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sábado, 7 de janeiro de 2012
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
288. O Amor em Portugal
por Miguel Esteves Cardoso
Mesmo que Dom Pedro não tenha arrancado e comido o coração do carrasco de Dona Inês, Júlio Dantas continua a ter razão: é realmente diferente o amor em Portugal. Basta pensar no incómodo fonético de dizer «Eu amo-o» ou «Eu amo-a». Em Portugal aqueles que amam preferem dizer que estão apaixonados, o que não é a mesma coisa, ou então embaraçam seriamente os eleitos com as versões estrangeiras: «I love you» ou «Je t'aime». As perguntas «Amas-me?» ou «Será que me amas?» estão vedadas pelo bom gosto, senão pelo bom senso. Por isso diz-se antes «Gostas mesmo de mim?», o que também não é a mesma coisa.
O mesmo pudor aflige a palavra amante, a qual, ao contrário do que acontece nas demais línguas indo-europeias, não tem em Portugal o sentido simples e bonito de «aquele que ama, ou é amado». Diz-se que não sei-quem é amante de outro, e entende-se logo, maliciosamente, o biscate por fora, o concubinato indecente, a pouca vergonha, o treco-lareco machista da cervejaria, ou o opróbio galináceo das reuniões de «tupperwares» e de costura.
Amoroso não significa cheio de amor, mas sim qualquer vago conceito a leste de levemente simpático, porreiro, ou giríssimo. Quem disser «a minha amada» — ou, pior ainda, «o meu amado» — arrisca-se a não chegar ao fim da frase, tal o intenso e genuíno gáudio das massas auditoras em alvoroço. Amável nunca quer dizer «capaz de ser amado», e, para cúmulo, utiliza-se quase sempre no pretérito («Você foi muito amável em ter-me convidado para a inauguração da sua Croissanterie»). Finalmente um amor é constantemente aviltado na linguagem coloquial, podendo dizer-se indistintamente de escovas de dentes, contínuos que trazem os cafés a horas, ou casinhas de emigrantes. (O que está a acontecer com o adjectivo querido constitui, igualmente, uma das grandes tragédias da nossa idade.)
Talvez a prática mais lastimavelmente absurda, muito usada na geração dita eleita, seja aquela de chamar amigas às namoradas. Isto porque os portugueses, raça danada para os eufemismos, também têm vergonha das palavras namorado e namorada. Quando as apresentam a terceiros, nunca dizem «Esta é a Suzy, a minha namorada» — dizem sempre «Esta é uma amiga minha, a Suzy», transmitindo a implícita noção, muito cara ao machismo lusitano, de que se trata de uma entre muitas. E, também assim, como se não lhes bastasse dar cabo do Amor, vão contribuindo para o ajavardamento semântico da Amizade.
Isto tudo em público — claro — porque, em particular, a sós, funciona a síndrome plurissecular do «só-nós-dois-é-que-sabemos» e os portugueses tornam-se pinga-amores ao ponto de se lhes aconselhar vivamente a utilização de coleiras de esponja muito grossa. Nisto, o sexo forte é bastante mais vira-casacas que o fraco. Em público, são as amigas, o Guincho, os drinques e as apreciações estritamente boçais do sexo oposto. Dêem-lhes, porém, cinco minutos a sós com a suposta «amiga» e depressa verão todos os índices aceitáveis de pieguice, choraminguice e «love-and-peace» babosa e radicalmente ultrapassados; ao ponto de fazer confundir a Condessa de Segur com Joseph Conrad. As infelizes «amigas» reprimem com louvável estoicismo o enjoo, e aconselham-lhes a moderação. As mais estúpidas não compreendem e vão depois dizer às amigas que os namorados têm feitios muito complexos, porque quando estão acompanhados, são uns brutos do bilhar grande, e quando estão sozinhos transformam-se em donzelas delicodoces, inexplicavelmente ainda mais nauseabundas do que elas.
A retracção épica a que os portugueses se forçam no uso próprio das palavras do amor, quando o contexto é minimamente público, parece atirá-los ilogicamente, para uma confrangedora catarse de lamechices cada vez que se encontram sós com quem amam. Dizer «Eu amo-te» é dizer algo que se faz. Dizer «Eu tenho uma grande paixão por ti» é bastante menos do que isso — é apenas algo que se tem, mais exterior e provisório. Os portugueses, aliás, sempre preferiram a passividade fácil do «ter» à actividade, bastante mais trabalhosa, do «fazer».
A confusão do amar com o gostar, do amor com a paixão, e do afecto, tornam muito difícil a condição do amante em Portugal. Impõe-se rapidamente o esclarecimento de todos estes imbróglios. Que bom que seria poder dizer «Estou apaixonado por ela, mas não a amo», ou «já não gosto de ti, embora continue apaixonado» ou «Apresento-te a minha namorada», ou «Ele é tão amável que não se consegue deixar de amá-lo». Estas distinções fazem parte dos divertimentos sérios das outras culturas e, para podermos divertirmo-nos e fazê-las também, é urgente repor o verbo «amar» em circulação, deixar-mo-nos de tretas, e assim aliviar dramaticamente o peso oneroso que hoje recai sobre a desgraçada e malfadada paixão.
Miguel Esteves Cardoso, A Causa das Coisas
Mesmo que Dom Pedro não tenha arrancado e comido o coração do carrasco de Dona Inês, Júlio Dantas continua a ter razão: é realmente diferente o amor em Portugal. Basta pensar no incómodo fonético de dizer «Eu amo-o» ou «Eu amo-a». Em Portugal aqueles que amam preferem dizer que estão apaixonados, o que não é a mesma coisa, ou então embaraçam seriamente os eleitos com as versões estrangeiras: «I love you» ou «Je t'aime». As perguntas «Amas-me?» ou «Será que me amas?» estão vedadas pelo bom gosto, senão pelo bom senso. Por isso diz-se antes «Gostas mesmo de mim?», o que também não é a mesma coisa.
O mesmo pudor aflige a palavra amante, a qual, ao contrário do que acontece nas demais línguas indo-europeias, não tem em Portugal o sentido simples e bonito de «aquele que ama, ou é amado». Diz-se que não sei-quem é amante de outro, e entende-se logo, maliciosamente, o biscate por fora, o concubinato indecente, a pouca vergonha, o treco-lareco machista da cervejaria, ou o opróbio galináceo das reuniões de «tupperwares» e de costura.
Amoroso não significa cheio de amor, mas sim qualquer vago conceito a leste de levemente simpático, porreiro, ou giríssimo. Quem disser «a minha amada» — ou, pior ainda, «o meu amado» — arrisca-se a não chegar ao fim da frase, tal o intenso e genuíno gáudio das massas auditoras em alvoroço. Amável nunca quer dizer «capaz de ser amado», e, para cúmulo, utiliza-se quase sempre no pretérito («Você foi muito amável em ter-me convidado para a inauguração da sua Croissanterie»). Finalmente um amor é constantemente aviltado na linguagem coloquial, podendo dizer-se indistintamente de escovas de dentes, contínuos que trazem os cafés a horas, ou casinhas de emigrantes. (O que está a acontecer com o adjectivo querido constitui, igualmente, uma das grandes tragédias da nossa idade.)
Talvez a prática mais lastimavelmente absurda, muito usada na geração dita eleita, seja aquela de chamar amigas às namoradas. Isto porque os portugueses, raça danada para os eufemismos, também têm vergonha das palavras namorado e namorada. Quando as apresentam a terceiros, nunca dizem «Esta é a Suzy, a minha namorada» — dizem sempre «Esta é uma amiga minha, a Suzy», transmitindo a implícita noção, muito cara ao machismo lusitano, de que se trata de uma entre muitas. E, também assim, como se não lhes bastasse dar cabo do Amor, vão contribuindo para o ajavardamento semântico da Amizade.
Isto tudo em público — claro — porque, em particular, a sós, funciona a síndrome plurissecular do «só-nós-dois-é-que-sabemos» e os portugueses tornam-se pinga-amores ao ponto de se lhes aconselhar vivamente a utilização de coleiras de esponja muito grossa. Nisto, o sexo forte é bastante mais vira-casacas que o fraco. Em público, são as amigas, o Guincho, os drinques e as apreciações estritamente boçais do sexo oposto. Dêem-lhes, porém, cinco minutos a sós com a suposta «amiga» e depressa verão todos os índices aceitáveis de pieguice, choraminguice e «love-and-peace» babosa e radicalmente ultrapassados; ao ponto de fazer confundir a Condessa de Segur com Joseph Conrad. As infelizes «amigas» reprimem com louvável estoicismo o enjoo, e aconselham-lhes a moderação. As mais estúpidas não compreendem e vão depois dizer às amigas que os namorados têm feitios muito complexos, porque quando estão acompanhados, são uns brutos do bilhar grande, e quando estão sozinhos transformam-se em donzelas delicodoces, inexplicavelmente ainda mais nauseabundas do que elas.
A retracção épica a que os portugueses se forçam no uso próprio das palavras do amor, quando o contexto é minimamente público, parece atirá-los ilogicamente, para uma confrangedora catarse de lamechices cada vez que se encontram sós com quem amam. Dizer «Eu amo-te» é dizer algo que se faz. Dizer «Eu tenho uma grande paixão por ti» é bastante menos do que isso — é apenas algo que se tem, mais exterior e provisório. Os portugueses, aliás, sempre preferiram a passividade fácil do «ter» à actividade, bastante mais trabalhosa, do «fazer».
A confusão do amar com o gostar, do amor com a paixão, e do afecto, tornam muito difícil a condição do amante em Portugal. Impõe-se rapidamente o esclarecimento de todos estes imbróglios. Que bom que seria poder dizer «Estou apaixonado por ela, mas não a amo», ou «já não gosto de ti, embora continue apaixonado» ou «Apresento-te a minha namorada», ou «Ele é tão amável que não se consegue deixar de amá-lo». Estas distinções fazem parte dos divertimentos sérios das outras culturas e, para podermos divertirmo-nos e fazê-las também, é urgente repor o verbo «amar» em circulação, deixar-mo-nos de tretas, e assim aliviar dramaticamente o peso oneroso que hoje recai sobre a desgraçada e malfadada paixão.
Miguel Esteves Cardoso, A Causa das Coisas
283. O Primeiro Dia
por Sérgio Godinho
A principio é simples, anda-se sózinho
Passa-se nas ruas bem devagarinho
Está-se bem no silêncio e no borborinho
Bebe-se as certezas num copo de vinho
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
Dá-se a volta ao medo, dá-se a volta ao mundo
Diz-se do passado, que está moribundo
Bebe-se o alento num copo sem fundo
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
E é então que amigos nos oferecem leito
Entra-se cansado e sai-se refeito
Luta-se por tudo o que se leva a peito
Bebe-se, come-se e alguém nos diz: bom proveito
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja
Olha-se para dentro e já pouco sobeja
Pede-se o descanso, por curto que seja
Apagam-se dúvidas num mar de cerveja
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Enfim duma escolha faz-se um desafio
Enfrenta-se a vida de fio a pavio
Navega-se sem mar, sem vela ou navio
Bebe-se a coragem até dum copo vazio
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
E entretanto o tempo fez cinza da brasa
E outra maré cheia virá da maré vaza
Nasce um novo dia e no braço outra asa
Brinda-se aos amores com o vinho da casa
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.
A principio é simples, anda-se sózinho
Passa-se nas ruas bem devagarinho
Está-se bem no silêncio e no borborinho
Bebe-se as certezas num copo de vinho
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
Dá-se a volta ao medo, dá-se a volta ao mundo
Diz-se do passado, que está moribundo
Bebe-se o alento num copo sem fundo
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
E é então que amigos nos oferecem leito
Entra-se cansado e sai-se refeito
Luta-se por tudo o que se leva a peito
Bebe-se, come-se e alguém nos diz: bom proveito
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja
Olha-se para dentro e já pouco sobeja
Pede-se o descanso, por curto que seja
Apagam-se dúvidas num mar de cerveja
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Enfim duma escolha faz-se um desafio
Enfrenta-se a vida de fio a pavio
Navega-se sem mar, sem vela ou navio
Bebe-se a coragem até dum copo vazio
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
E entretanto o tempo fez cinza da brasa
E outra maré cheia virá da maré vaza
Nasce um novo dia e no braço outra asa
Brinda-se aos amores com o vinho da casa
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
282. Segredo
por Maria Tereza Horta
Segredo
Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça
nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa
Deixa que feche o
anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço
Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar
nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar
***
25 de Abril, poesia e "O Segredo"
por Luísa Costa Hölzl
Quando ligamos o 25 de Abril à poesia logo vêm à baila os poemas musicados de Zeca Afonso. Eles não foram só prenúncio de grandes mudanças, como, com "Grândola, Vila Morena", sinal concreto para a saída da Revolução. E depois, nos meses que se seguiram, esses poemas animaram multidões em festa e, na óptica de hoje, talvez mesmo em transe.
Agora, em 2009, para festejar os 35 anos do 25 de Abril, quero lembrar aqui uma outra poesia, não tão estrondosa, não tão popular como Os vampiros ("eles comem tudo, eles comem tudo") ou o Menino do Bairro Negro, mas, à sua maneira, um marco na escrita feminina do tempo da "outra senhora" que, não por acaso, era época de senhores e só deles.
Maria Teresa Horta, nascida em 1937 e fazendo parte do grupo "Poesia 61" publicou em 1972 o livro de poemas "Minha Senhora de Mim", demonstrando logo no título insubordinação à ideologia vigente de Deus, Pátria e Família. Quem assim se dizia senhora de si rebelava contra quem nela queria mandar, assumia ela o poder, no seu modo de pensar e de reflectir, na vida social e política, na escrita e no amor. O poema que escolhi chama-se "Segredo" e vai-nos revelar, ao arrepio do título, toda uma programática de escrita e vida que, para a censura de então, justificava a apreensão destes poemas, o que de facto aconteceu. E se o livro não andava nas bancas, talvez passasse de mão em mão, tomasse o seu caminho nos meios literários e intelectuais e, muito subtilmente, ia mudando mentalidades e comportamentos.
Nestas cinco estrofes, quatro de três versos cada a emoldurarem uma sextilha, há um eu claramente feminino, pois fala logo ao princípio "do meu / vestido / que tiro pela cabeça". Como leitores assistimos a uma cena que parece preparar um encontro amoroso. Mas não um encontro amoroso que ao longo dos séculos os poetas-homens haviam descrito - o enamoramento, a paixão platónica, o serviço à senhora distante - antes um encontro bem concreto de dois amantes e a vivência do amor físico. O eu feminino é que aqui age: despe a roupa, corre as cortinas para criar intimidade, envolve o pescoço do amante com as suas pernas e usa ambos os corpos ("sombra do meu poço", "novelo" e "roca de fiar" são imagens bem plásticas para os órgãos sexuais) procurando e dando prazer: "a fim de te ouvir gritar". Extraordinário aqui é o facto de se instituir um eu feminino que não só age com autonomia como dá ordens a um tu: "não contes" e "deixa que". O eu pede ou melhor, ordena que o tu guarde segredo e nesta fala revela o que de facto está a fazer. Essa cortina que ela corre afinal não vai calar o que se passa atrás dela. A mulher age e, ao pedir ao amante que não conte nada, assume ela a voz que, sem rodeios, conta e canta o amor erótico. Não só ela parece tomar a iniciativa no espaço íntimo da vivência amorosa, como - e isso ainda me surge mais revelador - se torna ela a dona da escrita. E, se algumas dezenas de anos antes, Florbela Espanca havia exprimido o desejo veemente: "Eu quero amar, amar perdidamente", aqui a voz além de transformar a passividade secular feminina em actividade, descreve esta sem pejo. E o tu masculino terá de calar a sua experiência porque agora é ela que fala! A "sombra espessa" do espaço e "a sombra do meu poço" são afinal expostas às claras, numa revelação subtil a querer contrariar o próprio título do poema: o segredo deixa de o ser. Subvertidas aparecem palavras como cortinados, anel, novelo ou roca de fiar, todas elas numa acepção concreta referindo-se ao lugar destinado à mulher desde sempre: os cortinados que resguardavam "a casa portuguesa", o anel que selava o casamento sobre o qual se alicerçava a sociedade de então, novelo e roca representavam o trabalho caseiro e os lavores femininos, sinais visíveis da dona de casa exemplar. Estes sinais sofrem aqui uma transformação transgressora, para a época no mínimo escandalosa, pois invertem valores instituídos e não questionados, que, aplicados numa conotação erótica e sexual, contestam não só a ideologia vigente como toda a sociedade.
Sociedade que irá levar com o 25 de Abril de 1974 uma reviravolta a todos os níveis: na moral, nos comportamentos, nos afectos, nas artes. Por isso subsiste neste pequeno poema de 1972 uma chama revolucionária que quer iluminar o corpo feminino e o corpo do texto: ambos se vão libertar de grilhões seculares e arrogar-se voz e presença. Neste sentido, este poema e muitos outros de Maria Teresa Horta assim como muitos textos de outras vozes femininas de então, fizeram, ao transgredirem e subverterem a ordem moral do Portugal de então, fizeram, repito, também eles (os textos!) e ELAS (as escritoras!) o 25 de Abril.
Fonte: Nova Cultura (acedido em 5-01-2012)
Quando ligamos o 25 de Abril à poesia logo vêm à baila os poemas musicados de Zeca Afonso. Eles não foram só prenúncio de grandes mudanças, como, com "Grândola, Vila Morena", sinal concreto para a saída da Revolução. E depois, nos meses que se seguiram, esses poemas animaram multidões em festa e, na óptica de hoje, talvez mesmo em transe.
Agora, em 2009, para festejar os 35 anos do 25 de Abril, quero lembrar aqui uma outra poesia, não tão estrondosa, não tão popular como Os vampiros ("eles comem tudo, eles comem tudo") ou o Menino do Bairro Negro, mas, à sua maneira, um marco na escrita feminina do tempo da "outra senhora" que, não por acaso, era época de senhores e só deles.
Maria Teresa Horta, nascida em 1937 e fazendo parte do grupo "Poesia 61" publicou em 1972 o livro de poemas "Minha Senhora de Mim", demonstrando logo no título insubordinação à ideologia vigente de Deus, Pátria e Família. Quem assim se dizia senhora de si rebelava contra quem nela queria mandar, assumia ela o poder, no seu modo de pensar e de reflectir, na vida social e política, na escrita e no amor. O poema que escolhi chama-se "Segredo" e vai-nos revelar, ao arrepio do título, toda uma programática de escrita e vida que, para a censura de então, justificava a apreensão destes poemas, o que de facto aconteceu. E se o livro não andava nas bancas, talvez passasse de mão em mão, tomasse o seu caminho nos meios literários e intelectuais e, muito subtilmente, ia mudando mentalidades e comportamentos.
Nestas cinco estrofes, quatro de três versos cada a emoldurarem uma sextilha, há um eu claramente feminino, pois fala logo ao princípio "do meu / vestido / que tiro pela cabeça". Como leitores assistimos a uma cena que parece preparar um encontro amoroso. Mas não um encontro amoroso que ao longo dos séculos os poetas-homens haviam descrito - o enamoramento, a paixão platónica, o serviço à senhora distante - antes um encontro bem concreto de dois amantes e a vivência do amor físico. O eu feminino é que aqui age: despe a roupa, corre as cortinas para criar intimidade, envolve o pescoço do amante com as suas pernas e usa ambos os corpos ("sombra do meu poço", "novelo" e "roca de fiar" são imagens bem plásticas para os órgãos sexuais) procurando e dando prazer: "a fim de te ouvir gritar". Extraordinário aqui é o facto de se instituir um eu feminino que não só age com autonomia como dá ordens a um tu: "não contes" e "deixa que". O eu pede ou melhor, ordena que o tu guarde segredo e nesta fala revela o que de facto está a fazer. Essa cortina que ela corre afinal não vai calar o que se passa atrás dela. A mulher age e, ao pedir ao amante que não conte nada, assume ela a voz que, sem rodeios, conta e canta o amor erótico. Não só ela parece tomar a iniciativa no espaço íntimo da vivência amorosa, como - e isso ainda me surge mais revelador - se torna ela a dona da escrita. E, se algumas dezenas de anos antes, Florbela Espanca havia exprimido o desejo veemente: "Eu quero amar, amar perdidamente", aqui a voz além de transformar a passividade secular feminina em actividade, descreve esta sem pejo. E o tu masculino terá de calar a sua experiência porque agora é ela que fala! A "sombra espessa" do espaço e "a sombra do meu poço" são afinal expostas às claras, numa revelação subtil a querer contrariar o próprio título do poema: o segredo deixa de o ser. Subvertidas aparecem palavras como cortinados, anel, novelo ou roca de fiar, todas elas numa acepção concreta referindo-se ao lugar destinado à mulher desde sempre: os cortinados que resguardavam "a casa portuguesa", o anel que selava o casamento sobre o qual se alicerçava a sociedade de então, novelo e roca representavam o trabalho caseiro e os lavores femininos, sinais visíveis da dona de casa exemplar. Estes sinais sofrem aqui uma transformação transgressora, para a época no mínimo escandalosa, pois invertem valores instituídos e não questionados, que, aplicados numa conotação erótica e sexual, contestam não só a ideologia vigente como toda a sociedade.
Sociedade que irá levar com o 25 de Abril de 1974 uma reviravolta a todos os níveis: na moral, nos comportamentos, nos afectos, nas artes. Por isso subsiste neste pequeno poema de 1972 uma chama revolucionária que quer iluminar o corpo feminino e o corpo do texto: ambos se vão libertar de grilhões seculares e arrogar-se voz e presença. Neste sentido, este poema e muitos outros de Maria Teresa Horta assim como muitos textos de outras vozes femininas de então, fizeram, ao transgredirem e subverterem a ordem moral do Portugal de então, fizeram, repito, também eles (os textos!) e ELAS (as escritoras!) o 25 de Abril.
Fonte: Nova Cultura (acedido em 5-01-2012)
281. Viagem
ilustração de Sophie Bleck
Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar…
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos).
Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura…
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar.
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