e punha-me a escuta enquanto eles brincavam. Tinha todas as qualidades da harpia, excepto o remorso.
Uma vez, quando estava sem ideias nenhumas e tinha de enviar o texto pelo correio seguinte, cobri-me de folhas caídas no jardim, onde sabia que vinham brincar. Não posso acreditar que o Guy soubesse do meu esconderijo, mas mesmo que soubesse, detestaria ter de o censurar por deitar fogo às folhas, causando a destruição do meu fato novo, e quase cremando um progenitor.
Cedo os meus próprios filhos começaram a fugir de mim como da peste. Muitas vezes, quando me chegava a eles pé ante pé qual melancólico ladrão de sepulturas, ouvia-os a dizer um para o outro:
— Lá vem o pai — e apanhavam os brinquedos e iam a correr esconder-se num lugar mais seguro. Desgraçado miserável que eu era!
E, no entanto, estava bem, financeiramente. No primeiro ano poupara mil dólares e tínhamos vivido com conforto. Mas a que preço! Não tenho bem a certeza do que seja um pária, mas eu era tudo o que essa palavra parece indicar. Não tinha amigos, nem gozava a vida. Sacrificara a felicidade da minha família. Era uma abelha, sugando mel sórdido das mais belas flores da vida, temido e ostracizado por causa do meu ferrão.
Um dia, um homem falou comigo, com um sorriso amável e simpático. Há meses que tal não me acontecia. Passava eu no estabelecimento funerário de Peter Heffelbower. Peter estava à porta e cumprimentou-me. Parei, com o coração estranhamente apertado pelo cumprimento dele. Convidou-me a entrar.
O dia estava frio e chuvoso. Fomos para a sala das traseiras, onde havia um pequeno fogão aceso. Veio um cliente e o Peter deixou-me sozinho um bocado. De repente, senti-me tomado de um sentimento novo — uma calma maravilhosa, uma satisfação, e olhei em volta. Havia filas de caixões de roseira brilhantes, panos mortuários, tripeças, plumas de essa, flâmulas negras, e toda a parafernália do solene ofício. Aqui havia paz, ordem, silêncio, era o lugar próprio das reflexões graves e dignas. Aqui, à beira da vida, havia um nichozinho dominado pelo espírito do eterno descanso.
Quando entrei, as loucuras do mundo abandonaram-me à porta. Não senti qualquer inclinação para me esforçar por uma ideia humorística sobre tal aparato sombrio e solene. O meu espírito parecia distender-se para o grato repouso num divã recamado de pensamentos delicados.
Há um quarto de hora, eu era um humorista abandonado. Agora, era um filósofo, cheio de serenidade e à-vontade. Encontrara onde me refugiar do humor, da ardente perseguição do tímido motejo, da caça degradante à piada arquejante, da inquieta busca da resposta pronta.
Não conhecia bem Heffelbower. Quando ele voltou, deixei-o falar, temendo que ele pudesse ser uma nota dissonante na doce harmonia de hino fúnebre do seu estabelecimento.
Mas não. Estava em harmonia. Dei um longo suspiro de felicidade. Nunca encontrara conversa de homem mais magnificamente maçadora do que a do Peter. Comparada com ela, o mar Morto é um gaiser. Nunca centelha ou vislumbre de graça lhe prejudicavam as palavras. Lugares-comuns, banais e abundantes como as amoras, fluíam-lhe dos lábios, causando tanta agitação como as notícias da semana passada. Um pouco trémulo, experimentei nele um dos meus ditos mais afiados. Caiu ali mesmo, sem efeito, a ponta quebrada. Passei a adorar o homem.
Duas ou três noites por semana ia discretamente ter com o Heffelbower e divertia-me à grande na sala das traseiras. Era a minha única alegria. Comecei a acordar cedo e a trabalhar rapidamente, para poder passar mais tempo no meu porto de abrigo. Era só ali que podia largar o hábito de extrair ideias humorísticas de tudo o que me rodeava. A conversa de Peter não me deixava uma única aberta, tivesse eu tentado.
Sob tal influência, o meu estado de espírito melhorou. Era a folga do trabalho, de que todo o homem precisa. Surpreendi um ou dois dos meus antigos amigos com um sorriso e uma frase alegre ao passar por eles na rua. E por vezes fiz pasmar a família quando consegui relaxar o suficiente para fazer uma observação jocosa na presença deles.
Estivera tanto tempo obcecado pelo incubo do humor que agarrava as minhas horas de folga com o brio de um rapazinho da escola.
O trabalho começou a ressentir-se. Já não era o sofrimento e o fardo que antes fora. Muitas vezes assobiava à mesa de trabalho, e escrevia com muito mais fluência. Acabava as tarefas com impaciência tão ansioso por chegar ao salutar refúgio, como um bêbedo a taberna.
A minha mulher passou horas angustiada especulando sobre onde é que eu passaria as tardes
Achei melhor não lhe dizer; as mulheres não compreendem estas coisas. Coitada! Ainda apanhou um susto.
Um dia trouxe para casa uma pega de prata de um caixao para pesa-papéis e uma pluma muito bonita e macia tirada duma essa para limpar o pó aos meus papéis.
Gostava de as ver na secretária, e pensar na adorada sala do Heffelbower. Mas Louisa encontrou-as e gritou de horror. Tive de a consolar com uma desculpa tosca mas vi nos olhos dela que o preconceito não desaparecera' E tive de tirar dali os objectos, e muito rapidamente
Um dia, Peter Heffelbower pôs-me à frente uma tentaçao que me fez tresvairar. Naquele seu modo sensato e monótono, mostrou-me os livros e explicou que os lucros e o negócio cresciam rapidamente. Pensava arranjar um sócio com algum dinheiro. Preferia-me a mim, de toda a gente que conhecia. Quando saí de casa dele nessa tarde, já o Peter tinha o cheque dos mil dólares que eu tinha no banco, e eu era sócio dele no negócio dos enterros.
Fui para casa num sentimento de alegria delirante, e uma certa dose de dúvida. Tinha pavor de contar à minha mulher. Mas ia nas nuvens. Desistir da escrita de peças humorísticas, morder mais uma vez a polpa da vida, em vez de a espremer por umas gotitas de amargo sumo, para divertir o público — que bênção!
À mesa do jantar, Louisa deu-me umas cartas que tinham chegado na minha ausência. Algumas continham manuscritos rejeitados. Desde que começara a ir a casa do Heffelbower que os meus textos vinham devolvidos com frequência alarmante. Nos últimos tempos, despachava piadas e artigos com grande fluência. Antes disso, trabalhara como quem assenta tijolo, devagar e com sofrimento.
Abri logo uma carta do editor do semanário com que tinha contrato. Ainda dependíamos em grande medida dos cheques desse artigo semanal. A carta era assim:

Exmo. Senhor
Como sabe, o nosso contrato anual expira este mês. Embora lamentando a necessidade de o fazer, temos a dizer que não queremos renovar o contrato para o próximo ano. Estávamos muito satisfeitos com o seu estilo de humor, que parece ter deliciado uma grande quantidade de leitores.
Mas nos últimos dois meses observámos uma nítida queda na sua qualidade. Os seus primeiros trabalhos demonstravam uma corrente espontânea, fácil e natural de humor e de graça. Ultimamente, ele é trabalhado, artificial epouco convincente, prova dolorosa de trabalho árduo e repetitivo.
Lamentando mais uma vez não poder continuar a aceitar as suas contribuições, somos sinceramente
O Editor

Entreguei a carta à minha mulher. Leu-a e ficou com uma cara tristíssima e de lágrimas nos olhos.
— Malvado do velho! — disse, indignada. — As tuas peças são tão boas como eram. E não te levam nem metade do tempo a fazer.
Depois, acho eu, Louisa deve ter pensado nos cheques que iam acabar.
— Oh, John — gemeu ela o que é que vais fazer? Em resposta, levantei-me e pus-me a dançar a polka à roda da mesa. Louisa deve ter pensado que a preocupação me enlouquecera; e as crianças devem ter tido esperança de que assim fosse, porque se lançaram atrás de mim exultantes, imitando os meus passos. Agora já me parecia mais com o companheiro de brincadeira que antes fora.
— Hoje vamos todos ao teatro! — gritei. — Nada menos. E ceamos tarde, como loucos, e portamo-nos mal no restaurante Palace. Olari-lari-lolela!
E depois expliquei a minha alegria dizendo que era sócio de uma próspera agência funerária e que os artigos humorísticos podiam bem ir enfiar a cabeça em sacos de serapilheira ou enterrar-se nas cinzas, a ver se eu me ralava. Com a carta do editor na mão para justificar o que eu fizera, a minha mulher não pôde avançar com nenhuma objecção, fora algumas, mas brandas, e baseadas na incapacidade feminina para apreciar uma coisa tão boa como a sala das traseiras de Peter Hef-não, de Heffelbower & Cia, Agência Funerária.
Em conclusão, direi que hoje não encontram nesta cidade homem mais amado, jovial, cheio de ditos espirituosos, do que eu. As minhas piadas são novamente faladas e citadas; voltei a ter prazer nas confidências da minha mulher sem um pensamento mercenário, enquanto Guy e Viola brincam a meus pés, espalhando pérolas de humor infantil sem medo do homem medonho que as atormentava e perseguia como um cão, de bloco de notas em punho.
O negócio floresceu muito. Faço a contabilidade e tomo conta da agência, enquanto Peter trata das coisas no exterior. Diz que a minha ligeireza e bom humor haviam de tornar qualquer funeral num verdadeiro pandemônio.

O. Henry, «Confissões de um Humorista» in Ficçõesde humor. Revista de contos, Lisboa,Tinta Permanente, [2003], pp. 37-41. (Tradução de Luísa Costa Gomes)

quinta-feira, 28 de junho de 2012

612. A Ribeira do Anjo

Numa madrugada de Inverno, após uma noite de chuva grossa, uma gota de água amanheceu a deslizar entre duas pedras. A seguir veio outra e outra. Quando a manhã começou a ganhar mais Luz, um fiozinho de água deslizava já, teimoso e à surrelfa, por entre as ervas. Encalhou entre três grandes calhaus e por ali foi ficando até se transformar numa poça brilhante e funda. Passados dois dias, caiu do céu uma negra trovoada e, quando as nuvens sossegaram, a fonte engrossou subitamente e a água jorrou lá do alto, do seu leito de ervas e pedras na direcção do vale. Brincou, indecisa, por entre velhas raízes e folhas secas, até que se acomodou entre os pedregulhos que há muito tinham rolado do alto da montanha. E por ali ficou, escorregando aqui, saltando acolá, atravessando campos cobertos de geada e ramadas nuas. E, brincando sempre, foi encontrando o seu caminho na direcção do grande rio. Tinha nascido uma ribeira. Sempre que chovia, o seu leito engrossava e corria, agora, cada vez mais poderoso e mais fundo.
Quando chegou a Primavera, as suas margens cobriram-se de fetos e de violetas selvagens. Pequenos choupos e ulmeiros despontaram vigorosamente da terra. Chegaram libelinhas e borboletas enquanto minúsculas trutas cintilavam em grandes acrobacias para vencer a corrente. Por fim, veio um moleiro e construiu um moinho nas suas margens para que a força da água moesse os grãos de milho e de centeio.
Vivia contente, a ribeirinha. Toda ela vibrava de exaltação. Tinha prazer em ouvir a sua própria voz cantando por entre as pedras e gostava de sentir o seu corpo engrossar com a água que caía do céu nos dias cinzentos. Os rebanhos vinham de longe para beber e colónias de agriões minúsculos tinham despontado ao longo das suas margens. As crianças das aldeias mais próximas vinham, em bando, colhê-los e dançavam na água até que o Sol se pusesse.
Com o passar dos anos o moinho deixou de transformar os grãos em farinha e o moleiro vendeu-o a um homem. Era um gigante louro e barbudo que passou a viver lá, completamente só. Era duro morar lá dentro no Inverno, porque as margens da ribeira cresciam e inundavam o chão, que era de terra batida. As pessoas da aldeia mais próxima achavam estranho uma pessoa morar ali tão sozinha e tão pobremente. Mas apesar disso e de não saberem de onde viera nem como viera, gostavam dele. Ajudava toda a gente: fazia longos carreiros entre as ervas para que a água do ribeiro se encaminhasse para os campos, guardava os rebanhos que pastavam nas suas terras, ajudava os camponeses por altura das colheitas. Plantava árvores. Passava a vida a plantar árvores. Havia quem jurasse que o vira acariciar as folhinhas que nasciam na Primavera e, por isso, muita gente da aldeia cuidava que era maluco. Falava muito pouco mas, de vez em quando, chegavam pessoas estranhas à aldeia, só para estar com ele. Encaminhavam-se pelo carreiro que ia dar ao moinho e quando voltavam, traziam nos olhos uma expressão pacífica e feliz.
A única coisa certa que as pessoas da aldeia sabiam do homem era que ele tinha um grande amor pela ribeira. Passava a maior parte do seu tempo de pés na água, limpando as suas margens, reparando os estragos que o Inverno fizera na corrente, organizando as pedras do seu leito para que a água melhor se acomodasse ou para que a sua música melhor se ouvisse. Por isso também havia gente que jurava que falavam os dois, ele e a água.
Mas um dia as águas da ribeira perderam a sua luminosa transparência. Primeiro ganharam um tom ligeiramente rosado. Depois, aos poucos, foram escurecendo e acabaram por ficar de um tom avermelhado, cor de sangue. As libelinhas e as borboletas desapareceram e centenas de pequenas trutas apareceram mortas, a boiar à tona da água. Os milhos e as couves estiolaram e morreram. As águas pareciam também mortas, já nem cantavam entre as pedras. Apenas espumavam. Os camponeses arrepelaram-se de aflição e começaram a dizer que a ribeira estava endemoninhada. E foram, em procissão, ter com o homem do moinho.
A partir daí o homem do moinho deixou de dormir. Passava dia e noite percorrendo o leito da ribeira, perscrutando as águas, limpando-as da espuma, ansioso e atento às suas mais pequenas transformações. Mas as águas continuavam a correr, lentas e viscosas. Quando o homem saía do ribeiro e punha os pés na terra, trazia-os tão vermelhos como a própria água. Até que uma noite a corrente tornou-se de repente mais agitada, mais barulhenta.
—    Querem acabar comigo... — borbulhava a ribeira.
O homem, ao princípio, não percebeu que a ribeira falava. Na realidade era uma invenção da aldeia aquela história de ele conversar com ela. Aflito, apenas observava a corrente e lhe doíam os seus gemidos, perdidos na noite muito escura.
—    Tu aí! — repetiu a ribeira. — Eu sei que tens pena de mim...
Mas o homem não percebia. Queria muito perceber, mas não percebia.
—    Eu sei que tens pena de mim... — insistia a água.
O homem ficou muito aflito. Finalmente, parecia-lhe que a água murmurava qualquer coisa.
Então passou toda a noite a tentar decifrar a fala da ribeira. Acariciava e limpava as poucas plantas aquáticas que ainda sobreviviam, punha pedrinha daqui, tirava de acolá, escavava a areia do fundo, aconchegava a água. E escutava.
—    Querem matar-me... — soluçava a ribeira. — Querem acabar comigo... — tornava a soluçar a ribeira.
E ninguém soube nunca como aconteceu. Durante muitos dias e muitas noites ainda, o homem do moinho esteve fielmente atento à ribeira. E à força de escutar, talvez tivesse, finalmente, compreendido os seus gemidos. Porque, uma manhã, já no fim do Verão, os camponeses viram chegar, nos antigos regos, crestados pelo ardor do veneno, a mesma água cristalina de antigamente. Alegres, ajoelharam-se na terra, beijaram a água, deram de beber aos seus campos secos. A seguir correram para as margens da ribeira que serpenteava entre as pedras, transparente e pura, com o vigor e a força de antigamente. Levantaram as mãos para o céu. E, ao fim do dia, foram todos ao moinho agradecer ao homem. Mas o moinho estava fechado, o homem tinha desaparecido sem deixar rasto.
É desde essa época que lhe chamam Ribeira do Anjo. Porque, quem conta hoje esta história, nunca se esquece de afirmar que o dono do moinho era um anjo e o seu corpo se fundiu com a água para produzirtão grande milagre. Há até quem lá veja, ainda hoje, umas grandes asas brancas voejando com a névoa nos dias de muito frio. Também há quem pense que era um santo. Ou um espírito das águas. E que a ribeira, vigiada lá de cima, estará para sempre a salvo de todos os males. Porque ainda hoje a sua água continua, cristalina e saltitante, fazendo música por entre as pedras.
Também há quem diga que foi apenas coincidência: que o homem desgostoso e cansado da sua solidão, partiu dali para nunca mais voltar. E que um dia virá em que outra fábrica se instalará nas suas margens e vomitará as suas sujas entranhas para o leito da ribeira.

Teresa Savedra, Contos que o vento soprou, Porto, Civilização Editora, s.d.,pp.29-32

sábado, 14 de abril de 2012

485. O Tesouro

I
Os três irmãos de Medranhos, Rui, Guanes e Rostabal, eram então, em todo o reino das Astúrias, os fidalgos mais famintos e os mais remendados.
Nos Paços de Medranhos, a que o vento da serra levara vidraça e telha, passavam eles as tardes desse Inverno, engelhados nos seus pelotes de camelão, batendo as solas rotas sobre as lajes da cozinha, diante da vasta lareira negra, onde desde muito não estalava lume, nem fervia a panela de ferro. Ao escurecer devoravam uma côdea de pão negro, esfregada com alho. Depois, sem candeia, através do pátio, fendendo a neve, iam dormir à estrebaria, para aproveitar o calor das três éguas lazarentas que, esfaimadas como eles, roíam as traves da manjedoura. E a miséria tornara estes senhores mais bravios que lobos. Ora, na Primavera, por uma silenciosa manhã de domingo, andando todos três na mata de Roquelanes a espiar pegadas de caça e a apanhar tortulhos entre os robles, enquanto as três éguas pastavam a relva nova de Abril - os irmãos de Medranhos encontraram, por trás de uma moita de espinheiros, numa cova de rocha, um velho cofre de ferro. Como se o resguardasse uma torre segura, conservava as suas três chaves nas suas três fechaduras. Sobre a tampa, mal decifrável através da ferrugem, corria um dístico em letras árabes. E dentro, até às bordas, estava cheio de dobrões de ouro! No terror e esplendor da emoção, os três senhores ficaram mais lívidos do que círios. Depois, mergulhando furiosamente as mãos no ouro, estalaram a rir, num riso de tão larga rajada que as folhas tenras dos olmos, em roda, tremiam... E de novo recuaram, bruscamente se encararam, com os olhos a flamejar, numa desconfiança tão desabrida que Guanes e Rostabal apalpavam nos cintos os cabos das grandes facas. Então, Rui, que era gordo e ruivo e o mais avisado, ergueu os braços como um árbitro, e começou por decidir que o tesouro, ou viesse de Deus ou do Demónio, pertencia aos três, e entre eles se repartiria, rigidamente, pesando-se o ouro em balanças. Mas como poderiam carregar para Medranhos, para os cimos da serra, aquele cofre tão cheio? Nem convinha que saíssem da mata com o seu bem, antes de cerrar a escuridão. Por isso ele entendia que o mano Guanes, como mais leve, devia trotar para a vila vizinha de Retortilho, levando já ouro na bolsinha, a comprar três alforges de couro, três maquias de cevada, três empadões de carne e três botelhas de vinho. Vinho e carne eram para eles que não comiam desde a véspera: a cevada era para as éguas. E, assim refeitos, senhores e cavalgaduras, ensacariam o ouro nos alforges e subiriam para Medranhos, sob a segurança da noite sem Lua.
-    Bem tramado! - gritou Rostabal, homem mais alto que um pinheiro, de longa guedelha e com uma barba que lhe caía desde os olhos raiados de sangue até à fivela do cinturão.
Mas Guanes não se arredava do cofre, enrugado, desconfiado, puxando entre os dedos a pele negra do seu pescoço de grou. Por fim, brutalmente:
-    Manos! O cofre tem três chaves... Eu quero fechar a minha fechadura e levar a minha chave!
-    Também eu quero a minha, mil raios! - rugiu logo Rostabal. Rui sorriu. Decerto, decerto! A cada dono do ouro cabia uma das chaves que o guardavam. E cada um em silêncio, agachado ante o cofre, cerrou a sua fechadura com força. Imediatamente Guanes, desanuviado, saltou na égua, meteu pela vereda de olmos, a caminho de Retortilho, atirando aos ramos a sua cantiga costumada e dolente:
Olé! Olé!
 Sale la cruz de la iglesia,
Vestida de negro luto...

II

Na clareira, em frente à moita que encobria o tesouro (e que os três tinham desbastado a cutiladas), um fio de água, brotando entre rochas, caía sobre uma vasta laje escavada onde fazia como um tanque, claro e quieto, antes de se escoar para as relvas altas. E ao lado, na sombra de uma faia, jazia um velho pilar de granito, tombado e musgoso. Ali vieram sentar-se Rui e Rostabal, com os seus tremendos espadões ' entre os joelhos. As duas éguas tosavam a boa erva pintalgada de papoulas e botões-de-ouro. Pela ramaria andava um melro a assobiar. Um cheiro errante de violetas adoçava o ar luminoso. E Rostabal, olhando o Sol, bocejava com fome.
Então Rui, que tirara o sombrero e lhe cofiava as velhas plumas roxas, começou a considerar, na sua fala avisada e mansa, que Guanes, nessa manhã, não quisera descer com eles à mata de Roquelanes. E assim era a sorte ruim! Pois que só se Guanes tivesse quedado em Medranhos, só eles dois teriam descoberto o cofre, e só entre eles dois se dividiria o ouro! Grande pena! Tanto mais que a parte de Guanes seria em breve dissipada com rufiões, aos dados, pelas tavernas. 
-    Ah! Rostabal, Rostabal! Se Guanes, passando aqui sozinho, tivesse achado este ouro, não dividia connosco, Rostabal!
O outro rosnou surdamente e com furor, dando um puxão às barbas negras:
-    Não, mil raios! Guanes é sôfrego... Quando o ano passado, se te lembras, ganhou os cem ducados ao espadeiro de Fresno, nem me quis emprestar três para eu comprar um gibão novo!
-    Vês tu? - gritou Rui resplandecendo.
Ambos se tinham erguido do pilar de granito, como levados pela mesma ideia, que os deslumbrava. E, através das suas largas passadas, as ervas altas silvavam.
-    E para quê - prosseguia Rui. - Para que lhe serve todo o ouro que nos leva? Tu não o ouves de noite, como tosse? Ao redor da palha em que dorme, todo o chão está negro do sangue que escarra! Não dura até às outras neves, Rostabal! Mas até lá terá dissipado os bons dobrões que deviam ser nossos, para levantarmos a nossa casa, e para tu teres ginetes, e armas, e trajes nobres, e o teu terço de solarengos como compete a quem é, como tu, o mais velho dos de Medranhos...
-    Pois que morra, e morra hoje! - bradou Rostabal.
-    Queres?
Vivamente, Rui agarrara o braço do irmão e apontava para a vereda de olmos, por onde Guanes partira cantando:
-    Logo adiante, ao fim do trilho, há um sítio bom, nos silvados. E hás-de ser tu Rostabal, que és o mais forte e o mais destro. Um golpe de ponta pelas costas. E é justiça de Deus que sejas tu, que muitas vezes, nas tavernas, sem pudor, Guanes te tratava de "cerdo" e de "torpe", por não saberes a letra nem os números.
- Malvado!
- Vem!
Foram. Ambos se emboscaram por trás de um silvado que dominava o atalho estreito e pedregoso como um leito 120 de torrente. Rostabal, assolapado na vala, tinha já a espada nua. Um vento leve arrepiou na encosta as folhas dos álamos - e sentiram o repique leve dos sinos de Retortilho. Rui, coçando a barba, calculava as horas pelo Sol, que já se inclinava para as serras. Um bando de corvos passou sobre eles grasnando. E Rostabal, que lhes seguira o voo, recomeçou a bocejar, com fome, pensando nos empadões e no vinho que o outro trazia nos alforges.
Enfim! Alerta! Era, na vereda, a cantiga dolente e rouca atirada aos ramos.
Olé! Olé!
Sale la cruz de la iglesa,
Toda vestida de negro...
Rui murmurou: - Na ilharga! Mal que passe! - O chouto da égua bateu o cascalho, uma pluma num sombrero vermelhejou por sobre a ponta das silvas.
Rostabal rompeu de entre a sarça por uma brecha, atirou o braço, a longa espada - e toda a lâmina se embebeu molemente na ilharga de Guanes, quando, ao rumor, bruscamente, ele se virara na sela. Com um surdo arranco, tombou de lado sobre as pedras. Já Rui se arremessava aos freios da égua - Rostabal, caindo sobre Guanes, que arquejava, de novo lhe mergulhou a espada, agarrada pela folha como um punhal, no peito e na garganta.
- A chave! - gritou Rui.
E, arrancada a chave do cofre ao seio do morto, ambos largaram pela vereda - Rostabal adiante, fugindo, com a pluma do sombrero quebrada e torta, a espada ainda nua entalada sob o braço, todo encolhido, arrepiado com o sabor do sangue que lhe espirrara para a boca: Rui, atrás, puxava desesperadamente os freios da égua, que, de patas fincadas no chão pedregoso, arreganhando a longa dentuça amarela, não queria deixar o seu amo assim estirado, abandonado, ao comprido das sebes.
Teve de lhe espicaçar as ancas lazarentas com a ponta da espada - e foi correndo sobre ela, de lâmina alta, como se perseguisse um mouro, que desembocou na clareira onde o sol já não dourava as folhas. Rostabal arremessara para a relva o sombrero e a espada; e, debruçado sobre a laje escavada em tanque, de mangas arregaçadas, lavava ruidosamente a face e as barbas.
A égua, quieta, recomeçou a pastar, carregada com os alforges novos que Guanes comprara em Retortilho. Do mais largo, abarrotado, surdiam dois gargalos de garrafas. Então Rui tirou, lentamente, do cinto a sua larga navalha. Sem um rumor na relva espessa, deslizou até Rostabal, que resfolegava, com as longas barbas pingando. E, serenamente, como se pregasse uma estaca num canteiro, enterrou a folha toda no largo dorso dobrado, certeira sobre o coração.
Rostabal caiu sobre o tanque, sem um gemido, com a face na água, os longos cabelos flutuando na água. A sua velha escarcela de couro ficara entalada sob a coxa. Para tirar de dentro a terceira chave do cofre, Rui solevou o corpo - e um sangue mais grosso jorrou, escorreu pela borda do tanque, fumegando.


III

Agora eram dele, só dele, as três chaves do cofre!... E Rui, alargando os braços, respirou deliciosamente. Mal a noite descesse, com o ouro metido nos alforges, guiando a fila das éguas pelos trilhos da serra, subiria a Medranhos e enterraria na adega o seu tesouro! E, quando ali na fonte, e além rente aos silvados, só restassem, sob as neves de Dezembro, alguns ossos sem nome, ele seria o magnífico senhor de Medranhos, e na capela nova do solar renascido mandaria dizer missas ricas pelos seus dois irmãos mortos... Mortos como? Como devem morrer os de Medranhos - a pelejar contra o Turco! Abriu as três fechaduras, apanhou um punhado de dobrões, que fez retinir sobre as pedras. Que puro ouro de fino quilate! E era o seu ouro! Depois foi examinar a capacidade dos alforges - e, encontrando as duas garrafas de vinho e um gordo capão assado, sentiu uma imensa fome. Desde a véspera só comera uma lasca de peixe seco. E há quanto tempo não provava capão!
Com que delícia se sentou na relva, com as pernas abertas, e entre elas a ave loura, que rescendia, e o vinho cor de âmbar! Ah! Guanes fora bom mordomo - nem esquecera azeitonas. Mas porque trouxera ele, para três convivas, só duas garrafas? Rasgou uma asa do capão: devorava a grandes dentadas. A tarde descia, pensativa e doce, com nuven- zinhas cor-de-rosa. Para além, na vereda, um bando de corvos grasnava. As éguas fartas dormitavam, com o focinho pendido, zoo E a fonte cantava, lavando o morto.
Rui ergueu à luz a garrafa de vinho. Com aquela cor velha e quente, não teria custado menos de três maravedis. E, pondo o gargalo à boca, bebeu em sorvos lentos, que lhe faziam ondular o pescoço peludo. Oh vinho bendito, que tão prontamente aquecia o sangue! Atirou a garrafa vazia - destapou outra. Mas, como era avisado, não bebeu, porque a jornada para a serra, como o tesouro, requeria firmeza e acerto. Estendido sobre o cotovelo, descansando, pensava em Medranhos coberto de telha nova, nas altas chamas da lareira por noites de neve e no seu leito com brocados, onde teria sempre mulheres.
De repente, tomado de uma ansiedade, teve pressa de carregar os alforges. Já entre os troncos a sombra se adensava. Puxou uma das éguas para junto do cofre, ergueu a tampa, tomou um punhado de ouro... Mas oscilou, largando os dobrões que retinlintaram no chão, e levou as duas mãos aflitas ao peito. Que é, D. Rui? Raios de Deus! Era um lume, um lume vivo, que se lhe acendera dentro, lhe subia até às goelas. Já rasgara o gibão, atirava os passos incertos, e, a arquejar, com a língua pendente, limpava as grossas bagas de um suor horrendo que o regelava como neve. Oh, Virgem Mãe! Outra vez o lume, mais forte, que alastrava, o roía! Gritou:
- Socorro! Alguém! Guanes! Rostabal! Os seus braços torcidos batiam o ar desesperadamente. E
a chama dentro galgava - sentia os ossos a estalarem como as traves de uma casa em fogo.
Cambaleou até à fonte para apagar aquela labareda, tropeçou sobre Rostabal: e foi com o joelho fincado no morto, arranhando a rocha, que ele, entre uivos, procurava o fio de água, que recebia sobre os olhos, pelos cabelos. Mas a água mais o queimava, como se fosse um metal derretido. Recuou, caiu para cima da relva, que arrancava aos punhados e que mordia, mordendo os dedos, para lhe sugar a frescura. Ainda se ergueu, com uma baba densa a escorrer-lhe nas barbas; e, de repente, esbugalhando pavorosamente os olhos, berrou como se compreendesse enfim a traição, todo o horror:
- É veneno!
Oh! D. Rui, o avisado, era veneno! Porque Guanes, apenas chegara a Retortilho, mesmo antes de comprar os alforges, correra cantando a uma viela, por detrás da catedral, a comprar ao velho droguista judeu o veneno que, misturado ao vinho, o tornaria a ele, a ele somente, dono de todo o tesouro.
 Anoiteceu. Dois corvos, de entre o bando que grasnava além nos silvados, já tinham pousado sobre o corpo de Guanes. A fonte, cantando, lavava o outro morto. Meio enterrada na erva negra, toda a face de Rui se tornara negra. Uma estrelinha tremeluzia no céu.
O tesouro ainda lá está, na mata de Roquelanes.

Eça de Queirós, "O Tesouro", in Contos, «Collecção Mundo das Letras», Porto Editora

sexta-feira, 23 de março de 2012

421. O Vagabundo na Esplanada

por Manuel da Fonseca


 A surpresa, de mistura com um indefinido receio e o imediato desejo de mais acautelada perspectiva de observação, levava os transeuntes a afastarem-se de esguelha para os lados do passeio.
Pela clareira que se abria, o vagabundo, de mãos nos bolsos das calças, vinha, despreocupadamente, avenida abaixo.
Cerca de cinquenta anos, atarracado, magro, tudo nele era limpo, mas velho e cheio de remendos. Sobre a esburacada camisola interior, o casaco, puído nos cotovelos e demasiado grande, caía-lhe dos ombros em largas pregas, que ondulavam atrás das costas ao ritmo lento da passada. Desfiadas nos joelhos, muito curtas, as calças deixavam à mostra as canelas, nuas, finas de osso e nervo, saídas como duas ripas dos sapatos cambados. Caído para a nuca, copa achatada, aba às ondas, o chapéu semelhava uma auréola alvacenta.
Apesar de tudo isso, o rosto largo e anguloso do homem, de onde os olhos azuis-claros irradiavam como que um sorriso de luminosa ironia e compreensivo perdão, erguia-se, intacto e distante, numa serena dignidade.
Era assim, ao que se via, o seu natural comportamento de caminhar pela cidade.
Alheado, mas condescendente, seguia pelo centro do passeio com a distraída segurança de um milionário que obviamente se está nas tintas para quem passa. Não só por educação mas também pelo simples motivo de ter mais e melhor em que pensar, o que não sucedia aos transeuntes, os quais, incrédulos ao primeiro relance, se desviavam, oblíquos, da deambulante causa do seu espanto. E, à vista do que lhes parecia um homem livre de sujeições, senhor de si próprio em qualquer circunstância e lugar, logo, por contraste, lhes ocorriam todos os problemas, todos os compadrios, todas as obrigações que os enrodilhavam. E sempre submersos de prepotências, sempre humilhados e sempre a fingir que nada disso lhes acontecia.
Num instante, embora se desconhecessem, aliava-os a unânime má vontade contra quem tão vincadamente os afrontava em plena rua. Pronta, a vingança surgia. Falavam dos sapatos cambados, do fato de remendos, do ridículo chapéu. Consolava-os imaginar os frios, as chuvas e as fomes que o homem havia de sofrer. No entanto, alguém disse:
- Devia ser proibido que indivíduos destes andassem pela cidade.
E assim, resmungando, se dispersavam, cada um às suas obrigações, aos seus problemas.
Sem dar por tal, o homem seguia adiante.
Junto dos Restauradores, a esplanada atraiu-lhe a atenção. De cabeça inclinada para trás, pálpebras baixas, catou pelos bolsos umas tantas moedas, que pôs na palma da mão.
Com o dedo esticado, separou-as, contando-as conscienciosamente. Aguardou o sinal de passagem, e saiu da sombra dos prédios para o sol da tarde quente de Verão.
A meio da esplanada havia uma mesa livre. Com o à-vontade de um frequentador habitual, o homem sentou-se. Após acomodar-se o melhor que o feitio da cadeira de ferro consentia, tirou os pés dos sapatos, espalmou-os contra a frescura do empedrado, sob o toldo. As rugas abriram-lhe no rosto curtido pelas soalheiras um sorriso de bem-estar.
Mas o fato e os modos da sua chegada haviam despertado nos ocupantes da esplanada, mulheres e homens, uma turbulência de expressões desaprovadoras. Ao desassossego de semelhante atrevimento sucedera a indignação.
Ausente, o homem entregava-se ao prazer de refrescar os pés cansados, quando um inesperado golpe de vento ergueu do chão a folha inteira de um jornal, e enrolou-lha nas canelas. O homem apanhou-a, abriu-a. Estendeu as pernas, cruzou um pé sobre o outro. Céptico, mas curioso, pôs-se a ler. só O facto, de si tão discreto, pareceu constituir a máxima ofensa para os presentes. Franzidos, empertigaram-se, circunvagando os olhos, como se gritassem: «Pois não há um empregado que venha expulsar daqui este tipo!» Nas caras, descompostas pelo desorbitado melindre, havia o que quer que fosse de recalcada, hedionda raiva contra o homem mal vestido e tranquilo, que lia o jornal na esplanada. Um rapaz aproximou-se. Casaco branco, bandeja sob o braço, muito senhor do seu dever. Mas, ao reparar no rosto do homem, tartamudeou:
-    Não pode...
E calou-se. O homem olhava-o com atenta benevolência.
-    Disse?
- É reservado o direito de admissão - tornou o rapaz, hesitando. - Está além escrito.
Depois de ler o dístico, o homem, com a placidez de quem, por mera distracção, se dispõe a aprender mais um dos confusos costumes da cidade, perguntou:
-    Que direito vem a ser esse?
-    Bem... - volveu o empregado. - A gerência não admite... Não podem vir aqui certas pessoas.
- E é a mim que vem dizer isso?
O homem estava deveras surpreendido. Encolhendo os ombros, como quem se presta a um sacrifício, deu uma mirada pelas caras dos circunstantes. O azul-claro dos olhos em-baciou-se-lhe.
- Talvez que a gerência tenha razão - concluiu ele, em tom baixo e magoado. - Aqui para nós, também me não parecem lá grande coisa. O empregado nem podia falar.
Conciliador, já a preparar-se para continuar a leitura do jornal, o homem colocou as moedas sobre a mesa, e pediu, delicadamente:
- Traga-me uma cerveja fresca, se faz favor. E diga à gerência que os deixe ficar. Por mim, não me importo.

Manuel da Fonseca, «O Vagabundo na Esplanada», Tempo de Solidão, 3.a ed., Lisboa, Caminho, 1988


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

389. Tentação

por Clarice Lispector

Ela estava com soluço. E como se não bastasse a claridade das duas horas, ela era ruiva.
   Na rua vazia as pedras vibravam de calor - a cabeça da menina flamejava. Sentada nos degraus de sua casa, ela suportava. Ninguém na rua, só uma pessoa esperando inutilmente no ponto do bonde. E como se não bastasse seu olhar submisso e paciente, o soluço a interrompia de momento a momento, abalando o queixo que se apoiava conformado na mão. Que fazer de uma menina ruiva com soluço? Olhamo-nos sem palavras, desalento contra desalento. Na rua deserta nenhum sinal de bonde. Numa terra de morenos, ser ruivo era uma revolta involuntária. Que importava se num dia futuro sua marca ia fazê-la erguer insolente uma cabeça de mulher? Por enquanto ela estava sentada num degrau faiscante da porta, às duas horas. O que a salvava era uma bolsa velha de senhora, com alça partida. Segurava-a com um amor conjugal já habituado, apertando-a contra os joelhos.
   Foi quando se aproximou a sua outra metade neste mundo, um irmão em Grajaú. A possibilidade de comunicação surgiu no ângulo quente da esquina, acompanhando uma senhora, e encarnada na figura de um cão. Era um basset lindo e miserável, doce sob a sua fatalidade. Era um basset ruivo.
   Lá vinha ele trotando, à frente de sua dona, arrastando seu comprimento. Desprevenido, acostumado, cachorro.
   A menina abriu os olhos pasmada. Suavemente avisado, o cachorro estacou diante dela. Sua língua vibrava. Ambos se olhavam.
    Entre tantos seres que estão prontos para se tornarem donos de outro ser, lá estava a menina que viera ao mundo para ter aquele cachorro. Ele fremia suavemente, sem latir. Ela olhava-o sob os cabelos, fascinada, séria. Quanto tempo se passava? Um grande soluço sacudiu-a desafinado. Ele nem sequer tremeu. Também ela passou por cima do soluço e continuou a fitá-lo.
    Os pêlos de ambos eram curtos, vermelhos.
   Que foi que se disseram? Não se sabe. Sabe-se apenas que se comunicaram rapidamente, pois não havia tempo. Sabe-se também que sem falar eles se pediam. Pediam-se com urgência, com encabulamento, surpreendidos.
   No meio de tanta vaga impossibilidade e de tanto sol, ali estava a solução para a criança vermelha. E no meio de tantas ruas a serem trotadas, de tantos cães maiores, de tantos esgotos secos - lá estava uma menina, como se fora carne de sua ruiva carne. Eles se fitavam profundos, entregues, ausentes de Grajaú. Mais um instante e o suspenso sonho se quebraria, cedendo talvez à gravidade com que se pediam.
   Mas ambos eram comprometidos.
   Ela com sua infância impossível, o centro da inocência que só se abriria quando ela fosse uma mulher. Ele, com sua natureza aprisionada.
   A dona esperava impaciente sob o guarda-sol. O basset ruivo afinal despregou-se da menina e saiu sonâmbulo. Ela ficou espantada, com o acontecimento nas mãos, numa mudez que nem pai nem mãe compreenderiam. Acompanhou-o com olhos pretos que mal acreditavam, debruçada sobre a bolsa e os joelhos, até vê-la dobrar a outra esquina.
   Mas ele foi mais forte que ela. Nem uma só vez olhou para trás

Clarice Lispector, A legião estrangeira. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

domingo, 22 de janeiro de 2012

320. A Palavra Mágica

por Vergílio Ferreira

Nunca o Silvestre tinha tido uma pega com ninguém. Se às vezes guerreava, com palavras azedas para cá e para lá, era apenas com os fundos da própria consciência. Viúvo, sem filhos, dono de umas leiras herdadas, o que mais parecia inquietá-lo era a maneira de alijar bem depressa o dinheiro das rendas. Semeava tão facilmente as economias, que ninguém via naquilo um sintoma de pena ou de justiça — mesmo da velha —, mas apenas um desejo urgente de comodidade. Dar aliviava. Pregavam-lhe que o Paulino ia logo de casa dele derretê-lo em vinho, que o Carmelo não comprava nada, livros ou cadernos ao filho, que andava na instrução primária. As moedas rolavam-lhe para dentro da algibeira e com o mesmo impulso fatal rolavam para fora, deixando-lhe, no sítio, a paz.
Ora um domingo, o Silvestre ensarilhou-se, sem querer, numa disputa colérica com o Ramos da loja. Fora o caso que ao falar-lhe, no correr da conversa, em trabalhadores e salários, Silvestre deixou cair que, no seu entender, dada a carestia da vida, o trabalho de um homem de enxada não era de forma alguma bem pago. Mas disse-o sem um desejo de discórdia, facilmente, abertamente, com a mesma fatalidade clara de quem inspira e expira. Todavia, o Ramos, ferido de espora, atacou de cabeça baixa:
— Que autoridade tem você para falar? Quem lhe encomendou o sermão?
— Homem! — clama o Silvestre, de mão pacífica no ar. — Calma aí, se faz favor. Falei por falar.
— E a dar-lhe. Burro sou eu em ligar-lhe importância. Sabe lá você o que é a vida, sabe lá nada. Não tem filhos em casa, não tem quebreiras de cabeça. Assim, também eu.
— Faço o que posso — desabafou o outro.
— E eu a ligar-lhe. Realmente você é um pobre diabo, Silvestre. Quem é parvo é quem o ouve. Você é um bom, afinal. Anda no mundo por ver andar os outros. Quem é você, Silvestre amigo? Um inócuo, no fim de contas. Um inócuo é o que você é.
Silvestre já se dispusera a ouvir tudo com resignação. Mas, à palavra “inócuo”, estranha ao seu ouvido montanhês, tremeu. E à cautela, não o codilhassem por parvo, disse:
— «inoque» será você.
Também o Ramos não via o fundo ao significado de inócuo. Topara por acaso a palavra, num diálogo aceso de folhetim, e gostara logo dela, por aquele sabor redondo a moca grossa de ferros, cravada de puas. Dois homens que assistiam ao barulho partiram logo dali, com o vocábulo ainda quente da refrega, a comunicá-lo à freguesia:
— Chamou-lhe tudo, o patife. Só porque o pobre entendia que a jorna de um homem é fraca. Que era um paz-de-alma. E um «inoque».
— Que é isso de «inoque»?
— Coisa boa não é. Queria ele dizer na sua que o Silvestre não trabalhava, que era um lombeiro, um vadio.
Como nesse dia, que era domingo, Paulino entrara em casa com a bebedeira do seu descanso, a mulher praguejou, como estava previsto, e cobriu o homem de insultos como não estava inteiramente previsto:
— Seu bêbado ordinário. Seu «inoque» reles.
Quando a palavra caiu da boca da mulher, vinha já tinta de carrascão. E desde aí, «inoque» significou, como é de ver, vadio e bêbado.
Ora tempos depois apareceu na aldeia um sujeito de gabardina, a vender drogas para todas as moléstias dos pobres. Pedra de queimar carbúnculos, unguentos de encoirar, solda para costelas quebradas. Vendeu todo o sortido. Mas logo às primeiras experiências, as drogas falharam. Houve pois necessidade de marcar a ferro aquela roubalheira de gabardina e unhas polidas. E como o vocabulário dos pobres era curto, alguém se lembrou da palavra milagrosa do Ramos. Pelo que, «inoque» significou trampolineiro ou ladrão dos finos. Mas como havia ainda os ladrões dos “grossos”, não foi difícil meter dentro da palavra mais um veneno.
Como, porém, as desgraças e a cólera do povo pediam cada dia termos novos para se exprimirem, “inócuo” foi inchando de mais significações. Quando a Rainha deu um tiro de caçadeira, num dia de arraial, ao homem da amante, chamaram-lhe, evidentemente, «inoque», por ser um devasso e um assassino de caçadeira. Daí que fosse fácil meter também no «inoque» o assassino de faca e a cróia de porta aberta.
“Inócuo” dera a volta à aldeia, secara todo o fel das discórdias, escoara todo o ódio da população. A moca grossa de ferro, seteada de puas, era agora uma arma terrível, quase desleal, que só se usava quando se tinha despejado já toda a cartucheira de insultos. Até que o Perdigão dos Cabritos entrou pela ponte norte da aldeia, com o cavalo carregado de reses, num dia de feira, e se azedou com o taberneiro, quando trocava um borrego por vinho. De olhos chamejantes, perdido, já no quente da refrega, o taberneiro atirou-lhe o verbo da maldição. Houve quem achasse desmedida a vingança do homem. Perdigão arriou:
— «Inoque» será você.
Também ele não sabia que veneno tinham despejado na palavra, mas, pelo sim pelo não, aliviou. E pela tarde, enfardelou o termo infame com as peles da matança, e abalou com ele pela ponte sul. Longos meses a palavra maldita andou por lá a descarregar o ódio das gentes. Até que um dia voltou a entrar na aldeia, não já pela ponte sul que dava para a Vila, mas pela ponte norte que levava a terras sem nome. Vinha em farrapos, na boca de um caldeireiro, mais estropiada, coberta da baba de todos os rancores e de todos os crimes. Quando deitava um pingo num caneco de folha, o caldeireiro pegou-se de razões com o freguês. O dono do caneco correu uma mão amiga pelas costas do vagabundo:
— Lá ver isso, velhinho. O combinado foram cinco tostões.
— Não me faça festas que eu não sou mulher, seu «inoque» reles.
E “inócuo” significou um nome feio para um homem. Então o ajudante, ou o que era, do caldeireiro, tentou deitar água na fogueira.
— Cale-se também você, seu «inoque» ordinário. A mim não me mata você à fome como fez a seu pai.
Porque “inócuo” também queria dizer parricida. Então o Ramos, que passava perto, tomou a palavra excomungada nas mãos e pediu ao velho que a abrisse, para ver tudo o que já lá tinha dentro. Um cheiro pútrido a fezes, a pus, a vinagre, alastrou pelo espanto de todos em redor. Com os dedos da memória, o caldeireiro foi tirando do ventre do vocábulo restos de velhos significados, maldições, ódios, desesperos. “Inócuo” era “bêbado”, ‘ladrão”, “incendiário’, ‘pederasta’, e, uma que outra vez, um desabafo ligeiro como “poça” ou “bolas”. Para o calão da gente fina, que topara a palavra na cozinha, nos trabalhos do campo, soube-se um dia que significava ainda 'escroque', «souteneur», e mais.
A aldeia em peso tremeu. Era possível a qualquer apanhar com o palavrão na cara e ficar coberto de peste. Eis porém que uma vez o filho do Gomes, que andava no colégio da Vila, insultado de «inoque» por um colega, numa partida de bilhar, lembrou-se à noite de ver no dicionário a fundura vernácula da ofensa. Procurou «inoque». Não vinha. Procurou «noque». Também não vinha. Furioso, buscou à toa, «quinoque», «moque», «soque». Nada. Quando a mãe o procurou, para ver se estudava, encontrou-o às marradas no dicionário. Choroso, o rapaz declarou:
— O meu «pagnon» chamou-me «inoque», mãe. Queria saber o que era. Mas não vem no dicionário.
— Não vejas! — clamou a mulher, de braços no ar. — Deixa lá! Não te importes.
— Mas que quer dizer?
— Coisas ruins, meu filho. Herege, homem sem religião e mais coisas más. Não vejas!
Começaram então a aparecer as primeiras queixas no tribunal da Vila, contra a injúria de «noque», «inoque» e, finalmente, de “inócuo”, consoante a instrução de cada um. Como a palavra estropiada era um termo bárbaro nos seus ouvidos cultos, o juiz pedia a versão da injúria em linguagem correcta, sendo essa versão que instruía os autos.
— Chamou-me «noque».
— Absolutamente. Mas que queria ele dizer na sua?
— Pois queria dizer que eu era ladrão.
E escrevia-se “ladrão”. Pelo mesmo motivo, gravava-se a ofensa, de outras vezes, nos termos de “assassino”, “devasso”, ou “bêbedo”.
Ora um dia foi o próprio Bernardino da Fábrica que moveu um processo ao guarda-livros pela injúria de «inócuo». Metida a questão nos trilhos legais, o Bernardino procurou o juiz, para ver se podia ajustar, previamente, uma bordoada firme no agressor. Mas aí, o juiz atirou uma palmada à coxa curta, clamou:
— Homem! Agora entendo eu. «Noque» era ‘inócuo’!
E admitindo que o vocábulo contivesse um veneno insuspeito, pegou num dicionário recente, o último modelo de ortografia e significados. Então pasmou de assombro, perante o escuro mistério que carregara de pólvora o termo mais benigno da língua: “inocuo’ significa apenas «que não faz dano, inofensivo”. E pôs o dicionário aberto diante da ofensa de Bernardino. O industrial carregou a luneta, e longo tempo, colérico, exigiu do livro insultos que lá não estavam.
— Nada feito — repetia o juiz. — O homem chamou-lhe, correctamente, “pessoa incapaz de fazer mal a alguém”.
— Mas há a intenção — opôs o advogado, mais tarde, quando se voltou ao assunto. — Há o sentido que toda a gente liga à palavra.
— Nada feito — insistia o juiz. — “Inócuo” é ‘inofensivo’ até nova ordem.
Então o advogado desabafou. Também ele sabia, como toda a gente culta, que “inócuo” era um pobre diabo dum termo que não fazia mal a ninguém. Sabia-o, com um saber analítico, desde as aulas de Latim do seu Padre Mestre. Mas não ignorava também que o ódio humano nem sempre conseguia razões para se justificar. E nesse caso, qualquer palavra, mesmo inofensiva, era um pendão desfraldado no pau alto da vingança. Bernardino fora ofendido. Mas podia querer amanhã ofender e as razões serem curtas para o seu rancor. Uma palavra informe, soprada de todos os furores, seria então a melhor arma. Despir o mastro da bandeira seria desnudar-se na dureza bárbara do pau. ‘Inócuo’ era uma maravilha para a última defesa da racionalidade humana, pelos ocos esconderijos onde podiam ocultar-se todos os rancores e maldições. “Inócuo” era um benefício social. Não havia que emendar-se a vida pelo dicionário. Havia que forçar-se o dicionário a meter a vida na pele.
— Cultive-se o “inócuo”. Salvemo-lo, para nos salvarmos.
Desgraçadamente, porém, os receios do advogado eram vãos. A vida, de facto, emendara o dicionário. Como bola de neve, “inócuo” rolara do ódio alto dos homens e longo tempo levaria a derreter o calor da compreensão e da justiça. Foi assim que o filho do Gomes, depois de ter encontrado a correspondência vernácula da injúria do «pagnon», tentou reabilitar a palavra excomungada. Esbaforido, foi com o dicionário aberto no sítio maldito, da mãe para o pai, do pai para os amigos. Mas ninguém o entendeu. «Noque» ou “inócuo” era um anátema verde de pus.
— Que importa o que dizem? — clamou o heroísmo do rapaz. — Podem chamar-me «inoque» ou “inócuo”, que não ligo. Agora sei o que quer dizer.
Dias depois, porém, um colega precisou de o insultar, e arremessou-lhe outra vez com o termo nefando. Toda a gente conhecia já a opinião do dicionário. Mas o furor era sempre mais forte do que o simples livro impresso.
Pelo que, nessa noite, o filho do Gomes não dormiu, preocupado apenas com descobrir uma maneira profícua de sovar bem o colega, para desforra integral.

Fonte: Vergílio Ferreira, Contos