Páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta Crónica. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Crónica. Mostrar todas as mensagens

domingo, 25 de dezembro de 2011

133. Organiza o Natal

por Carlos Drummond de Andrade

Alguém observou que cada vez mais o ano se compõe de 10 meses; imperfeitamente embora, o resto é Natal. É possível que, com o tempo, essa divisão se inverta: 10 meses de Natal e 2 meses de ano vulgarmente dito. E não parece absurdo imaginar que, pelo desenvolvimento da linha, e pela melhoria do homem, o ano inteiro se converta em Natal, abolindo-se a era civil, com suas obrigações enfadonhas ou malignas. Será bom.

Então nos amaremos e nos desejaremos felicidades ininterruptamente, de manhã à noite, de uma rua a outra, de continente a continente, de cortina de ferro à cortina de nylon — sem cortinas. Governo e oposição, neutros, super e subdesenvolvidos, marcianos, bichos, plantas entrarão em regime de fraternidade. Os objetos se impregnarão de espírito natalino, e veremos o desenho animado, reino da crueldade, transposto para o reino do amor: a máquina de lavar roupa abraçada ao flamboyant, núpcias da flauta e do ovo, a betoneira com o sagüi ou com o vestido de baile. E o supra-realismo, justificado espiritualmente, será uma chave para o mundo.

Completado o ciclo histórico, os bens serão repartidos por si mesmos entre nossos irmãos, isto é, com todos os viventes e elementos da terra, água, ar e alma. Não haverá mais cartas de cobrança, de descompostura nem de suicídio. O correio só transportará correspondência gentil, de preferência postais de Chagall, em que noivos e burrinhos circulam na atmosfera, pastando flores; toda pintura, inclusive o borrão, estará a serviço do entendimento afetuoso. A crítica de arte se dissolverá jovialmente, a menos que prefira tomar a forma de um sininho cristalino, a badalar sem erudição nem pretensão, celebrando o Advento.

A poesia escrita se identificará com o perfume das moitas antes do amanhecer, despojando-se do uso do som. Para que livros? perguntará um anjo e, sorrindo, mostrará a terra impressa com as tintas do sol e das galáxias, aberta à maneira de um livro.

A música permanecerá a mesma, tal qual Palestrina e Mozart a deixaram; equívocos e divertimentos musicais serão arquivados, sem humilhação para ninguém.

Com economia para os povos desaparecerão suavemente classes armadas e semi-armadas, repartições arrecadadoras, polícia e fiscais de toda espécie. Uma palavra será descoberta no dicionário: paz.

O trabalho deixará de ser imposição para constituir o sentido natural da vida, sob a jurisdição desses incansáveis trabalhadores, que são os lírios do campo. Salário de cada um: a alegria que tiver merecido. Nem juntas de conciliação nem tribunais de justiça, pois tudo estará conciliado na ordem do amor.

Todo mundo se rirá do dinheiro e das arcas que o guardavam, e que passarão a depósito de doces, para visitas. Haverá dois jardins para cada habitante, um exterior, outro interior, comunicando-se por um atalho invisível.

A morte não será procurada nem esquivada, e o homem compreenderá a existência da noite, como já compreendera a da manhã.

O mundo será administrado exclusivamente pelas crianças, e elas farão o que bem entenderem das restantes instituições caducas, a Universidade inclusive.

E será Natal para sempre.

Ah! Seria ótimo se os sonhos do poeta se transformassem em realidade.

Carlos Drummond de Andrade, Cadeira de Balanço, Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1972, pág. 52.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

118.Natal

por Cecília Meireles

Como estamos mudados! Em meio século, perdemos aquela ingenuidade dos votos dirigidos de janela a janela: "Boas Festas!", "Feliz Ano Novo!"; das ceias tradicionais, talvez copiosas, porém modestas; das lembrancinhas oferecidas às crianças como um dom misterioso do céu; dos vestidos novos para os ofícios das igrejas e as visitas aos presépios; alegria das músicas e cânticos, deslumbramento dos olhos diante de uma Belém infantil, com patinhos nos lagos e lavadeiras nos rios... Ah! como éramos sensíveis, imaginativos! Como estávamos prontos a completar, com a nossa memória dos episódios evangélicos, a paisagem arbitrariamente inventada! Como achávamos naturais todas as coisas desencontradas naquele mundo fictício! Talvez prevíssemos que o nosso não o era menos, e igualmente e misteriosamente desencontradas as coisas que nele iríamos presenciar!
Esperávamos por esses últimos dias do ano combinando sonhos de novas alegrias alimentadas pelas lembranças dos anos anteriores. A vida estava assim pautada, na terra, sobre exemplos de coisas celestes. Essa mistura do humano com o divino trazia-nos como num estado de levitação, e mesmo em redor de nós tudo era ascensão de anjos e santos, uma aparição deslumbrada de Magos e um acordar sobrenatural de pastores. Falávamos de tudo isso com uma surpreendente naturalidade. Conhecíamos a linguagem dos sinos, cujas mensagens pareciam na verdade descer do céu para a nossa inocência feliz e luminosa.
Enfim, éramos felizes porque um Menino, ao mesmo tempo parecido com todas as crianças, e diferente de todas elas, nascera um dia, num lugar muito longe, e era uma alegria festejar-lhe o aniversário, não só por ser assim como um irmãozinho de todos nós, mas porque a Sua bondade era uma esperança para os nossos pequenos corações, já assustados e tímidos, secretamente desejosos de felicidade.
Mas pouco a pouco tudo foi ficando tão complicado, tão difícil! Das simples ceias familiares, que apenas aproximavam as pessoas num convívio sentimental, passou-se às grandes ceias de repercussão social, ceias festivas em luxuosos ambientes, sem compreensível relação com a data do calendário. Das lembrancinhas modestas que recebiam as crianças, por aquele acontecimento, dos cartões de boas festas afetuosos e ingênuos, passou-se a uma superabundância de presentes, a uma efusão de votos, a uma profusão de árvores de Natal, dos mais diversos feitios e coloridos - e tudo se converteu numa grande festa decorativa, ruidosa, suntuosa, profana, em que se confundem tradições cristãs e pagãs e se misturam as celebrações religiosas do Menino Jesus com as alegrias do Ano Novo.
(Ah! quem vos visitou, lugares humildes da Palestina, que ainda hoje pareceis os mesmos de outrora, em vossa rústica simplicidade. Lugares de onde, no entanto, iria surgir uma nova luz - na verdade, uma nova Estrela - para os povos da Terra!)
E, de repente - seja no Rio ou em São Paulo, ou em qualquer grande centro ocidental - essas avenidas enfeitadas, essas lojas acesas, esses fantásticos presentes que se acumulam, sugestivos e atraentes por todos os lados! E as mãos ágeis dos vendedores que abrem e fecham caixas, estendem papéis maravilhosos, desenrolam atilhos dourados, fitas cintilantes, que entre os seus dedos se convertem em flores de inúmeras pétalas!
Tudo isso em torno do Nascimento daquele Menino que, a princípio um pequenino fugitivo perseguido, passa logo a uma iluminada criança a discutir com doutores - sem que se possa adivinhar se algum dia brincou, despreocupado, nem que brinquedos terão sido os seus. Em todo caso, se esta pompa, se este delírio, se estas luzes copiosas, se estas horas inquietas dos Natais de hoje servem para aproximar as criaturas, malgrado o contraste de tanto fausto e grandeza com a doce pobreza de Jesus - estes Natais assim celebrados continuarão a ser uma bela e feliz festa cristã!

Cecília Meireles, Ilusões do mundo

117. Compras de Natal

por Cecília Meireles

A cidade deseja ser diferente, escapar às suas fatalidades. Enche-se de brilhos e cores; sinos que não tocam, balões que não sobem, anjos e santos que não se movem, estrelas que jamais estiveram no céu.
As lojas querem ser diferentes, fugir à realidade do ano inteiro: enfeitam-se com fitas e flores, neve de algodão de vidro, fios de ouro e prata, cetins, luzes, todas as coisas que possam representar beleza e excelência.
Tudo isso para celebrar um Meninozinho envolto em pobres panos, deitado numas palhas, há cerca de dois mil anos, num abrigo de animais, em Belém.
Todos vamos comprar presentes para os amigos e parentes, grandes e pequenos, e gastaremos, nessa dedicação sublime, até o último centavo, o que hoje em dia quer dizer a última nota de cem cruzeiros, pois, na loucura do regozijo unânime, nem um prendedor de roupa na corda pode custar menos do que isso.
Grandes e pequenos, parentes e amigos são todos de gosto bizarro e extremamente suscetíveis. Também eles conhecem todas as lojas e seus preços — e, nestes dias, a arte de comprar se reveste de exigências particularmente difíceis. Não poderemos adquirir a primeira coisa que se ofereça à nossa vista: seria uma vulgaridade. Teremos de descobrir o imprevisto, o incognoscível, o transcendente. Não devemos também oferecer nada de essencialmente necessário ou útil, pois a graça destes presentes parece consistir na sua desnecessidade e inutilidade. Ninguém oferecerá, por exemplo, um quilo (ou mesmo um saco) de arroz ou feijão para a insidiosa fome que se alastra por estes nossos campos de batalha; ninguém ousará comprar uma boa caixa de sabonetes desodorantes para o suor da testa com que — especialmente neste verão — teremos de conquistar o pão de cada dia. Não: presente é presente, isto é, um objeto extremamente raro e caro, que não sirva a bem dizer para coisa alguma.
Por isso é que os lojistas, num louvável esforço de imaginação, organizam suas sugestões para os compradores, valendo-se de recursos que são a própria imagem da ilusão. Numa grande caixa de plástico transparente (que não serve para nada), repleta de fitas de papel celofane (que para nada servem), coloca-se um sabonete em forma de flor (que nem se possa guardar como flor nem usar como sabonete), e cobra-se pelo adorável conjunto o preço de uma cesta de rosas. Todos ficamos extremamente felizes!
São as cestinhas forradas de seda, as caixas transparentes os estojos, os papéis de embrulho com desenhos inesperados, os barbantes, atilhos, fitas, o que na verdade oferecemos aos parentes e amigos. Pagamos por essa graça delicada da ilusão. E logo tudo se esvai, por entre sorrisos e alegrias. Durável — apenas o Meninozinho nas suas palhas, a olhar para este mundo.

Cecília Meireles, Quatro Vozes, Rio de Janeiro, Editora Record, 1998, pág. 80.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

106. O Natal

por Eça de Queirós

O Natal, a grande festa doméstica da Inglaterra, foi este ano tristedessa tristeza particular que oferece, por um dia de calma ardente, a praça deserta de uma vila pobre, ou dessa melancolia que infundem umas poucas de cadeiras vazias em torno de um voltará mais...

O que nos estragou o Natal, não foram decerto as preocupações políticas, apesar da sua negrura de borrasca. Nem a rebelião do Transval em que os Boers debutaram por exterminar o 94 de linha, um dos mais experimentados e gloriosos regimentos da Inglaterra e que ameaça ensanguentar toda a África do Sul numa guerra de raças; nem a situação da Irlanda, que já não é governada pela Inglaterra, mas pelo comité revolucionário da Liga Agrária – seriam inquietações suficientes para tirar o sabor tradicional ao, plum-pudding do Natal. As desgraças públicas nunca impedem que os cidadãos jantem com apetite: e misérias da pátria, enquanto não são tangíveis e senão apresentam, sob a forma flamejante de obuses rebentando, inuma cidade sitiada, não tirarão jamais o sono ao patriota.

Não; o que estragou o Natal, foi simplesmente a falta de neve. Um Natal como este que passámos, com um sol de uma palidez de convalescente, deslizando timidamente sobre uma imensa peça de seda azul desbotada, um Natal sem neve, um Natal sem casacos de peles, parece tão insípido e tão desconsolado como seria em Portugal a noite de S. João, noite de fogueiras e descantes, se houvesse no chão três palmos de neve e caísse por cima o granizo até de madrugada! Um desapontamento nacional!

Para compreender bem o encanto da neve deste famoso Natal inglês, basta examinar alguma das pinturas, gravuras ou oleografias, que o têm popularizado.

O assunto não varia na paisagem repetida: é sempre a mesma entrada dum parque, de aparência feudal, por vésperas do Natal, antes da meia-noite; o céu pesado de neve suspensa parece uma gaza suja: e a perder de vista tudo está coberto da neve caída, uma neve branca, fofa, alta, que faz nos campos um grande silêncio. Junto à grade do parque, uma mulher ewe duas crianças, atabafadas nos seus farrapos, com lampiões na mão, vão cantando as loas; e ao fundo, entre as ramagens despidas, ergue-se o maciço castelo, com as janelas flamejando, abrasadas da grande luz de dentro e da alegria que as habita.

E toda a poesia do Natal está justamente nessas janelas resplandecendo na noite nevada.

Felizes aqueles para quem essas portas difíceis se abrem! Logo ao entrar na antecâmara os tectos, as ombreiras, os espaldares das cadeiras, os troféus de caça, aparecem adornados das verduras do Natal, das ramagens sagradas do carvalho céltico; e pelas paredes, em letras douradas, ondeiam os dísticos tradicionais – Merry Christmas! Merry Christmas! alegre natal! alegre natal! e o mesmo grito se repete nos shake-hands que se dão ao hóspede.

Sob a chaminé estala e dança a grande fogueira do Natal: a sua luz rica faz parecer de ouro os cabelos louros, e de prata as barbas brancas.

Tudo está enfeitado como numa Páscoa sagrada: dos retratos dos avós pendem ramos de flores de Inverno, as flores da neve, e todas as pratas da casa cintilam sobre os aparadores, numa solenidade patriarcal. Dos grandes lustres balança-se o ramo simbólico do mistletoe, o ramo do amor doméstico: e ai das senhoras que um momento pararem sob a sua ramagem! Quem assim as surpreender tem direito a beijá-las num grande abraço! Também, que voltas sábias, que estratégia complicada, para evitar o ramo fatídico! Mas, pobres anjos! ou se enganam ou se assustam, e a cada momento é sob o mistletoe um grito, um beijo, dois abraços que prendem uma cinta fugitiva...

E o piano não se cala nestas noites! É alguma velha canção inglesa, em que se fala de torneios e cavaleiros, ou uma dança da Escócia, que se baila, com o gentil cerimonial do passado.

E por corredores e salas, as crianças, os bebés, com os cabelos ao vento, vestidos de branco e cor-de-rosa, correm, cantam, riem, vão a cada momento espreitar os ponteiros do relógio monumental, porque à meia-noite chega Santo Claus, o venerável Santo Claus que tem três mil anos de idade e um coração de pomba, e que já a essa hora vem caminhando pela neve da estrada, rindo com os seus velhos botões, apoiado ao seu cajado, e com os alforges cheios de bonecos. Amável Santo Claus! Por um tempo tão frio, naquela idade deixar a cabana de algodão que ele habita no país da Legenda, e vir por sobre ondas do mar e ramagens de florestas trazer a estes bebés o seu natal!

Também, como eles o adoram, o bom Claus! E apenas ele chegar, como correrão todos, em triunfo, a puxá-lo para o pé do lume, a esfregar-lhe as decrépitas mãos regeladas, e oferecer-lhe uma taça de prata cheia de hidromel quente - que ele bebe dum trago, o glutão! Depois abrem-se-lhe os alforges. Quantas maravilhas!...

Mas destas personagens que aparecem pelas consoadas, o meu predilecto é Father Christmas – o papá Natal.

Esse, porém, só pode ser admirado em toda a sua glória, quando se abre a sala da ceia: então lá está sobre o seu pedestal, ao centro da mesa – que lhe põe em torno, com os cristais e os pratos, um amável brilho da auréola caseira. Bem-vindo, papá Natal! Boas noites, papá Natal!

O respeitável ancião, com o seu capuz até aos olhos, todo salpicado de neve, as mãos escondidas nas largas mangas de frade, o olho maganão e jovial, esgarça a boca num riso de felicidade sem-fim, e as suas enormes barbas de algodão pendem-lhe até aos pés.

Todas as crianças o querem abraçar, e ele não se recusa, porque é indulgente.

E quanto mais a ceia se anima, mais o seu patriarcal riso se escancara; as bochechas reluzem-lhe de escarlates, as barbas parecem crescer-lhe, e ali está, bonacheirão e venerável, com a importância de um Deus tutelar e amado, como a encarnação sacramental da alegria doméstica.

E no entanto fora, na neve, as pobres crianças cantam as loas: e com vigor as cantam! É que elas sabem que não serão esquecidas: e que daqui a pouco a grade se abrirá, e virá um criado, vergando ao peso de toda a sorte de coisas boas, peças de carne, empadas, vinho, queijos – e mesmo bonecas para os pequenos; porque Santo Claus é um democrata, e, se enche os seus alforges para os ricos, gosta sobretudo de os ver esvaziados no regaço dos pobres.

Tudo isto é encantador. Mas tire-se-lhe a neve, e fica estragado. O Natal com uma lua cor de manteiga a bater numa terra tépida de Primavera, torna-se apenas uma data no calendário. O lume não tem poesia íntima; não há loas; Santo Claus não vem; o papá Natal parece um boneco insípido; não se colhe o mistletoe. Não há mesmo a alegria de abrir a janela, e pôr no rebordo, dentro duma malga, a ceia de migalhas do Natal para os pardais e para os outros passarinhos, que tanta fome sofrem pelas neves. Enfim não há Natal! Foi o que sucedeu este ano...

Resta a consolação de que os pobres tiveram menos frio. E isto é o essencial; pensando bem, se nas cabanas houve mais algum conforto, e se se não tiritou toda a noite entre quatro farrapos, é perfeitamente indiferente que nos castelos as damas bocejassem.

Nem eu sei realmente como, a ceia faustosa possa saber bem, como o lume do salão chegue a aquecer – quando se considere que lá fora há quem regele, e quem rilhe, a um canto triste, uma côdea de dois dias. É justamente nestas horas de festa íntima, quando pára por um momento o furioso galope do nosso egoísmo - que a alma se abre a sentimentos melhores de fraternidade e de simpatia universal, e que a consciência da miséria em que se debatem tantos milhares de criaturas, volta com uma amargura maior. Basta então ver uma pobre criança, pasmada diante da vitrine de uma loja, e com os olhos em lágrimas para uma boneca de pataco, que ela nunca poderá apertar nos seus miseráveis braços - para que se chegue à fácil conclusão que isto é um mundo abominável. Deste sentimento nascem algumas caridades de Natal; mas, findas as consoadas, o egoísmo parte à desfilada, ninguém torna a pensar mais nos pobres, a não ser alguns revolucionários endurecidos, dignos do cárcere e a miséria continua a gemer ao seu canto!

Os filósofos afirmam que isto há-de ser sempre assim: o mais nobre de entre eles, Jesus, cujo nascimento estamos exactamente celebrando, ameaçou-nos, numa palavra imortal, que teríamos sempre pobres entre nós. Tem-se procurado com revoluções sucessivas fazer falhar esta sinistra profecia – mas as revoluções passam e os pobres ficam.

Neste momento, por exemplo, na Irlanda, os trabalhadores, ou antes os servos do ducado de Leicester estão morrendo de fome, e o duque de Leicester está retirando anualmente, do trabalho duro que eles fazem, quatrocentos contos de réis de renda! É verdade que a Irlanda está em revolta; é verdade que, se o duque de Leicester se arriscasse a visitar o seu ducado de Irlanda, receberia, sem tardar, quatro lindas balas no crânio.

E o resultado? Daqui a vinte anos os trabalhadores de Leicester estarão de novo a sofrer a fome e o frio – e o filho do duque de Leicester, duque ele mesmo então, voltará a arrecadar os seus quatrocentos contos por ano.

Não é possível mudar. O esforço humano consegue, quando muito, converter um proletariado faminto numa burguesia farta; mas surge logo das entranhas da sociedade um proletariado pior. Jesus tinha razão: haverá sempre pobres entre nós. Donde se prova que esta humanidade é o maior erro que jamais Deus cometeu.

Aqui estamos sobre este globo há doze mil anos a girar fastidiosamente em torno do Sol, e sem adiantar um metro na famosa estrada do progresso e da perfectibilidade: porque só algum ingénuo de província é que ainda considera progresso a invenção ociosa desses bonecos pueris que se chamam máquinas, engenhos, locomotivas, etc., e essas prosas laboriosas e difusas que se denominam sistemas sociais.

Nos dois ou três primeiros mil anos de existência trepámos a uma certa altura de civilização; mas depois temos vindo rolando para baixo numa cambalhota secular.

O tipo secular e doméstico de uma aldeia Ária do Himalaia, tal como uma vetusta tradição o tem trazido até nós, é infinitamente mais perfeito que o nosso organismo doméstico e social. Já não falo de gregos e romanos: ninguém hoje tem bastante génio para compor um coro de Ésquilo ou uma página de Virgílio; como escultura e arquitectura, somos grotescos; nenhum milionário é capaz de jantar como Lúculo; agitavam-se em Atenas ou Roma mais ideias superiores num só dia do que nós inventámos num século; os nossos exércitos fazem rir, comparados às legiões de Germânicos; não há nada equiparável à administração romana; o boulevard é uma viela suja ao lado da Via Ápia; nem uma Aspásia temos; nunca ninguém tornou a falar como Demóstenes: - e o servo, o escravo, essa miséria da antiguidade, não era mais desgraçado que o proletário moderno.

De facto, pode-se dizer que o homem nem sequer é superior ao seu venerável pai – o macaco; excepto em duas coisas temerosas – o sofrimento moral e o sofrimento social.

Deus tem só uma medida a tomar com esta humanidade inútil: afogá-la num dilúvio. Mas afogá-la toda, sem repetir a fatal indulgência que o levou a poupar Noé; se não fosse o egoísmo senil desse patriarca borracho, que queria continuar a viver, para continuar a beber, nós hoje gozaríamos a felicidade inefável de não sermos...

Eça de Queirós, «O Natal», in Cartas de Inglaterra e Crónicas de Londres, (fixação do texto e notas de Helena Cidade Moura), Lisboa, Livros do Brasil («Obras de Eça de Queiroz»), 1970, pp.. 41-48.