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quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

825. Poema de Natal


Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.
Vinicius de Moraes

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

676. Para desobedecer basta uma vez


Margarida atingira os seus cinco anos. Uma idade fácil para as crianças, é aquela idade em que basta mostrar a mão aberta para dizer há quanto tempo calcorreia este mundo inabitado por Deus. Margarida mostrava os seus cinco dedinhos com orgulho: já vivera uma mão inteira, com as falanges, falanginhas e falangetas todas incluídas.
— Que idade tens tu? — perguntavam-lhe.
E ela mostrava a mão, com a palma para fora, evidenciando toda a quiromancia que tinha vincada em linhas sinuosas. O que ela mostrava era um mapa, escrito em linhas de grande fatalidade.
— O carro do Sol já deu cinco voltas à minha volta — dizia a pequena Margarida, com o mapa da mãozinha virado para a assistência.
A idade de uma criança ainda é um fenómeno mitológico. Fenómeno que se perde com a adolescência. A partir de certa altura a cronologia passa a ser um número sem qualidades metafísicas. Os deuses greco-romanos perdem protagonismo e acabam por ser substituídos por leis físicas, por sebentas aos quadrados e, fatalmente, por um bilhete de identidade.
E tal como certo e determinado bom Deus advertiu os seus filhos, Adão e Eva, a não comerem do fruto proibido pois este traria a morte certa, Celeste advertia a própria filha: o armário da casa de banho não é para mexer, os frutos que há lá dentro trazem a morte certa. Margarida ouvia e obedecia a maior parte das vezes, porque para obedecer é preciso obedecer o tempo todo, já para desobedecer basta um momento, basta uma vez. Mas a curiosidade era muita: Quem era Deus, como nasceram as girafas que demoraram milhões de anos a esticar o pescoço, e o que era aquilo dentro do armário da casa de banho?, interrogava-se a menina. Com cinco anos já era perfeitamente capaz de questionar pescoços compridos e de subir a um banco, de abrir o dito armário que continha o fruto proibido. Um dia, a pequena Margarida fez o mesmo que Eva fez: esticou-se — não precisou de tanto tempo como uma girafa para chegar às coisas mais altas —, tirou o frasco de barbitúricos coloridos que cresciam na árvore do Éden e engoliu-os. Para desobedecer basta uma vez. Para obedecer é que tem de ser o tempo todo. A morte, tal como o bom Deus sugeriu, foi certa. Margarida tinha perdido os seus cinco anos, o seu mapa, as suas falanges, falanginhas e falangetas. A morte leva tudo e esta é especialmente eficaz, esta que se esconde em frutos coloridos (tal como Deus se esconde numa hóstia), em comprimidos que salvam a vida e são igualmente capazes de a tirar.
A natureza abomina o vazio, ou dito numa língua morta: natura abhorret vacuum. Mas que ele existe, existe. Parece que o Nada, a existir, deixa de ser Nada para ser alguma coisa. A natureza não gosta de espaços vazios e preenche-os como um burocrata preenche requerimentos.
Não deixa buracos em lado nenhum. Mesmo os lugares mais rarefeitos, como o espaço sideral e a estupidez humana, são preenchidos por alguma coisa: luz, metais leves, preconceitos, partículas e subpartículas dos átomos, radiações, chavões e telenovelas. A natureza enche chouriços, não há espaço vazio nas suas tripas. Um homem olha à sua volta e não encontra nada que não esteja já ocupado. Assim pensam os homens com a razão e a lógica que se passeia nos interstícios dos seus cérebros cinzentos, nessas dobras confusas que se assemelham a um intestino redondo ou a uma noz. Mas os homens que pensam com os sentimentos, têm outra lógica a nadar-lhes nas veias e artérias. Esses acreditam no vazio porque o vêem a toda a hora dentro de si.
O professor Borja e Celeste passaram a acreditar nesse Nada. O espaço deixado pelo desaparecimento da filha não fora ocupado pela natureza (essa natureza que abomina o vazio e, no entanto, é incapaz de preencher o Nada que a morte deixa). Há muita incompetência na forma como a natureza preenche os espaços, falta-lhe capacidade para se alojar nos lugares metafísicos. O professor Borja desejaria poder preencher o seu vazio com radiações, partículas e subpartículas do átomo, lugares-comuns ou mesmo telenovelas mexicanas, mas nada entra nesse espaço de dor. O adágio em latim, natura abhorret vacuum, essa frase que diz que a natureza não gosta nada do vazio, deveria ser outro: natura latinam linguam non loquitur, ou seja, a natureza não percebe de nada de latim.
Celeste interrogava-se sobre se Deus teria sofrido tanto quanto ela. Questionava se Deus, depois da desobediência dos seus filhos, se teria agachado na casa de banho do Céu, seco pelas lágrimas mais intensas que se pode chorar, e arrancado os cabelos (que estão todos contados). Ou teria Ele vivido sem culpas, com a justificação do livre-arbítrio, esse engodo fatal?
Para Celeste haveria alguma desculpa possível? Ela sentia que não. Deus tinha a Teologia a suportar os seus erros, o livre-alvedrio conveniente e um advogado como Santo Agostinho, mas ela só tinha um cônjuge paralelo a si mesmo. Celeste, incapaz de viver com aquela tragédia que se desenrolava na sua alma, deixou o marido. E fê-lo exactamente da mesma maneira que Margarida havia usado para deixar os pais, saiu pela mesma porta que a filha usara: comendo e mastigando os frutos proibidos e coloridos da casa de banho. O professor Borja encontrou um cadáver nas lajes brancas do chão, junto à retrete. Uma Celeste morta, morta exactamente da mesma maneira que Margarida. Utilizaram ambas a mesma porta aberta. A mãe seguia a filha, o passado seguia o futuro. Era o tempo a andar para trás, desordeiro e marginal. Celeste derramada nas lajes brancas, com a língua de fora cheia de comprimidos coloridos, os dentes pequeninos tingidos de azul, laranja, vermelho, verde, uma Celeste cheia de dor. Junto dela não havia um bilhete sequer, uma nota suicida. Não havia nada. Havia Nada.
Evidentemente que, dentro do professor, passaram a habitar dois vazios. Se a natureza tem horror a um vazio, imagine-se dois a coexistir no mesmo lugar. O vazio tem destas coisas, não ocupa espaço, por isso no mesmo lugar podem coabitar inúmeros vazios sem que o peito de um homem se assemelhe a uma praia no Verão.
É conhecido o facto de que a determinada altura da evolução precisámos de cérebros maiores. Cabeças maiores eram necessárias para albergar o grande órgão da nossa tragédia e da nossa glória. Cabeças maiores, maior a dor de parto. Não é fácil parir, nem para quem nasce nem para quem dá à luz. Cá está a dor de ser cabeçudo, de ter um órgão para saber e aprender. Cá está a dor do saber, já cravada na infância para memória futura. A utilização do cérebro é um processo doloroso. Esta hipertrofia da cabeça dá-nos uma grande capacidade para mentir a nós mesmos. E darás à luz com muitas dores, foi-nos dito depois de experimentarmos o fruto do conhecimento, da árvore da ciência do bem e do mal. O professor Borja aprendeu a mentir a si mesmo, voltou a sua cabeça para a Ciência e para o misticismo que a acompanha sempre que o cientista é sério. Enfim, aprendeu a disfarçar os buracos do seu peito com uma camisola fora de moda e umas teorias geométricas, sociopolíticas e históricas.
A vida do professor foi, então, avançando com lentidão, solitária, virada para apenas um lado do telescópio, o espaço sideral, sem perceber que, quando se olha através dele, é ao espelho que nos vemos: não existem buracos negros no espaço sideral, algures a milhares de anos-luz da Terra. Esses buracos negros que vemos ao telescópio são os mesmos que não conseguimos ver dentro de nós.

Afonso Criz, Jesus Cristo bebia Cerveja, pp. 138-140

674. Morte

De cada vez que deixamos de ser percebidos, morremos. Quando somos enterrados deixamos de ser percebidos por toda a gente, mas quando os outros já não olham para nós, ficaram condenados para um número limitado de pessoas, a uma morte em tudo idêntica à outra. A nossa morte não acontece quando somos enterrados, acontece continuamente: os dentes caem, os joelhos solidificam, a pele engelha-se, os amigos partem. Tudo isso é a morte. O momento final é apenas isso, um momento.

Afonso Cruz, Jesus Cristo Bebia Cerveja,pp. 89-90

segunda-feira, 30 de abril de 2012

524. Morte



«(…) as pessoas que nós amamos nunca desaparecem, pois continuam sempre a viver dentro de nós.»

Teresa Lobato de Faria, História do Sempre e do Nunca, Lisboa, Oficina do Livro, 2012.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

sábado, 12 de novembro de 2011

42. Poema do Gato

por António Gedeão



Quem há-de abrir a porta ao gato
quando eu morrer?

Sempre que pode
foge prá rua
cheira o passeio
e volta para trás,
mas ao defrontar-se com a porta fechada
(pobre do gato!)
mia com raiva
desesperada.

Deixo-o sofrer
que o sofrimento tem sua paga,
e ele bem sabe.

Quado abro a porta corre para mim
como acorre a mulher aos braços do amante.
Pego-lhe ao colo e acaricio-o
num gesto lento,
vagarosamente,
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele olha-me e sorri, com os bigodes eróticos,
olhos semi-cerrados, em êxtase,
ronronando.

Repito a festa,
vagarosamente,
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele aperta as maxilas,
cerra os olhos,
abre as narinas,
e rosna,
rosna, deliquescente,
abraça-me
e adoremece.

Eu não tenho gato, mas se o tivesse
quem lhe abriria a porta quando eu morresse?

António Gedeão

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

36. Nascer pequeno e morrer grande

por Padre António Vieira

Nascer pequeno e morrer grande é chegar a ser homem. Por isso nos deu Deus tão pouca terra para o nascimento e tantas para a sepultura. Para nascer, Portugal, para morrer, o mundo.