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terça-feira, 19 de junho de 2012

591. Leitura

Ilustração de Patricia Metola

591. Poesia

Quando mulheres de pestanas longas (continuou o senhor Breton), e homens de coração saltitante dizem que a poesia é o seu alimento, vê-se bem que nunca passaram fome. Mas isto seria outra conversa. Não falemos do fundamental, falemos de poesia.
E na poesia há um outro lado desta questão que é o seguinte: um verso não tem currículo. Isto é: parece-me que um verso, quando é forte e bom, vem sem mais nada atrás, sem percurso; surge do zero. É muito e grande durante o instante em que existe nos nossos olhos e na nossa cabeça, e depois desaparece.

Gonçalo M. Tavares, O Senhor Breton

segunda-feira, 18 de junho de 2012

590. Ler

Berthe Morisot,  
Portrait of the Artist's Daughter Julie Manet at Gorey

Quando lemos, tornamo-nos antes de qualquer coisa especialistas em vida. Adquirimos uma riqueza que não está apenas no acesso às ideias, mas também no conhecimento do ser humano em toda a sua diversidade.

Tzvetan Todorov

domingo, 17 de junho de 2012

589. O Tempo Vale Muito Mais do que o Dinheiro

Perder tempo não é como gastar dinheiro. Se o tempo fosse dinheiro, o dinheiro seria tempo.
Não é. O tempo vale muito mais do que o dinheiro. Quando morremos, acaba-se o tempo que tivemos. Quando morremos, o que mais subsiste e insiste é a quantidade de coisas que continuam a existir, apesar de nós.
O nosso tempo de vida é a nossa única fortuna. Temos o tempo que temos. Depois de ter acabado o nosso tempo, não conseguimos comprar mais. Quando morreu o meu pai, foi-se com ele todo o tempo que ele tinha para passar connosco. As coisas dele ficaram para trás. Sobreviveram. Eram objectos. Alguns tinham valor por fazer lembrar o tempo que passaram com ele - a régua de arquitecto naval, os relógios - quando ele tinha tempo.
As pessoas dizem «time is money» para apressar quem trabalha. A única maneira de comprar tempo é de precisar de menos dinheiro para viver, para poder passar menos tempo a ganhá-lo. E ficar com mais tempo para trabalhar no que dá mais gosto e para ter o luxo indispensável de poder perder tempo, a fazer ninharias e a ser-se indolente.
A ideologia dominante de aproveitar bem o tempo impede-nos de perder esses tempos. Quando penso no meu pai, todas as minhas saudades são de momentos que perdi com ele. Uma noite, numa cabana no Canadá, confessou-me que o único filme de que gostava era «Um Peixe Chamado Wanda«. Todos os outros eram uma perda de tempo. Perdemos a noite inteira a falarmos e a rirmo-nos disso. Ainda hoje tem graça.

Miguel Esteves Cardoso, Jornal Público (26.11..2011)'

588.Como eu queria

Cleo Andrea Cleopazzo, Amor Sussurrato
Quero ler-te
Lentamente
Verso a verso
Como se fosses poesia

Quero sentir-te
Lentamente
Gota a gota
Como se fosses maresia

Respirares-me
Boca a boca
Lentamente

Como eu queria.


José Gabriel Duarte, No Outro Lado de Mim (a publicar)

via Quem lê Sophia de mello Breyner Andresen

587. Ao espreitar pelas janelas dos teus olhos,

 JOSÉ GABRIEL DUARTE, in NO OUTRO LADO DE MIM (a publicar)


Ao espreitar pelas janelas dos teus olhos,
fico a saber se ainda tenho espaço dentro de ti …

José Gabriel Duarte, No Outro Lado de Mim (a publicar)

via Quem lê Sophia de mello Breyner Andresen

586. Balada das dez bailarinas do cassino

With the muses, aguarela de Donna Mulholland 

Dez bailarinas deslizam
por um chão de espelho.
Têm corpos egípcios com placas douradas,
pálpebras azuis e dedos vermelhos.
Levantam véus brancos, de ingênuos aromas,
e dobram amarelos joelhos.

Andam as dez bailarinas
sem voz, em redor das mesas.
Há mãos sobre facas, dentes sobre flores
e com os charutos toldam as luzes acesas.
Entre a música e a dança escorre
uma sedosa escada de vileza.

As dez bailarinas avançam
como gafanhotos perdidos.
Avançam, recuam, na sala compacta,
empurrando olhares e arranhando o ruído.
Tão nuas se sentem que já vão cobertas
de imaginários, chorosos vestidos.

As dez bailarinas escondem
nos cílios verdes as pupilas.
Em seus quadris fosforescentes,
passa uma faixa de morte tranqüila.
Como quem leva para a terra um filho morto,
levam seu próprio corpo, que baila e cintila.

Os homens gordos olham com um tédio enorme
as dez bailarinas tão frias.
Pobres serpentes sem luxúria,
que são crianças, durante o dia.
Dez anjos anêmicos, de axilas profundas,
embalsamados de melancolia.

Vão perpassando como dez múmias,
as bailarinas fatigadas.
Ramo de nardos inclinando flores
azuis, brancas, verdes, douradas.
Dez mães chorariam, se vissem
as bailarinas de mãos dadas.

Cecília Meireles

585. Leitura

Ilustração de Selçuk Demirel

584. Amar

O pássaro, de Marcos Andruchak
 Amar é ter um pássaro pousado no dedo.
Quem tem um pássaro pousado no dedo sabe que,
a qualquer momento, ele pode voar

Rubem Alves

583. Bibliotecário


sábado, 16 de junho de 2012

582. Ler e viajar

Ler proporciona-nos um lugar para onde ir quando temos de ficar onde estamos.

(Mason Cooley)

No original: Reading gives us someplace to go when we have to stay where we are.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

581. Motivo da rosa

Ilustração de Daria Palotti
Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.

Rosas verá, só de cinzas franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim.

Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.

E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.

Cecília Meireles


quinta-feira, 14 de junho de 2012

580. Bravo! Excelente ideia!

Como não tinha prática em não concordar consigo próprio, as primeiras palavras que lhe saíram, foram:
- Bravo! Excelente ideia!

Gonçalo M. Tavares, O Senhor Kraus

quarta-feira, 13 de junho de 2012

579. Nas Ondas do Mar

Nas ondas da praia
Nas ondas do mar
Quero ser feliz
Quero me afogar.

Nas ondas da praia
Quem vem me beijar?
Quero a estrela-d'alva
Rainha do mar.

Quero ser feliz
Nas ondas do mar
Quero esquecer tudo
Quero descansar.

Manuel Bandeira

578. Anatomia de um leitor