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domingo, 4 de novembro de 2012

709. Contei meus anos e descobri

Contei meus anos e descobri
Que terei menos tempo para viver do que já tive até agora….
Tenho muito mais passado do que futuro…
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de jabuticabas…
As primeiras, ele chupou displicentemente...
Mas, percebendo que faltam poucas, rói o caroço…

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades…
Inquieto-me com os invejosos tentando destruir quem eles admiram.
Cobiçando seus lugares, talento e sorte…..
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas
As pessoas não debatem conteúdo, apenas rótulos…
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos…
Quero a essência…. Minha alma tem pressa….
Sem muitas jabuticabas na bacia
Quero viver ao lado de gente humana…muito humana…
Que não foge de sua mortalidade.
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade….

Rubem Alves.

708. O tempo passa? Não passa

Foto: Relogio Florido - Jardim Inglês em Genebra (suiça)

O tempo passa? Não passa
no abismo do coração.
Lá dentro, perdura a graça
do amor, florindo em canção.

O tempo nos aproxima
 cada vez mais, nos reduz
 a um só verso e uma rima
 de mãos e olhos, na luz.

Não há tempo consumido
 nem tempo a economizar.
O tempo é todo vestido
de amor e tempo de amar.

O meu tempo e o teu, amada,
 transcendem qualquer medida.
Além do amor, não há nada,
amar é o sumo da vida.

São mitos de calendário
tanto o ontem como o agora,
e o teu aniversário
é um nascer toda a hora.

E nosso amor, que brotou
 do tempo, não tem idade,
 pois só quem ama
 escutou o apelo da eternidade.

Carlos Drummond de Andrade, iAmar se Aprende Amando

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

692. Agora É

Agora é diferente
Tenho o teu nome o teu cheiro
A minha roupa de repente
ficou com o teu cheiro

Agora estamos misturados
No meio de nós já não cabe o amor
Já não arranjamos
lugar para o amor

Já não arranjamos vagar
para o amor agora
isto vai devagar
isto agora demora

Manuel António Pina, Poesia Reunida

domingo, 17 de junho de 2012

589. O Tempo Vale Muito Mais do que o Dinheiro

Perder tempo não é como gastar dinheiro. Se o tempo fosse dinheiro, o dinheiro seria tempo.
Não é. O tempo vale muito mais do que o dinheiro. Quando morremos, acaba-se o tempo que tivemos. Quando morremos, o que mais subsiste e insiste é a quantidade de coisas que continuam a existir, apesar de nós.
O nosso tempo de vida é a nossa única fortuna. Temos o tempo que temos. Depois de ter acabado o nosso tempo, não conseguimos comprar mais. Quando morreu o meu pai, foi-se com ele todo o tempo que ele tinha para passar connosco. As coisas dele ficaram para trás. Sobreviveram. Eram objectos. Alguns tinham valor por fazer lembrar o tempo que passaram com ele - a régua de arquitecto naval, os relógios - quando ele tinha tempo.
As pessoas dizem «time is money» para apressar quem trabalha. A única maneira de comprar tempo é de precisar de menos dinheiro para viver, para poder passar menos tempo a ganhá-lo. E ficar com mais tempo para trabalhar no que dá mais gosto e para ter o luxo indispensável de poder perder tempo, a fazer ninharias e a ser-se indolente.
A ideologia dominante de aproveitar bem o tempo impede-nos de perder esses tempos. Quando penso no meu pai, todas as minhas saudades são de momentos que perdi com ele. Uma noite, numa cabana no Canadá, confessou-me que o único filme de que gostava era «Um Peixe Chamado Wanda«. Todos os outros eram uma perda de tempo. Perdemos a noite inteira a falarmos e a rirmo-nos disso. Ainda hoje tem graça.

Miguel Esteves Cardoso, Jornal Público (26.11..2011)'

sexta-feira, 13 de abril de 2012

terça-feira, 3 de abril de 2012

451. Livraria


Librarie, de marie Desbons


Seria bom comprar livros se fosse possível comprar, junto com eles, o tempo para lê-los, mas é comum confundir a compra dos livros com a assimilação de seu conteúdo.

Arthur Schopenhauer

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

148. A árvore acumula

Por Alberto Lacerda

A árvore acumula
Tempo
Mas sem nostalgia

Alberto Lacerda, Pajem Formidável dos Indícios