Antigamente escrevia poemas compridos Hoje tenho quatro palavras para fazer um poema São elas: desalento prostração desolação desânimo E ainda me esquecia de uma: desistência Ocorreu-me antes do fecho do poema e em parte resume o que penso da vida passado o dia oito de cada mês Destas cinco palavras me rodeio e delas vem a música precisa para continuar. Recapitulo: desistência desalento prostração desolação desânimo antigamente quando os deuses eram grandes eu sempre dispunha de muitos versos Hoje só tenho cinco palavras cinco pedrinhas
Quando mulheres de pestanas longas (continuou o senhor Breton), e homens de coração saltitante dizem que a poesia é o seu alimento, vê-se bem que nunca passaram fome. Mas isto seria outra conversa. Não falemos do fundamental, falemos de poesia.
E na poesia há um outro lado desta questão que é o seguinte: um verso não tem currículo. Isto é: parece-me que um verso, quando é forte e bom, vem sem mais nada atrás, sem percurso; surge do zero. É muito e grande durante o instante em que existe nos nossos olhos e na nossa cabeça, e depois desaparece.
Um poema não é uma coisa que se coloca sobre o teu dia como
um condimento sobre o teu almoço. A vida de uma pessoa não tem material
semelhante a nada que conheças. Existir é feito de peças impossíveis de copiar.
E a poesia não entra nesse material único - a vida de uma pessoa - como o avião
no ar ou o acidente do avião na terra dura. Um poema não é manso nem meigo, não
é mau nem ilegal.
Os homens não se medem pelos poemas que leram, mas talvez
fosse melhor. O que é a fita métrica comparada com algo intenso? Há poemas que
explicam trinta graus de uma vida e poemas que são um ofício de demolição
completa: o edifício é trocado por outro, como se um edifício fosse uma camisa.
Muda de vida ou, claro, muda de poema.
Gastei uma hora pensando um verso que a pena não quer escrever. No entanto, ele está cá dentro inquieto, vivo. Ele está cá dentro e não quer sair. Mas a poesia deste momento inunda minha vida inteira.
Deixa a mão caminhar perder o alento até onde se não respira. Deixa a mão errar sobre a cintura apenas conivente com nácar da língua. Só um grito desde o chão pode fulminá-la. A morte não é um segredo não é em nós um jardim de areia. De noite no silêncio baço dos espelhos um homem pode trazer a morte pela mão. Vou ensinar-te como se reconhece repara é ainda um rapaz não acaba de crescer nos ombros a luz desatada a fulva lucidez dos flancos. A boca sobre a boca nevava.
Creio que foi o sorriso, 0 sorriso foi quem abriu a porta. Era um sorriso com muita luz lá dentro, apetecia entrar nele, tirar a roupa, ficar nu dentro daquele sorriso. Correr, navegar, morrer naquele sorriso.
As pessoas sensíveis não são capazes De matar galinhas Porém são capazes De comer galinhas
O dinheiro cheira a pobre e cheira À roupa do seu corpo Aquela roupa Que depois da chuva secou sobre o corpo Porque não tinham outra O dinheiro cheira a pobre e cheira A roupa Que depois do suor não foi lavada Porque não tinham outra
"Ganharás o pão com o suor do teu rosto" Assim nos foi imposto E não: "Com o suor dos outros ganharás o pão."
Ó vendilhões do templo Ó construtores Das grandes estátuas balofas e pesadas Ó cheios de devoção e de proveito
Perdoai-lhes Senhor Porque eles sabem o que fazem.
Assim como do fundo da música brota uma nota que enquanto vibra cresce e se adelgaça até que noutra música emudece, brota do fundo do silêncio outro silêncio, aguda torre, espada, e sobe e cresce e nos suspende e enquanto sobe caem recordações, esperanças, as pequenas mentiras e as grandes, e queremos gritar e na garganta o grito se desvanece: desembocamos no silêncio onde os silêncios emudecem.
Octavio Paz, Liberdade sob Palavra Tradução de Luis Pignatelli
Así como del fondo de la música brota una nota que mientras vibra crece y se adelgaza hasta que en otra música enmudece, brota del fondo del silencio otro silencio, aguda torre, espada, y sube y crece y nos suspende y mientras sube caen recuerdos, esperanzas, las pequeñas mentiras y las grandes, y queremos gritar y en la garganta se desvanece el grito: desembocamos al silencio en donde los silencios enmudecen. _
Um beijo em lábios é que se demora e tremem no abrir-se a dentes línguas tão penetrantes quanto línguas podem. Mais beijo é mais. É boca aberta hiante para de encher-se ao que se mova nela. É dentes se apertando delicados. É língua que na boca se agitando irá de um corpo inteiro descobrir o gosto e sobretudo o que se oculta em sombras e nos recantos em cabelos vive. É beijo tudo o que de lábios seja quanto de lábios se deseja.
Esta tarde a trovoada caiu Pelas encostas do céu abaixo Como um pedregulho enorme... Como alguém que duma janela alta Sacode uma toalha de mesa, E as migalhas, por caírem todas juntas, Fazem algum barulho ao cair, A chuva chovia do céu E enegreceu os caminhos ... Quando os relâmpagos sacudiam o ar E abanavam o espaço Como uma grande cabeça que diz que não, Não sei porquê — eu não tinha medo — pus-me a rezar a Santa Bárbara Como se eu fosse a velha tia de alguém... Ah! é que rezando a Santa Bárbara Eu sentia-me ainda mais simples Do que julgo que sou... Sentia-me familiar e caseiro E tendo passado a vida Tranqüilamente, como o muro do quintal; Tendo idéias e sentimentos por os ter Como uma flor tem perfume e cor...
Sentia-me alguém que nossa acreditar em Santa Bárbara... Ah, poder crer em Santa Bárbara!
(Quem crê que há Santa Bárbara, Julgará que ela é gente e visível Ou que julgará dela?)
(Que artifício! Que sabem As flores, as árvores, os rebanhos, De Santa Bárbara?...
Um ramo de árvore, Se pensasse, nunca podia Construir santos nem anjos... Poderia julgar que o sol É Deus, e que a trovoada É uma quantidade de gente Zangada por cima de nós ... Ali, como os mais simples dos homens São doentes e confusos e estúpidos Ao pé da clara simplicidade E saúde em existir Das árvores e das plantas!)
E eu, pensando em tudo isto, Fiquei outra vez menos feliz... Fiquei sombrio e adoecido e soturno Como um dia em que todo o dia a trovoada ameaça E nem sequer de noite chega.