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sábado, 6 de outubro de 2012

679. Biblioteca


678. Confissões de um humorista

por O. Henry



Houve um estádio indolor de incubação que durou vinte e cinco anos, e depois tive um surto e as pessoas disseram que eu era o supra-sumo.
Mas chamaram-lhe humor em vez de sarampo.
Os empregados do armazém compraram um tinteiro de prata para o sócio mais velho quando fez cinquenta anos. Apinhámo-nos no gabinete dele para lho dar. Tinham-me escolhido para porta-voz e fiz um pequeno discurso que andava a preparar há uma semana.
Foi um sucesso. Era todo cheio de trocadilhos e epigramas e reviravoltas engraçadas que fizeram vir abaixo a casa, de si bastante sólida, na linha da venda de ferragens por atacado. O Marlowe propriamente dito chegou a sorrir e os empregados aproveitaram a deixa e riram à gargalhada.
A minha reputação como humorista data das nove e meia dessa manhã. Os meus colegas passaram semanas a avivar a chama do meu amor-próprio. Um a um vieram dizer-me que o meu discurso fora incrivelmente bem feito, meu caro, e explicaram-me com todo o cuidado cada uma das minhas piadas.
A pouco e pouco percebi que se esperava que eu continuasse. Outros podiam bem falar, cheios de bom senso, de negócios e dos tópicos do dia, mas de mim exigia-se uma coisa brincalhona e airosa.
Esperava-se que eu dissesse piadas sobre cerâmica e aligeirasse os granitos com graçolas. Era o segundo contabilista, e se não apresentasse um balancete com uma coisa cómica ao pé das somas ou não encontrasse motivo de riso na factura duns arados, era uma decepção para os outros empregados. Gradualmente, a minha fama espalhou-se, e tornei-me numa personagem castiça. A nossa cidade era suficientemente pequena para que isto fosse possível. O jornal diário citava-me. Eu era indispensável nas reuniões sociais.
Acredito que tivesse uma graça razoável e alguma facilidade na resposta rápida e espontânea. É um dom que cultivei e aperfeiçoei pela prática. E a natureza deste dom era bondosa e cordial, não ia para o sarcasmo nem ofendia os outros. As pessoas começavam a sorrir quando me viam aparecer, e quando chegávamos perto, já eu trazia pronta a palavra que alargava num riso o sorriso delas.
Casara cedo. Tínhamos um menino de três anos que era um encanto e uma menina de cinco. Como é natural, vivíamos numa casinha coberta de vinha e éramos felizes. O meu ordenado como contabilista no negócio das ferragens mantinha à distância os males que derivam da riqueza supérflua.
Escrevera várias vezes piadas e peças de humor que considerei especialmente felizes e enviara-as a certos jornais que publicam essas coisas. Todas foram imediatamente aceites. Houve chefes de redacção que escreveram a pedir mais colaboração.
Um dia recebi uma carta do editor de um famoso semanário. Sugeria que eu lhe mandasse um artigo humorístico para encher uma coluna que vagara, insinuando que passaria a contribuição regular caso o trabalho fosse satisfatório. Assim fiz, e ao fim de duas semanas ofereceu-me um contrato de um ano, por uma quantia bastante superior à que me pagavam na empresa de ferragens.
Fiquei deliciado. A minha mulher já me coroara, na cabeça dela, com o louro imperecível do êxito literário. Nessa noite, ao jantar, comemos rissóis de lagosta e bebemos uma garrafa de vinho de amora. Era a oportunidade de me libertar da servidão. Tive com Louisa uma conversa longa e séria. Concordámos que eu devia deixar o meu lugar no armazém, e dedicar-me ao humor. Demiti-me. Os meus colegas ofereceram-me um banquete de despedida. O discurso que ali fiz foi coruscante. Veio publicado na íntegra na Gazeta. Na manhã seguinte acordei e olhei para o relógio.
— Já é tarde, raios! — exclamei, e precipitei-me para apanhar a roupa. Louisa lembrou-me de que eu já não era um escravo das ferragens e dos fornecimentos aos construtores civis. Agora era humorista profissional.
Depois do pequeno-almoço levou-me toda orgulhosa ao quartinho ao pé da cozinha. Tão querida! Lá estavam a minha mesa e cadeira, bloco de notas, tinta e a bandeja do cachimbo. E todos os sinais exteriores do autor — o aipo com rosas acabadas de apanhar e madressilva, o calendário do ano passado na parede, o dicionário e um saquinho cheio de chocolates para ir petiscando nos intervalos da inspiração. Tão querida!
Sentei-me para trabalhar. O papel de parede tem uns arabescos, ou umas odaliscas ou — talvez — uns trapézios. Fixei os olhos numa das figuras. Pus-me a pensar em humor.
Sobressaltou-me uma voz — a de Louisa.
— Se já não tens muito que fazer, querido — dizia vem almoçar.
Olhei para o relógio. Sim, cinco horas ceifadas pela gadanha sinistra. Fui almoçar.
— Não podes trabalhar tanto logo de início — disse Louisa. — Goethe, ou terá sido Napoleão?, disse que chegavam cinco horas por dia de esforço mental. Porque não me levas a mim e aos meninos a passear ao bosque hoje à tarde?
— Estou um bocado cansado — admiti. E fomos ao bosque.
Mas cedo lhe apanhei o jeito. Passado um mês já eu fornecia texto com a mesma regularidade dos carregamentos de ferragens.
E tive sucesso. A minha coluna no semanário teve algum impacto, e na conversa de café entre críticos, referiam-se-me como uma lufada de ar fresco nas hostes dos humoristas. Aumentei bastante os rendimentos contribuindo para outras publicações.
Aprendi os truques do ofício. Conseguia pegar numa ideia engraçada, fazer uma piada de duas linhas, e ganhar um dólar. Punha-lhe umas suíças postiças, servia-a fria como quadra, duplicando-lhe o valor na produção. Virava-a do avesso e juntando-lhe um cheirinho de rima quase nem a reconheciam como vers de sociétê calçado de novo e com uma ilustração de moda.
Comecei a poupar dinheiro e comprámos tapetes novos e um órgão de sala. Os meus conterrâneos começaram a olhar-me como cidadão de alguma importância em vez do pateta alegre que eu fora enquanto trabalhava nas ferragens.
Passados cinco ou seis meses, a espontaneidade desapareceu do meu humor. Repentes e tiradas droláticas já não me saíam todas despreocupadas pela boca fora. Por vezes, faltava-me o assunto. Dei comigo à coca a ver se apanhava ideias disponíveis nas conversas dos amigos. Às vezes roía o lápis e ficava pasmado a olhar para o papel de parede horas a fio, tentando construir uma alegre bolhinha de graça espontânea.
E depois tornei-me numa harpia, um Moloch, um Jonas, um vampiro, para os meus conhecidos. Ansioso, desvairado, ávido, eu era, no meio deles, um autêntico desmancha-prazeres. Era só cair-lhes da boca um dito inteligente, uma comparação espirituosa, uma frase mordaz e eu saltava como um cão a apanhar um osso. Não ousava confiar na memória; mas virando-me um pouco de lado, culpado e mesquinho, tomava notas no meu sempre presente bloco de apontamentos ou no punho da camisa, para usar mais tarde.
Os amigos olhavam-me com pena e pasmo. Não era o mesmo homem. Onde outrora lhes fornecera entretenimento e alegria, agora caía-lhes em cima como ave de rapina. De mim já não levavam gracinhas só pelos sorrisos deles. Eram demasiado preciosas. Não me podia dar ao luxo de oferecer gratuitamente os meios da minha subsistência. Era uma raposa lúgubre louvando o canto dos meus amigos corvos para que deixassem cair dos bicos os pedaços de humor que eu cobiçava.
Quase toda a gente me evitava. Cheguei a esquecer-me de como era fazer um sorriso, e nem isso pagava pelos ditos de que me apropriava. Gente, lugares, momentos, temas, nada estava isento da minha pilhagem de material. Até na igreja, a minha fantasia amoral corria à caça, pelas coxias solenes e pelos pilares, em busca do saque.
Se o pastor falava na doxologia, eu começava logo: "Doxologia-Socodologia-Socodólogo-Metro-Meter-o".
O sermão passava-me pela peneira mental, e os preceitos morais escorriam despercebidos, se eu vislumbrasse a vaga possibilidade de um trocadilho ou de um bon mot. Os hinos mais solenes do coro eram mero acompanhamento dos pensamentos em que concebia novas maneiras de glosar velhas piadas sobre a rivalidade entre a soprano, o tenor e o baixo.
A minha própria casa passou a ser terreno de caça. A minha mulher é uma criatura muitíssimo feminina, cândida, simpática e impulsiva. No passado, deliciava-me conversar com ela e as suas ideias eram fonte de prazer constante. Agora explorava-a. Era uma mina de ouro dessas contradições engraçadas e amorosas que distinguem a mente feminina.
Comecei a fazer negócio com as pérolas de in-sabedoria e humor que deviam ter enriquecido apenas o sagrado recinto do lar. Com manha diabólica, encorajava-a a falar. Sem desconfiar, ela punha o coração nas mãos. Na fria, conspícua, baixa letra impressa, eu oferecia-o ao olhar público.
Qual Judas literário, beijava-a e traía-a. Por moedas de prata vestia-lhe as doces confidências com a roupa de baixo e os folhinhos da patetice e fazia-as dançar na praça.
Querida Louisa! Houve noites em que me debrucei sobre ela, cruel como um lobo sobre o tenro cordeiro, atento até às palavras murmuradas no sono, esperando apanhar uma ideia para a lavra esforçada do dia seguinte. Mas o pior está para vir.
Valha-me Deus! A seguir, enterrei fundo as presas nos ditos fugidios dos meus pequeninos.
Guy e Viola eram duas fontes brilhantes de pensamentos e ditos infantis e insólitos. Havia procura deste género de humor e eu fornecia regularmente uma secção duma revista com "Divertidas Fantasias da Infância". Punha-me a espreitá-los, como um índio espia um antílope. Escondia-me atrás dos sofás e das portas, ou gatinhava pelos arbustos no pátio e punha-me a escuta enquanto eles brincavam. Tinha todas as qualidades da harpia, excepto o remorso.
Uma vez, quando estava sem ideias nenhumas e tinha de enviar o texto pelo correio seguinte, cobri-me de folhas caídas no jardim, onde sabia que vinham brincar. Não posso acreditar que o Guy soubesse do meu esconderijo, mas mesmo que soubesse, detestaria ter de o censurar por deitar fogo às folhas, causando a destruição do meu fato novo, e quase cremando um progenitor.
Cedo os meus próprios filhos começaram a fugir de mim como da peste. Muitas vezes, quando me chegava a eles pé ante pé qual melancólico ladrão de sepulturas, ouvia-os a dizer um para o outro:
— Lá vem o pai — e apanhavam os brinquedos e iam a correr esconder-se num lugar mais seguro. Desgraçado miserável que eu era!
E, no entanto, estava bem, financeiramente. No primeiro ano poupara mil dólares e tínhamos vivido com conforto. Mas a que preço! Não tenho bem a certeza do que seja um pária, mas eu era tudo o que essa palavra parece indicar. Não tinha amigos, nem gozava a vida. Sacrificara a felicidade da minha família. Era uma abelha, sugando mel sórdido das mais belas flores da vida, temido e ostracizado por causa do meu ferrão.
Um dia, um homem falou comigo, com um sorriso amável e simpático. Há meses que tal não me acontecia. Passava eu no estabelecimento funerário de Peter Heffelbower. Peter estava à porta e cumprimentou-me. Parei, com o coração estranhamente apertado pelo cumprimento dele. Convidou-me a entrar.
O dia estava frio e chuvoso. Fomos para a sala das traseiras, onde havia um pequeno fogão aceso. Veio um cliente e o Peter deixou-me sozinho um bocado. De repente, senti-me tomado de um sentimento novo — uma calma maravilhosa, uma satisfação, e olhei em volta. Havia filas de caixões de roseira brilhantes, panos mortuários, tripeças, plumas de essa, flâmulas negras, e toda a parafernália do solene ofício. Aqui havia paz, ordem, silêncio, era o lugar próprio das reflexões graves e dignas. Aqui, à beira da vida, havia um nichozinho dominado pelo espírito do eterno descanso.
Quando entrei, as loucuras do mundo abandonaram-me à porta. Não senti qualquer inclinação para me esforçar por uma ideia humorística sobre tal aparato sombrio e solene. O meu espírito parecia distender-se para o grato repouso num divã recamado de pensamentos delicados.
Há um quarto de hora, eu era um humorista abandonado. Agora, era um filósofo, cheio de serenidade e à-vontade. Encontrara onde me refugiar do humor, da ardente perseguição do tímido motejo, da caça degradante à piada arquejante, da inquieta busca da resposta pronta.
Não conhecia bem Heffelbower. Quando ele voltou, deixei-o falar, temendo que ele pudesse ser uma nota dissonante na doce harmonia de hino fúnebre do seu estabelecimento.
Mas não. Estava em harmonia. Dei um longo suspiro de felicidade. Nunca encontrara conversa de homem mais magnificamente maçadora do que a do Peter. Comparada com ela, o mar Morto é um gaiser. Nunca centelha ou vislumbre de graça lhe prejudicavam as palavras. Lugares-comuns, banais e abundantes como as amoras, fluíam-lhe dos lábios, causando tanta agitação como as notícias da semana passada. Um pouco trémulo, experimentei nele um dos meus ditos mais afiados. Caiu ali mesmo, sem efeito, a ponta quebrada. Passei a adorar o homem.
Duas ou três noites por semana ia discretamente ter com o Heffelbower e divertia-me à grande na sala das traseiras. Era a minha única alegria. Comecei a acordar cedo e a trabalhar rapidamente, para poder passar mais tempo no meu porto de abrigo. Era só ali que podia largar o hábito de extrair ideias humorísticas de tudo o que me rodeava. A conversa de Peter não me deixava uma única aberta, tivesse eu tentado.
Sob tal influência, o meu estado de espírito melhorou. Era a folga do trabalho, de que todo o homem precisa. Surpreendi um ou dois dos meus antigos amigos com um sorriso e uma frase alegre ao passar por eles na rua. E por vezes fiz pasmar a família quando consegui relaxar o suficiente para fazer uma observação jocosa na presença deles.
Estivera tanto tempo obcecado pelo incubo do humor que agarrava as minhas horas de folga com o brio de um rapazinho da escola.
O trabalho começou a ressentir-se. Já não era o sofrimento e o fardo que antes fora. Muitas vezes assobiava à mesa de trabalho, e escrevia com muito mais fluência. Acabava as tarefas com impaciência tão ansioso por chegar ao salutar refúgio, como um bêbedo a taberna.
A minha mulher passou horas angustiada especulando sobre onde é que eu passaria as tardes
Achei melhor não lhe dizer; as mulheres não compreendem estas coisas. Coitada! Ainda apanhou um susto.
Um dia trouxe para casa uma pega de prata de um caixao para pesa-papéis e uma pluma muito bonita e macia tirada duma essa para limpar o pó aos meus papéis.
Gostava de as ver na secretária, e pensar na adorada sala do Heffelbower. Mas Louisa encontrou-as e gritou de horror. Tive de a consolar com uma desculpa tosca mas vi nos olhos dela que o preconceito não desaparecera' E tive de tirar dali os objectos, e muito rapidamente
Um dia, Peter Heffelbower pôs-me à frente uma tentaçao que me fez tresvairar. Naquele seu modo sensato e monótono, mostrou-me os livros e explicou que os lucros e o negócio cresciam rapidamente. Pensava arranjar um sócio com algum dinheiro. Preferia-me a mim, de toda a gente que conhecia. Quando saí de casa dele nessa tarde, já o Peter tinha o cheque dos mil dólares que eu tinha no banco, e eu era sócio dele no negócio dos enterros.
Fui para casa num sentimento de alegria delirante, e uma certa dose de dúvida. Tinha pavor de contar à minha mulher. Mas ia nas nuvens. Desistir da escrita de peças humorísticas, morder mais uma vez a polpa da vida, em vez de a espremer por umas gotitas de amargo sumo, para divertir o público — que bênção!
À mesa do jantar, Louisa deu-me umas cartas que tinham chegado na minha ausência. Algumas continham manuscritos rejeitados. Desde que começara a ir a casa do Heffelbower que os meus textos vinham devolvidos com frequência alarmante. Nos últimos tempos, despachava piadas e artigos com grande fluência. Antes disso, trabalhara como quem assenta tijolo, devagar e com sofrimento.
Abri logo uma carta do editor do semanário com que tinha contrato. Ainda dependíamos em grande medida dos cheques desse artigo semanal. A carta era assim:

Exmo. Senhor
Como sabe, o nosso contrato anual expira este mês. Embora lamentando a necessidade de o fazer, temos a dizer que não queremos renovar o contrato para o próximo ano. Estávamos muito satisfeitos com o seu estilo de humor, que parece ter deliciado uma grande quantidade de leitores.
Mas nos últimos dois meses observámos uma nítida queda na sua qualidade. Os seus primeiros trabalhos demonstravam uma corrente espontânea, fácil e natural de humor e de graça. Ultimamente, ele é trabalhado, artificial epouco convincente, prova dolorosa de trabalho árduo e repetitivo.
Lamentando mais uma vez não poder continuar a aceitar as suas contribuições, somos sinceramente
O Editor

Entreguei a carta à minha mulher. Leu-a e ficou com uma cara tristíssima e de lágrimas nos olhos.
— Malvado do velho! — disse, indignada. — As tuas peças são tão boas como eram. E não te levam nem metade do tempo a fazer.
Depois, acho eu, Louisa deve ter pensado nos cheques que iam acabar.
— Oh, John — gemeu ela o que é que vais fazer? Em resposta, levantei-me e pus-me a dançar a polka à roda da mesa. Louisa deve ter pensado que a preocupação me enlouquecera; e as crianças devem ter tido esperança de que assim fosse, porque se lançaram atrás de mim exultantes, imitando os meus passos. Agora já me parecia mais com o companheiro de brincadeira que antes fora.
— Hoje vamos todos ao teatro! — gritei. — Nada menos. E ceamos tarde, como loucos, e portamo-nos mal no restaurante Palace. Olari-lari-lolela!
E depois expliquei a minha alegria dizendo que era sócio de uma próspera agência funerária e que os artigos humorísticos podiam bem ir enfiar a cabeça em sacos de serapilheira ou enterrar-se nas cinzas, a ver se eu me ralava. Com a carta do editor na mão para justificar o que eu fizera, a minha mulher não pôde avançar com nenhuma objecção, fora algumas, mas brandas, e baseadas na incapacidade feminina para apreciar uma coisa tão boa como a sala das traseiras de Peter Hef-não, de Heffelbower & Cia, Agência Funerária.
Em conclusão, direi que hoje não encontram nesta cidade homem mais amado, jovial, cheio de ditos espirituosos, do que eu. As minhas piadas são novamente faladas e citadas; voltei a ter prazer nas confidências da minha mulher sem um pensamento mercenário, enquanto Guy e Viola brincam a meus pés, espalhando pérolas de humor infantil sem medo do homem medonho que as atormentava e perseguia como um cão, de bloco de notas em punho.
O negócio floresceu muito. Faço a contabilidade e tomo conta da agência, enquanto Peter trata das coisas no exterior. Diz que a minha ligeireza e bom humor haviam de tornar qualquer funeral num verdadeiro pandemônio.

O. Henry, «Confissões de um Humorista» in Ficçõesde humor. Revista de contos, Lisboa,Tinta Permanente, [2003], pp. 37-41. (Tradução de Luísa Costa Gomes)

677. Livro perdido


sexta-feira, 5 de outubro de 2012

676. Para desobedecer basta uma vez


Margarida atingira os seus cinco anos. Uma idade fácil para as crianças, é aquela idade em que basta mostrar a mão aberta para dizer há quanto tempo calcorreia este mundo inabitado por Deus. Margarida mostrava os seus cinco dedinhos com orgulho: já vivera uma mão inteira, com as falanges, falanginhas e falangetas todas incluídas.
— Que idade tens tu? — perguntavam-lhe.
E ela mostrava a mão, com a palma para fora, evidenciando toda a quiromancia que tinha vincada em linhas sinuosas. O que ela mostrava era um mapa, escrito em linhas de grande fatalidade.
— O carro do Sol já deu cinco voltas à minha volta — dizia a pequena Margarida, com o mapa da mãozinha virado para a assistência.
A idade de uma criança ainda é um fenómeno mitológico. Fenómeno que se perde com a adolescência. A partir de certa altura a cronologia passa a ser um número sem qualidades metafísicas. Os deuses greco-romanos perdem protagonismo e acabam por ser substituídos por leis físicas, por sebentas aos quadrados e, fatalmente, por um bilhete de identidade.
E tal como certo e determinado bom Deus advertiu os seus filhos, Adão e Eva, a não comerem do fruto proibido pois este traria a morte certa, Celeste advertia a própria filha: o armário da casa de banho não é para mexer, os frutos que há lá dentro trazem a morte certa. Margarida ouvia e obedecia a maior parte das vezes, porque para obedecer é preciso obedecer o tempo todo, já para desobedecer basta um momento, basta uma vez. Mas a curiosidade era muita: Quem era Deus, como nasceram as girafas que demoraram milhões de anos a esticar o pescoço, e o que era aquilo dentro do armário da casa de banho?, interrogava-se a menina. Com cinco anos já era perfeitamente capaz de questionar pescoços compridos e de subir a um banco, de abrir o dito armário que continha o fruto proibido. Um dia, a pequena Margarida fez o mesmo que Eva fez: esticou-se — não precisou de tanto tempo como uma girafa para chegar às coisas mais altas —, tirou o frasco de barbitúricos coloridos que cresciam na árvore do Éden e engoliu-os. Para desobedecer basta uma vez. Para obedecer é que tem de ser o tempo todo. A morte, tal como o bom Deus sugeriu, foi certa. Margarida tinha perdido os seus cinco anos, o seu mapa, as suas falanges, falanginhas e falangetas. A morte leva tudo e esta é especialmente eficaz, esta que se esconde em frutos coloridos (tal como Deus se esconde numa hóstia), em comprimidos que salvam a vida e são igualmente capazes de a tirar.
A natureza abomina o vazio, ou dito numa língua morta: natura abhorret vacuum. Mas que ele existe, existe. Parece que o Nada, a existir, deixa de ser Nada para ser alguma coisa. A natureza não gosta de espaços vazios e preenche-os como um burocrata preenche requerimentos.
Não deixa buracos em lado nenhum. Mesmo os lugares mais rarefeitos, como o espaço sideral e a estupidez humana, são preenchidos por alguma coisa: luz, metais leves, preconceitos, partículas e subpartículas dos átomos, radiações, chavões e telenovelas. A natureza enche chouriços, não há espaço vazio nas suas tripas. Um homem olha à sua volta e não encontra nada que não esteja já ocupado. Assim pensam os homens com a razão e a lógica que se passeia nos interstícios dos seus cérebros cinzentos, nessas dobras confusas que se assemelham a um intestino redondo ou a uma noz. Mas os homens que pensam com os sentimentos, têm outra lógica a nadar-lhes nas veias e artérias. Esses acreditam no vazio porque o vêem a toda a hora dentro de si.
O professor Borja e Celeste passaram a acreditar nesse Nada. O espaço deixado pelo desaparecimento da filha não fora ocupado pela natureza (essa natureza que abomina o vazio e, no entanto, é incapaz de preencher o Nada que a morte deixa). Há muita incompetência na forma como a natureza preenche os espaços, falta-lhe capacidade para se alojar nos lugares metafísicos. O professor Borja desejaria poder preencher o seu vazio com radiações, partículas e subpartículas do átomo, lugares-comuns ou mesmo telenovelas mexicanas, mas nada entra nesse espaço de dor. O adágio em latim, natura abhorret vacuum, essa frase que diz que a natureza não gosta nada do vazio, deveria ser outro: natura latinam linguam non loquitur, ou seja, a natureza não percebe de nada de latim.
Celeste interrogava-se sobre se Deus teria sofrido tanto quanto ela. Questionava se Deus, depois da desobediência dos seus filhos, se teria agachado na casa de banho do Céu, seco pelas lágrimas mais intensas que se pode chorar, e arrancado os cabelos (que estão todos contados). Ou teria Ele vivido sem culpas, com a justificação do livre-arbítrio, esse engodo fatal?
Para Celeste haveria alguma desculpa possível? Ela sentia que não. Deus tinha a Teologia a suportar os seus erros, o livre-alvedrio conveniente e um advogado como Santo Agostinho, mas ela só tinha um cônjuge paralelo a si mesmo. Celeste, incapaz de viver com aquela tragédia que se desenrolava na sua alma, deixou o marido. E fê-lo exactamente da mesma maneira que Margarida havia usado para deixar os pais, saiu pela mesma porta que a filha usara: comendo e mastigando os frutos proibidos e coloridos da casa de banho. O professor Borja encontrou um cadáver nas lajes brancas do chão, junto à retrete. Uma Celeste morta, morta exactamente da mesma maneira que Margarida. Utilizaram ambas a mesma porta aberta. A mãe seguia a filha, o passado seguia o futuro. Era o tempo a andar para trás, desordeiro e marginal. Celeste derramada nas lajes brancas, com a língua de fora cheia de comprimidos coloridos, os dentes pequeninos tingidos de azul, laranja, vermelho, verde, uma Celeste cheia de dor. Junto dela não havia um bilhete sequer, uma nota suicida. Não havia nada. Havia Nada.
Evidentemente que, dentro do professor, passaram a habitar dois vazios. Se a natureza tem horror a um vazio, imagine-se dois a coexistir no mesmo lugar. O vazio tem destas coisas, não ocupa espaço, por isso no mesmo lugar podem coabitar inúmeros vazios sem que o peito de um homem se assemelhe a uma praia no Verão.
É conhecido o facto de que a determinada altura da evolução precisámos de cérebros maiores. Cabeças maiores eram necessárias para albergar o grande órgão da nossa tragédia e da nossa glória. Cabeças maiores, maior a dor de parto. Não é fácil parir, nem para quem nasce nem para quem dá à luz. Cá está a dor de ser cabeçudo, de ter um órgão para saber e aprender. Cá está a dor do saber, já cravada na infância para memória futura. A utilização do cérebro é um processo doloroso. Esta hipertrofia da cabeça dá-nos uma grande capacidade para mentir a nós mesmos. E darás à luz com muitas dores, foi-nos dito depois de experimentarmos o fruto do conhecimento, da árvore da ciência do bem e do mal. O professor Borja aprendeu a mentir a si mesmo, voltou a sua cabeça para a Ciência e para o misticismo que a acompanha sempre que o cientista é sério. Enfim, aprendeu a disfarçar os buracos do seu peito com uma camisola fora de moda e umas teorias geométricas, sociopolíticas e históricas.
A vida do professor foi, então, avançando com lentidão, solitária, virada para apenas um lado do telescópio, o espaço sideral, sem perceber que, quando se olha através dele, é ao espelho que nos vemos: não existem buracos negros no espaço sideral, algures a milhares de anos-luz da Terra. Esses buracos negros que vemos ao telescópio são os mesmos que não conseguimos ver dentro de nós.

Afonso Criz, Jesus Cristo bebia Cerveja, pp. 138-140

676. A Loucura

— O que é que andas a fazer com esse maluco?
— Sabe, sargento, a loucura, quando dá a um grande número de pessoas, chama-se sociedade contemporânea. Quando dá a uma pessoa só, interna-se essa pessoa. O Alípio não tem a normalidade, ou boçalidade, de muitos, mas não é por isso...

Afonso Cruz, Jesus Cristo Bebia Cerveja, p.118

675. Gafiel e a leitura


674. Morte

De cada vez que deixamos de ser percebidos, morremos. Quando somos enterrados deixamos de ser percebidos por toda a gente, mas quando os outros já não olham para nós, ficaram condenados para um número limitado de pessoas, a uma morte em tudo idêntica à outra. A nossa morte não acontece quando somos enterrados, acontece continuamente: os dentes caem, os joelhos solidificam, a pele engelha-se, os amigos partem. Tudo isso é a morte. O momento final é apenas isso, um momento.

Afonso Cruz, Jesus Cristo Bebia Cerveja,pp. 89-90

673. O Grito

Edvard Munch, O Grito
Quando temos pessoas para nos ouvir não precisamos de gritar, pois não? 

Afonso Cruz, Jesus Cristo Bebia Cerveja, p.87

672. OA Lisonja e o Ego

— Usa-se a lisonja para encher o ego — responde ela. — Este torna-se obeso, as artérias entopem, e o ego acaba por morrer de forma fulminante. É nessa altura que o Eu superior se manifesta.

Afonso Cruz, Jesus Cristo Bebia Cerveja, p.60

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

671. O Peso do passado

— As árvores que caíram na Primavera ainda se ouvem no Outono - disse, quando voltou a abrir os olhos. — Ninguém sabe abandonar o seu passado, como fazem as cobras com a pele. Nós somos antigos, não deixamos nunca de cair, porque à medida que o nosso passado se torna maior, mais pesados nos tornamos, cada vez mais incapazes de voar. Quando um homem cai, ouve-se para sempre. É por isso que precisamos de morrer, para nos livrarmos desse passado todo, para podermos ser livres como as nuvens.

Afonso Cruz, A Morte não Ouve o Piaista

670. Visitação

Pintura de Mel Odon
Quando a porta se abriu,
perguntaste quem era.

Não se pergunta ao amor
que nome tem.

Albano Martins, Escrito a Vermelho

sábado, 29 de setembro de 2012

669. Casa

− Não sei onde é que as lesmas sempre vão, avó.
− Vão pra casa, filho.
− Tantas vezes de um lado para o outro?
− Uma casa está em muitos lugares − ela respirou devagar, me abraçou. − É uma coisa que se encontra.

Ondjaki, Os da minha rua, Alfragide, Bisleya, 2009, p. 114

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

667. Os Livros

Estais ouvindo o alarido que fazem esses livros? Falam ao mesmo tempo em todas as línguas. Discutem sobre tudo: Deus, a natureza, o homem, o tempo, o espaço,o bem, o mal, o conhecido e o desconhecido. Examinam tudo, contestam tudo, afirmam tudo, negam tudo. Raciocinam e divagam. Uns são graves, outros frívolos; uns são alegres, outros tristes; uns são prolixos, outros, concisos. São 800 mil nesta sala, e não há dois deles que pensem exatamente da mesma forma

Anatole France, As sete mulheres de Barba Azul