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quarta-feira, 27 de junho de 2012

609. O Vento

O vento era como uma pessoa viva. Havia dias em que ele aparecia zangado e entrava pelas ruas a soprar, a abanar os toldos, a levantar a areia e a escurecer o sol. O vento era assim. Lourença não gostava dele. Trazia sempre o cabelo despenteado e a areia colada à cara.
Quando ele vinha do Norte, levantava o pano das barracas e fazia rolar os chapéus pela praia fora. Bufava como um touro, miava como um gato. Lourença batia-se com o vento, trocava-lhe o caminho, espreitava-o das esquinas, ia sair mais longe para o enganar. Mas o vento era indomável; se comia na praia, o vento enchia de areia o bolo de arroz; entrava nas costuras e, um ano depois, se a bainha era desfeita, a areia caía no chão com um barulhinho amigável. Como se dissesse: «Cumprimentos do vento, ele espera-te lá fora». A areia e o vento andavam juntos e davam-se bem. Areia seca e areia molhada; areia com cheiro a peixe e gosto a sal; areia branca, areia de terra, areia de pó. Era demais. Lourença disse:
— Quero um escafandro para sair à rua.

Agustina Bessa Luís, Vento, Areia e Amoras Bravas, Lisboa, Babel, 2011, p.53.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

594. Consolo na praia

Pintura de 594 Mark Kostabi_

Vamos, não chores...
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.
O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.
Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.
Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o 'humour'?
A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.

Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 15 de junho de 2012

581. Motivo da rosa

Ilustração de Daria Palotti
Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.

Rosas verá, só de cinzas franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim.

Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.

E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.

Cecília Meireles


segunda-feira, 11 de junho de 2012

575. O Valor do Vento


Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e
só entram nos meus versos as coisas de que gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos
o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz
a música que jaz à beira-mar em agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto

Ruy Belo

sábado, 9 de junho de 2012

573. Poema X

«Olá, guardador de rebanhos,
Aí à beira da estrada,
Que te diz o vento que passa?»

«Que é, vento, e que passa,
E que já passou antes,
E que passará depois.
E a ti o que te diz?»

«Muita cousa mais do que isso.
Fala-me de muitas outras cousas.
De memórias e de saudades
E de cousas que nunca foram.»

«Nunca ouviste passar o vento.
O vento só fala do vento.
O que lhe ouviste foi mentira,
E a mentira está em ti.»

Alberto Caeiro, «O Guardador de Rebanhos»